À primeira vista, apenas mais uma peça publicitária disfarçada de reportagem no Diário de Notícias, mas, à luz da história cultural, uma fonte muito interessante de pistas sobre como era o quotidiano na Porto Alegre do início dos anos 1940.
O longo texto, que inicia, quase como de costume na época, enfatizando as grandes mudanças urbanas que catapultavam a capital gaúcha à categoria de grande metrópole, deixando para trás seus costumes provinciano, trabalha a valorização da cachaça ou caninha, procurando reapresentá-la como um aperitivo refinado, produzido a partir de sofisticada formulação, e digno de fazer parte dos hábitos das boas famílias. É provável que esse esforço, que inclui sugerir propriedades medicinais para a bebida, se dê em função do seu caráter popular, portanto, relacionado às camadas mais pobres da cidade, e das quais os fabricantes procuram desvincular o seu produto na busca de um público consumidor mais abastado.
“Lançado no mercado um aperitivo insuperável com grande sucesso, a nova ‘Caninha Parobé’1
Um aperitivo que nasceu pra vencer – a rehabilitação da ‘caninha’ – O porto de venda da Praça Parobé – Uma fórmula que vale uma fortuna
O dizer-se não constitui repetição inútil. É apenas a exteriorização de um fato concreto. Porto Alegre já é uma cidade. Uma grande cidade. O seu movimento, o seu comércio, as suas indústrias, tudo, enfim, apontam-na como um centro que já pode figurar entre as metrópoles sul americanas.
Consequentemente, os habitantes desta ‘mui leal e valerosa cidade’ sofrem os fenômenos dos grandes centros. Deixamos os dias de calma e descanso da Porto Alegre aldeia, da Porto Alegre vila, da Porto Alegre província, para vivermos os dias tumultuosos, movimentados, intensos da capital gaúcha, cidade terceira do Brasil.
Já passou e não mais voltará o tempo de picarmos o ‘crioulo’ nas esquinas. Agora tudo é pressa, tudo é movimento, tudo é velocidade. Vivemos a vida dos grandes centros. Já somos cidade.
Uma consequência: terminado o trabalho, encerrado o expediente de nossa repartição, de nosso escritório, de nossa oficina, onde tudo é vibração, movimento intensidade, sentimos a necessidade de um descanso, de uma ducha em nosso cérebro, de um revigorante qualquer. Daí o movimento que agora já se sente intenso dos ‘bars’, das confeitarias, dos restaurantes. Daí a necessidade imprescindível de todo o homem de trabalho de tomar o seu aperitivo, de sentir-se, tomando-o, mais senhor de si mesmo, mais independente. Daí, ao meio-dia e ao entardecer, reunião de grupos e colegas de repartição, de companheiros de trabalho, de amigos e conhecidos, para o clássico aperitivo.
Poucas pessoas, hoje, antes de suas refeições deixam de tomar o seu ‘aperitivo’. Já se tornou obrigatório, já entra no orçamento de cada um. É como si fosse o clássico ‘cafézinho’… E não se diga que apenas os homens de trabalho, os operários, os funcionários públicos, os batalhadores de todos os dias, de todas as horas, têm, atualmente, o saboroso vício… Poucas são as casas, raros são os lares que não oferecem, que não tomam, das 11:30 às 13 horas, das 17:30 às 20 horas, o seu ‘aperitivo’.
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Houve alguém que disse que a nossa velha, gostosa e apreciada ‘caninha’ estava sendo rehabilitada nos últimos tempos. De fato, o saboroso caldo fermentado da cana de açúcar, tão caluniado e menosprezado nos dias de ontem, hoje passou a ocupar para os brasileiros o que significa o ‘whiski’ para os britânicos, o ‘vodka’ para os russos, o ‘kurn’ para os germanos…
Vai, porém, para nós brasileiros uma vantagem. A ‘caninha’ é, indubitavelmente, uma bebida saudável, gostosa, e com mais qualidades que as bebidas estrangeiras. Extrato da cana de açúcar, tomada moderadamente, é ótimo aperitivo, regulador da digestão, estomacal notável. Não somente os apreciadores da ‘caninha’ atestam o seu gosto e as suas qualidade. Sumidades médicas recomendam um cálide de ‘caninha’ como medicamento, como auxiliar da digestão, como estomacal de raras qualidades.
Mas… E em todas as coisas existe um ‘mas’… Nem todas as ‘caninhas’ que se apresentam no mercado são puras. As ‘misturas’ deturpam o produto, envenenam o consumidor e desmoralizam a bebida. Por outro lado, ‘caninha’ apenas suco de cana de açúcar, sem aliar-se a qualidades terapêuticas, poderia parecer um vício, como o do fumo, do jogo, etc. Necessário se tornava aliar ao agradável o útil e o proveitoso.
Nasceu daí a ‘caninha’ Parobé. Foi como se o produto nacional vestisse roupas finas, tomasse ares de ‘grand-monde’.
Não seria de bom tom, naturalmente, ontem, oferecer-se numa festa uma ‘caninha’ aos convidados. Não seria agradável convidar-se um amigo para tomar uma ‘caninha’. Mas tudo isto teria um aspecto mais agradável si pudéssemos oferecer um aperitivo, a base da ‘caninha’, indubitavelmente, como acima dissemos, a melhor e mais agradável das bebidas nacionais, como si fora um licor estrangeiro, fino, velho, gostoso, famoso…
Isto temos, agora, com a ‘Caninha Parobé’, produto de incomparável valor no seu gênero, alinhando-se entre as mais deliciosas e famosas bebidas estrangeiras.
Lançado ontem o produto
Os srs. Di Leone & Vasques, proprietários da banca n. 11 do abrigo da Praça Parobé, fizeram, na manhã de ontem, o lançamento oficial do grande produto no mercado local. Ao ato compareceram inúmeras pessoas de destaque no comércio e sociedade local, representantes da imprensa e rádio e outras pessoas gradas.
A ‘Caninha Parobé’ será distribuída na capital e interior pelos seus lançadores, srs. Di Leone & Vasques, na banca n. 11 da Praça Parobé.
Uma palestra reveladora
Momentos após o ato de inauguração do ‘stand’ de venda da ‘Caninha Parobé’, a nossa reportagem teve oportunidade de palestrar com o sr. Di Leone, que nos forneceu interessantes dados sobre o produto que acabava de lançar.
‘A caninha nacional – fala o sr. Di Leone – é uma das bebidas mais delicadas que existem, me refiro à cana de pura cana, que não sofreu alteração, e que da sua zona de produção, viajou até seu ponto de destino, sem alterar-se bem embarrilada, e sem sofrer o famoso ‘batismo’, que concorre para alterar-lhe em 100%, deturpando-lhe o gosto, e tornando-a verdadeiramente intragável e o que é mais importante, prejudicial à saúde! Falo da cana boa, sem precipitados, de cor uniforme, devidos a seu mau acondicionamento e mesmo má fabricação. Quando resolvemos lançar a ‘Caninha Parobé’, nos moveu exclusivamente o interesse de lançar um artigo bom em praça, daí e sem exagero, ser de bem difícil diferenciação entre um conhaque e a ‘Caninha Parobé’… Adquirimos a caninha em grandes partidas e na sua fonte de origem, para a manipulação da ‘Caninha Parobé’, sendo toda a remessa por nós importada, examinada zelosamente pelos nossos técnicos, antes de ser manipulada quando então é adicionada nossa fórmula original – à base de ervas medicinais – e finalmente engarrafada.
Quando, nas repetidas viagens que empreendi, a São Paulo, Rio, Montevidéu e Buenos Aires, sempre estive em contato com os principais fabricantes de licores, destilarias, etc, tendo sempre oportunidade de verificar de perto as mais variadas novidades da indústria licoreira. Na minha última viagem a Buenos Aires, chamou-se a atenção de forma notável, uma fórmula ainda não empregada, para ser adicionada à bebida de elevado teor alcoólico.
Esta fórmula, de propriedade de conhecido e competente químico italiano, como qual mantenho relações há largos anos, foi-me cedida, aliás por preço elevadíssimo, tendo naquela ocasião, nos laboratórios de Buenos Aires, submetido a referida fórmula às mais variadas pesquisas, resultando sempre ótimas as reações verificadas. Na sua composição entram vegetais de nossa flora, todos de propriedades medicinais, constituindo um estimulante do apetite, e não afetando de forma alguma as funções dos órgãos internos, sendo também ótimo para o estômago.
Já obsequiei a centenas de entendidos que com as amostras por mim fornecidas da ‘Caninha Parobé’, tem-na experimentado de todas as maneiras, sendo eles unânimes em afirmas a excelência do produto. É curioso, que a propaganda feita pelas pessoas a quem forneci amostras grátis, para as ‘provas’ preliminares, foi tão grande que vi-me na contingencia de anteceder em muito a inauguração e o lançamento do produto, estando com a produção quasi vendida já. Quando pensei na fabricação da ‘Caninha Parobé’, indicaram-me a Destilaria Rui Barbosa, que por sua reconhecida competencia e escrúpulo confiei a fórumla. Das qualidades da ‘Caninha Parobé’ o público dirá, pois estou certo encontrará o conhecedor nesta ‘caninha composta’ o ideal para abrir o apetite, para aperitivos, enfim para as mil e uma ‘provas’.
Empregos que uma boa caninha sempre encontra
À inauguração do posto de vendas e lançamento da ‘Caninha Parobé’ na manhã de ontem, esteve presente elevado número de pessoas que muito felicitaram aos srs. Di Leone & Vasques pela sua iniciativa em lançar um produto que, sem dúvida, vem preencher um claro em matéria de aperitivos. A banca 11 da Praça Parobé está muito bem organizada, com instalações modernas de acordo com as determinações do Departamento Estadual de Saúde, localizada num dos pontos mais movimentados da metrópole. Os srs. Di Leone & Vasques obsequiaram os presentes à inauguração com o aperitivo de sua fabricação, a ‘Caninha Parobé’, doces, frios, etc. A inauguração teve lugar na manhã de ontem, às 11 horas prolongando-se até às 12 horas, tendo todos se retirado satisfeitíssimos com as gentilezas em que foram pródigos os srs. Di Leone & Vasques.”
Matéria não assinada

1Diário de Notícias, julho-agosto de 1941. Hemeroteca do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa. A grafia foi atualizada.
