Como era a vida das crianças dos becos de Porto Alegre? Esse texto de Athos Damasceno Ferreira dá poucas pistas a esse respeito, mas usa uma linguagem reveladora sobre a forma com que elas eram vistas quando se aventuravam pela cidade – e, pelo jeito, em bandos. O autor usa palavras que sinalizam uma percepção de algo fora do seu lugar (“os casebres vomitavam) e que invadem ilegitimamente a cidade das “famílias direitas” como “hordas de bárbaros”.
E essa linguagem vem atrelada a uma clara racialização das crianças dos becos, bem como ao uso do chicote para contê-las, numa clara permanência de costumes dos tempos da escravidão. A violência com que os embates se davam era combatida à altura pela polícia na forma dos ratos brancos, como eram chamados os policiais de Porto Alegre nas primeiras décadas do século XX, devido à sua farda clara, chegando mesmo a haver meninos mandados à força para a Marinha.

A molecada dos becos1
“Danças e cantigas se prolongavam até ao escurecer. Aí, as mães prudentes chamavam as meninas para dentro, porque a molecada dos becos próximos invadia, de súbito, a rua, como hordas de bárbaros, aos gritos e trompaços.
Contra a récula2 infrene3 que os casebres vomitavam, de todos os lados, a Cidade não podia nada.
Os perna-finas, os gaforinhas4, os beiçolas5 tomavam, de assalto, as calçadas e os passeios, ocupavam as praças, galgavam os muros, vadeavam os pátios, entravam pelos corredores escuros – tinham-se como donos do burgo aturdido que eles dominavam inteiramente.
Queixas, protestos, reclamações pouco adiantavam.
Havia o recurso do chicote.
As surras, porém, não davam resultado.
Moleque sovado – moleque dobrado.
Ainda com os lanhos da sumanta5, ardendo, ainda com os vergões do vergalho, empolados e roxos, ganhavam a rua, protegidos pela escuridão da noite, e era só lampião apagado, vidraça partida árvore despencada – uma devastação em regra.
De vez em quando, as autoridades tomavam medidas enérgicas.
Os rato-brancos6, auxiliados por praças da força pública, caíam de surpresa em cima daqueles cardumes ruidosos que eram mandados pra Marinha, no Rio de Janeiro, como castigo.
A cidade sossegava um pouco.
Enquanto durava o medo da limpa, os que tinham escapado à colheita temível se encolhiam, por algum tempo, e não davam sinal de vida.
Depressa, porém, tornavam a organizar-se e de novo enfestavam as ruas.
Agrupados e ‘coudelarias’ – assim designavam eles os bandos perturbadores – os moleques voltavam aos ataques e reiniciavam as depredações.
Eram verdadeiros exércitos essas ‘coudelarias’7.
Havia a coudelaria da rua da Ponte. A do Alto da Bronze. A da rua da Varzinha8. A do Beco do Poço9. Inúmeras.
Lutavam umas contra as outras.
Meninos de ‘família direita’, muitos, se incorporavam aos bandoleiros e, de parceria com eles, enfiavam nos entreveros de que, vezes sem conta, saíam seriamente feridos.”
Athos Damasceno Ferreira
Referências:
1 FERREIRA, Athos Damasceno. Imagens sentimentais da cidade. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1940, pp. 87-88. A grafia foi atualizada.
2 O mesmo que bando, súcia.
3 O mesmo que sem freios.
4 Forma pejorativa de designar cabelo de pessoas negras.
5 Uma referência a lábios grossos.
6 A forma como os policiais urbanos eram chamados devido ao seu fardamento claro.
7 Lugar onde se cria cavalos.
8 A atual rua Washington Luiz.
9 O famoso beco, trecho da rua General Paranhos, que foi aberta para dar lugar à atual avenida Borges de Medeiros.
