Capela do Império. Correio do Povo, 26/03/1929, Hemeroteca do AHMMV. Autoria desconhecida.

Império do Divino: uma devoção que sai do centro

Quem olha para fotografias da praça da Matriz do início do século XX nota que, ao lado da antiga Igreja Matriz de Porto Alegre, construída em estilo colonial português ainda no século XVIII, ergue-se bem ao lado dela uma capelinha gótica. Esta era conhecida como o “Império” do Divino Espírito Santo, e deu nome ao antigo beco descia da sua esquina nos altos da Duque de Caxias pela encosta sul do espigão em que está situada a cidade: o Beco do Império[1].

Edição sobre a Planta de Porto Alegre em 1906. Capela do Império (em azul) e Beco do Império (em amarelo). Mapoteca do IHGRGS.
Edição sobre a Planta de Porto Alegre em 1906. Capela do Império (em azul) e Beco do Império (em amarelo). Mapoteca do IHGRGS.
Edição sobre imagem do Google Maps. Localização da capela do Império (azul) e rua Espírito Santo (em amarelo).
Edição sobre imagem do Google Maps. Localização da capela do Império (azul) e rua Espírito Santo (em amarelo).

Durante muitas décadas a capela do Império abrigou a comunidade de devotos do Espírito Santo e organizou suas memoráveis festas. Estas contavam com feiras, danças, desfiles, foguetório e até sessões de cinema da Praça da Matriz, como o poeta e escritor Augusto Meyer tão vividamente relembra em seus Segredos de Infância[2].

Praça da Matriz com capela do Império. Virgílio Calegari, foto 216f da Fototeca Sioma Breitman.
Praça da Matriz com capela do Império. Virgílio Calegari, virada do século XIX para o XX, foto 216f da Fototeca Sioma Breitman.

 

Mas Porto Alegre crescia e, sem abrir mão de sua tradicional devoção com cada vez mais fiéis, aproveitou a onda de reformas urbanas para demolir não apenas a velha igreja Matriz, como também a capela do Império. A sua festa, então, que era sempre realizada nos altos da Praça da Matriz, pela primeira vez seria celebrada no que hoje é conhecido como Parque da Redenção, então periferia da cidade. E o Correio do Povo registrava essa inovação em entrevista com o Dr. Mário Totta, famoso médico, jornalista e então Imperador do Divino.

As festas do Divino Espirito Santo, no anno corrente, serão realizadas no Campo da Redempção[3]

Uma entrevista com o Dr. Mario Totta

A construcção da nova capella

O programma das festas

Tendo chegado ao nosso conhecimento de que na sessão realisada ante-hontem, na capella do Espirito Santo, haviam sido debatidos assumptos de relevante interesse, procurámos hontem ouvir sobre o caso o dr. Mario Totta, atual Imperador do Divino.

Com o seu proverbial cavalheirismo, aquelle medico accedeu promptamente á nossa entrevista.

Capela do Império. Correio do Povo, 26/03/1929, Hemeroteca do AHMMV. Autoria desconhecida.
Capela do Império. Correio do Povo, 26/03/1929, Hemeroteca do AHMMV. Autoria desconhecida.

– Com effeito – disse-nos o dr. Mario – foram tratados na reunião de domingo, entre outros assumptos de conveniencias internas da Irmandade, dois que affectam tambem os interesses da collectividade. Figura entre esses a erecção de uma nova capella destinada ao culto do Espirito Santo. Velha aspiração da Irmandade, a construcção de uma egrejinha onde possam ser celebrados os actos religiosos referentes á devoção do Divino, essa idéa, por motivos vários era de anno a anno adiada. A construcção da nova Cathedral, abrangendo toda a arca que vae do Palacio do Governo á rua do Espirito Santo, trouxe como consequencia natural a proxima demolição do Imperio. Não poderia haver, portanto, occasião mais opportuna para a realisação do antigo ideal da Irmandade. Embóra o meu eminente e venerando amigo sr. arcebispo, com o seu accendrado amor pela nossa devoção, já tivesse destinado, na nova Cathedral, um logar especial para o culto do Espirito Santo mesmo assim o nosso coração não se satisfazia: era mister levantar a capellinha; havia na Irmandade o anceio de ver o nosso templo crescer mais um pouco.

– E conseguiu isso?

– Consegui. Depois de varias palestras que tive a honra e o prazer de manter com o sr. arcebispo, ficou por sua excia. resolvida a necessaria concessão para a construcção da capella. Foi essa uma das noticias que eu pude transmittir na reunião de domingo á Irmandade.

– E a noticia foi ao certo recebida…

– Com extraordinario contentamento. É, como lhe disse, a realisação de um velho sonho.

– E conta começar desde já a construcção?

– Desde já, se conseguir, como espero, um terreno.

– E com que meios, si não é indiscreção?

– É meu intento, e disso dei conhecimento á Irmandade, retirar do peditorio parcella para batermos a pedra fundamental. É a semente. A arvore crescerá depois, mercê dos cuidados que lhe hão de dispensar os zeladores que me seguirem. Não há um único lar christão dentro desta cidade que não possua uma imagem do Espirito Santo, e abençoal-o. Eu conto com o coração de Porto Alegre. Creio mesmo que, dentro de dois a trez annos, no alto da torre da nova capella, os sinos annunciarão as nossas missas dominicaes. Devo accrescentar, já que toquei na questão do peditorio, que tenciono tambem reservar uma parte delle para uma instituição de caridade; é necessario que os infelizes, os que não podem gozar o fulgor e a alegria das festas participem das dadivas que são colhidas á sombra da bandeira do Espirito Santo.

– E o outro assumpto tratado na reunião?

– O outro diz respeito ás proximas festas do Espirito Santo. É minha intenção como imperador do Divino, reviver, até ás raias do possível, a tradição.

– Na praça da Matriz?

– Não. Já não é local apropriado para os festejos externos; nem dentro della se poderia actualmente levar a effeito o programma de festas que idealisei. Accresce, ainda, uma circumstancia ponderosa: com as excavações determinadas pela construcção da nova Cathedral, a capella do Imperio não offerece tranquilisadora segurança para supportar a massa enormissima de fieis que durante os quatorze dias de festa, num vae-vem verdadeiramente formidavel, calculado diariamente em milhares de creaturas, ondula e se acotovéla dentro daquella egreginha, em busca de pombinhas, medalhas e registros. Eu mesmo, receioso de uma catastrophe, já tinha resolvido que antes dessas romarias, a capella fosse vistoriada por profissional idoneo.

– E então?

– Então pensei em levar a effeito o meu programma: realisar este anno as festas no Campo da Redempção, com varias diversões, entre as quaes figuram o leilão de offertas, cinema, interessantes effeitos de luz, dansas antigas, jardineira, fógos de artificio…

– E os actos religiosos?

– Esses serão culminados por imponente missa campal. As novenas realisar-se-ão, provavelmente, na egreja do Bom-fim.

– Esse programma está definitivamente resolvido?

– Á pedra e cal. A sua realisação dependia, em primeiro logar, como é natural, da acquiescencia do venerando sr. arcebispo, que com o seu espirito preclaro e a sua reconhecida cordura, lhe deu completo assentimento. Dependia, em segundo logar, do sr. intendente municipal. Chego neste instante de lá e sua senhoria, com a melhor bôa vontade, attendeu tambem, gentilmente, ao meu pedido.

– De sorte que teremos este anno as festas…

– No Campo da Redempção. E agora, concluiu o dr. Martio Totta, permitta o meu amigo que trocando os papeis e usando de um direito de confrade de imprensa, eu tambem interpélle: – que tal a idéa?

– Magnifica!”

Autoria desconhecida.

Correio do Povo, 26/03/1929, Hemeroteca do AHMMV.
Correio do Povo, 26/03/1929, Hemeroteca do AHMMV.

 Referências:

[1] Também foi conhecido como beco do Cemitério, hoje a rua Espírito Santo.

[2] MEYER, Augusto. Segredos de infância; No tempo da flor. Porto Alegre: IEL/Editora da Universidade/UFRGS, 1996. P. 60-68.

[3] Correio do Povo, 26/03/1929. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho. A grafia original foi mantida.

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