Obras na Borges de Medeiros. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Lama e fúria nas obras da cidade

Esta curiosa reportagem fotográfica do Correio do Povo, de 7 de julho de 1927, dá o retrato de uma cidade em plena modernização… paralisada. Naturalmente, já se esperava que as inéditas e ambiciosas obras viárias, de modernização da infra-estrutura e higiene da cidade trariam grandes contratempos à população. Acrescente-se a isso uma paralisação temporária, em função do que provavelmente foi uma falta de recursos, e tem-se a receita para grande insatisfação e transtorno. Assim reporta o jornal, ironizando a administração municipal, à época no comando de Otávio Rocha, pela incompetência na gestão de tantos canteiros de obras.

A matéria traz uma fotografia impressionante, ainda que pouco nítida, do trecho sul da atual avenida Borges de Medeiros ainda com prédios demolidos e o desaterramento a meio caminho.

No frio de um mês de julho, a lama onipresente deveria dar um aspecto desolador à cidade…

Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. A grafia original foi mantida.
Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. A grafia original foi mantida.

“As graves consequencias da paralysação das obras municipaes[1]

Em nossa edição de sabbado ultimo, noticiando a paralysação dos serviços municipaes, fizemos uma rapida resenha dos differentes pontos, que mais soffreram com esse collapso administrativo.

Voltamos, hoje, ao assumpto, uma vez feita segunda e mais demorada visita aos lugares abandonados, com dados photographicos, que illustram efficientemente as notas que abaixo registramos.

Dessa inspecção, voltamos com a desoladora certeza do descalabro que isso significa para a propria economia municipal, já de si exhausta pelo esforço delirante de uma carreira às cegas e a meio detida por absoluta carencia de recursos.

Rua Coronel Fernando Machado

Iniciámos os nossos serviços de reportagem pela rua Coronel Fernando Machado, antiga do Arvoredo, na quadra comprehendida com o Lyceu. O leito da rua, baixado em varios metros, corta-se de fundos vallos, onde a lama e as poças de agua morta tranquilamente reflectem o pittoresco das casas encarapitadas ao alto, plagiando velhas aquarelas de romance.

Ao lado direito, como a calçada fique a uns tres metros do leito da rua, foram encostadas escadas de madeira, por onde os transeuntes, depois de um arriscado jogo de gymnastica, chegam á quadra seguinte.

Ali, inverte-se a manobra: nova escada junto ao barranco de terra vermelha é pouco aceado convite a uma ascenção penosa e, estheticamente, pouco recommendavel aos elegantes da zona.

Enfim, depois desses sérios percalços e exercícios plenamente dispensáveis, consegue o infortunado passante chegar a um trecho mais ou menos calçado, onde recupera as forças perdidas no desgracioso exercicio de ‘sobe e desce’.

Como a paralysação dos serviços naquelle movimentada rua depende do ‘quando houver dinheiro’, um gaiato qualquer lembrou-se de collocar nos barrancos vermelhos e vertiginosos, um annuncio reconfortador de ascensores publicos.

E a idéia não é má…

Obras na Fernando Machado. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.
“O actual estado da rua Coronel Fernando Machado, vendo-se a differença entre o nivel da calçada e o leito da rua”. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Avenida Borges de Medeiros

Passamos, depois, ao inicio da avenida Borges de Medeiros: ali o aspecto não era mais risonho, a mesma lama irritante, as mesmas poças d’agua e ladeando-as, predios em ruinas, outros demolidos a meio.

Duas quadras além, a perspectiva é cortada por um novo e altíssimo barranco, encimado pela philosophia de um poste telephonico, contemplando serenamente o descalabro infeliz lá-baixo.

Porque a grande avenida que seria uma arteria de movimento e de vida, pomposamente assignalando o ‘rapido desenvolvimento da nossa capital’ não passa de um campo de lama e de ruinas, distinado [sic] a contar aos futuros a historia do sonho de megalomania, enterrado pelos proprios destroços, á espera do distante e pouco provavel ‘surge et ambula’ do messianismo administrativo.

Não importa que uma rua soffra uma interminavel syncope de transito: demolir é hoje a mais suggestiva expressão de capacidade governamental…

Obras na Borges de Medeiros. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.
“A maravilhosa perspectiva da avenida Borges de Medeiros, vista da rua Coronel Genuíno”. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

A avenida da Azenha

Mais além, a Azenha.

Ali, também, era preciso que se fizesse sentir a força do ‘progresso’, e isso em se tratando de ‘pôr abaixo’ era de facil effectivação. Novas demolições: predios sem piedade derruidos e a rua da Azenha.. não ficou mais larga!

Porque? Ora, para isso é necessario que seu lado esquerdo fosse terraplenado inteiramente: é verdade que a clarividencia edilicia cogitou brilhantemente disso: algumas carroças de aterro foram despejadas no meio da varsea inculta.

Lá ainda continua constituindo uma estradinha de pilheria, um caminho de ratos impagavel que vae desembocar grotescamente no forno do lixo.

Não importa! A rua da Azenha será alargada, affirma-o solemnemente o porta-voz official.

Isso deve bastar: não sejamos irreverentes, tentando enfeitar-nos com os attributos divinatorios.

O futuro dil-o-á, mau grado a sua elasticidade em flagrante contraste com a paciencia precaria da população alarmada.

O forno do lixo

Falamos no Forno do Lixo e a elle temos que voltar em que pese o ingrato e explicaval mau odor do assumpto.

A municipalidade, tão prodiga em ‘creações’, resolvera doar á cidade um novo fôrno do lixo. O local escolhido foi a rua São Manoel. E embora fosse contra indicado a edificação de tão anti-hygienico monumento ao progresso, numa rua de movimento como aquella, a coisa ficou assente.

As celebres carrocinhas descarregaram nos fundos da olaria, ali existente, varios metros cubicos de cascalho. Depois uma casa de madeira e prompto!

O novo forno do lixo está á espera de oportunidade.

Reflexos, talvez, do governo federal com referencia á concessão da amnistia…

A rua Independencia

Da rua São Manoel, passamos para a Independencia. E uma coisa nos surprehendeu a curiosidade bisbilhoteira de reporters.

Ao lado dos grandes e orgulhosos combustores de illuminação, militarmente atirados para o alto, havia uma floração liliputiana e infantil de pinheirinhos.

Não conseguimos acertar o significado ornamental daquela originalidade:

O dia de Natal anda tão longe ainda!

João – rua Moura Azevedo

O frio impertinente punha-nos de mau humor, com o aggravante daquella visita á nova Pompeia, que, esporadicamente, floria em pleno seculo vinte. Mas os cavacos do officio demandavam aquella perada de destruição e havia muito para ver.

E no caso, o photographo praguejante, fazia as vezes de Cyreneu com cruz e sem paciencia…

Chegamos á rua Moura Azevedo.

Ali tomando uma extensão de tres quadras, approximadamente, exhibia-se uma fila enternecedora de canos de cimento, cujo destino era a canalisação das aguas, convergentes para aquella rua.

Mas, segundo o exemplo de seus collegas de infortunio, aguardavam elles pacificamente a opportunidade distante.

E quando ella chegar, novos canos serão necessarios, porque os de agora já serão prova provada daquelle rudimentar axioma de physica primaria ‘…tudo se transforma’.

E na poeira das ruas póde muito bem bailar a alma velhinha dos canos que ‘já foram’…

Canos expostos na rua Moura Azevedo. Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.
“A longa fila de canos de cimento enfileirados ao longo da rua Moura Azevedo à espera de ‘opportunidade’… Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Voltamos ao centro. Deixamos por um momento aquella visão ingratissima de ruinas em sucessão a novas duinas.

Mas os fados adversos nos fizeram tomar a rua Riachuelo e na quadra seguinte á rua Marechal Floriano, fomos deridos por novo aspecto da ‘debacle’ administrativa.

Escandalosamente, a projectada avenida Julio de Castilhos repetia as scenas […]res: barrancos, predios demolidos, lama… E tudo só dois passos da rua dos Andradas!

Francamente, ao vêr o ineditismo da nova Pôrto Alegre tem que acorrer aos […] abertos num grande ‘oh’ de admiração, essa pergunta […] turista curioso e ingenuamente perverso.

– Oh! senhores, o […] mudou de residencia?”

Autoria desconhecida.

Referências:

[1] Correio do Povo, 07/07/1927. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. A grafia original foi mantida.

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