Estado do Rio Grande, 06/02/1930, p. 5. Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.

“A esthética do cimento armado”

Desde o século XIX as tecnologias construtivas vinham avançando em velocidade sem precedentes, sobretudo graças ao desenvolvimento da indústria. Materiais como o ferro fundido possibilitavam erguer enormes pavilhões de grandes vãos, e sua trama instigava os projetistas a explorarem uma estética totalmente nova. Da mesma forma, o cimento armado acelerava as construções e permitia que edifícios chegassem a alturas nunca antes alcançadas, verticalizando a paisagem urbana.

Contudo, ainda se buscava cobrir esses materiais com os frisos, rusticações e ornamentos escultóricos tradicionais, mas com cada vez menos convicção. Afinal, o tempo dos bondes, do rádio, dos ônibus e da eletricidade exigia o abandono gradual do estilo arquitetônico eclético de base greco-romana e barroca em prol de uma estética mais afinada com todas as novas tecnologias.

Especialmente na Europa do pós-guerra, com a destruição de cidades e a necessidade de reconstrução aliada à indústria, as pesquisas por uma nova linguagem arquitetônica de menor custo e que expressasse sem roupagens tradicionais a beleza dos materiais estava na ordem do dia. No Brasil, essas inovações chegaram menos como resultantes de profundas transformações sociais, políticas e econômicas, e mais como uma nova moda.

É o que mostra, em sua edição de 06/02/1930, o jornal Estado do Rio Grande, em artigo ilustrado com projetos que bem refletem a estética despojada do cimento armado, novidade à época.

“A esthética do cimento armado[1]

A architectura moderna

A orientação dominante na architectura européa contemporanea é a de realizar-se, deliberadamente, o maximo de simplicidade, na confeição das fachadas.

Essa refórma francamente revolucionaria nos dominios da architectura, empolgou a attenção dos intellectuaes europeos, que muito teem discutido o difficil assumpto.

Há os que affirmam que a architectura desprovida de ornamentos é fria e revela falta de imaginação; para elles, a arte nova é mero trabalho de engenheiros despidos de faculdades creadoras, que procuram supprir com o raciocinio e o calculo.

E affirmam que o novo typo de construcção não constitue uma refórma. Trata-se de um movimento innovador, de carácter semi-cubista, visando apenas attrair a attenção, com o abandono de todos os recursos até agora adquiridos.

Há, porém, os que consideram as novas tendencias architectonicas como uma formal esperança de melhores tempos para essa arte.

Despojados os architectos do futuro e os actuaes mesmo, do pesado lastro dos seus conhecimentos academicos collocados frente a frente ante os materiaes novos e não ante os livros de outras épocas; submetidos à incluencia da idéa nova que procura a simplicidade da vida e da casa, como meio de proporcionar a todo o mundo habitações commodas e hygienicas, taes architectos tem uma funcção importantissima a realizar.

Por outro lado, o novo typo permitte melhor se tenha em vista [sic] a construcção em conjunto, tornando assim o seu trabalho igual ao do esculptor.

Deixa a sua arte de caracterizar-se por uma porta, ou um balcão, para valer como um todo unico e harmonico.

A nova tendencia architectonica, que tem inimigos acirrados e partidarios enthusiastas surgiu quasi contemporaneamente na Allemanha, França, Belgica, Italia e Suissa, e, dia a dia, mais se vae disseminando.

Ganhou popularidade – é uma idéa vencedôra.

Terá vitalidade sufficiente Para assignalar rumos novos aos artistas do seculo do cimento armado?

Só o tempo permittirá a resposta.”

Autoria desconhecida.

Estado do Rio Grande, 06/02/1930, p. 5. Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.
Estado do Rio Grande, 06/02/1930, p. 5. Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.

Referências:

[1] Estado do Rio Grande, 06/02/1930, p. 5. Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

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