De 18 a 22 de junho últimos tive a imperdível oportunidade, através do convite da Profa. Dra. Gildaris Pandim, do Leitorado Brasileiro de Cabo Verde, de visitar o arquipélago pela primeira vez, o que constituiu também pela primeira visita a um país africano. Para quem não sabe, esse arquipélago situado no Atlântico, entre a África e a América Latina, possui dez ilhas, sendo nove delas habitadas, e constitui um ponto de ligação entre os dois continentes e também a Europa.

Mais precisamente, visitei Praia, a sua capital, situa-se ao sul da ilha de Santiago, a maior do arquipélago, e foi lá que tive a honra de ministrar uma oficina de histórias em quadrinhos, ou, como eles dizem, banda desenhada, e uma oficina de desenho de patrimônio na Cidade Velha.

A primeira oficina se deu na Biblioteca Nacional, amplo espaço novo e bem situado, em que tive uma pequena turma atenta de estudantes de nível superior e do colegial. Na sala de reuniões, discutimos diversos aspectos da produção de uma história em quadrinhos, sendo que no primeiro dia, fui mesmo brindada com uma visita guiada por eles ao Arquivo Nacional! Ali pude ver o agudo interesse e a multiplicidade de histórias do país que podem ser contadas em quadrinhos, e pude aprender, através dos alunos, sobre muitos dos episódios da história de Cabo Verde. Mesmo sendo também um país de colonização portuguesa, como o Brasil, a sua independência recente e situação geográfica, entre outros aspectos, dão a Cabo Verde uma trajetória muito diferente. Já naquela primeira tarde, pude tomar conhecimento de histórias e momentos da vida política e social de Cabo Verde de que, em geral, não temos idéia no Brasil.

De qualquer forma, pude ver que há muitas pessoas lá interessadas na linguagem das histórias em quadrinhos, e que tem muito a contar. Uma vez que levei diversas publicações independentes de quadrinhos brasileiros, pudemos discutir possibilidades de produção e viabilização financeira com base em alguns exemplos concretos. Todas ficaram lá, como parte do acervo da Biblioteca, na esperança que sirvam para irmanar através dos quadrinhos os artistas, roteiristas, editores e amantes da nona arte caboverdianos e brasileiros. Além da língua, penso que temos muito em comum e a conhecer mutuamente!

Falando na língua, muitas pessoas me perguntaram se eu entendia sem problemas o “sotaque” caboverdiano. Sim, sem problemas, a comunicação é facílima, e em seguida acostumei o ouvido ao acento que lembra muito o português de Portugal. Já o caboverdiano ou o crioulo de Cabo Verde é outra história! Segundo a professora Gildaris, o crioulo de Cabo Verde tem vocabulário baseado no português, o que facilita um pouco as coisas a uma brasileira como eu, porém, a sua sintaxe é africana. Assim, a articulação dos verbos, por exemplo, é bem diferente do que uma pessoa lusófona espera. Ou seja, precisa de estudo. Mas, como me ensinaram meus alunos de banda desenhada, coragi fitchado, ou seja, coragem e determinação para enfrentar a dificuldade!

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“O Caboverdiano de bolso” – coleção Assimil. Parece fácil, mas não é!

 

Entre uma oficina e outra, pude até tomar um banho de mar. Um mergulho maravilhoso na pequena praia chamada Kebra Kanela, bem próxima à residência de trânsito da Embaixada Brasileira, onde fiquei hospedada. Mas desse final de tarde num Atlântico bem mais sereno e bem mais cristalino que o das praias gaúchas, não tenho nenhuma foto. Foi preciso deixar o celular de lado e imergir no momento…

Também entrementes, pude proferir uma breve palestra sobre a lusofonia e os quadrinhos brasileiros no Instituto Internacional da Língua Portuguesa, no Plateau, em que apresentei diversos aspectos da produção de quadrinhos independentes no Brasil e um apanhado de seus autores e autoras que mais dialogam com a questão da lusofonia, da cultura regional e das ligações do Brasil com a África.

Nos últimos dois dias da estadia, tive a oportunidade única de conhecer técnicos do Instituto de Patrimônio Cultural (IPC) de Cabo Verde, todos alistados para um primeiro dia de conversa e apresentação de alguns dos meus trabalhos na área da ilustração para arqueologia e expografia, seguida de uma tarde de apresentação de prática com alguns materiais de trabalho. A formação se deu no Centro Cultural Brasileiro em Praia, onde também pude conhecer a professora e jornalista Marilene Pereira, residente de há muito em Cabo Verde e autora de vários livros em colaboração com autores e artistas locais. Já no primeiro momento, na parte da manhã, enquanto discutíamos as possibilidades do uso da ilustração como ferramenta de apresentação de patrimônio e sítios arqueológicos, pude ver o grande interesse e as inúmeras possibilidades que esse tipo de desenho teria em Cabo Verde. A Cidade Velha, a poucos quilômetros de Praia, é classificada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, e traz em seu traçado urbano vestígios impressionantes dos tempos das primeiras ocupações pelos portugueses, que começaram já no século XV. Como costumo dizer, a ilustração colocada ao serviço da apresentação de patrimônio e reconstituição arqueológica é um recurso importantíssimo e relativamente barato para países como Brasil e Cabo Verde, que de forma geral contam com parcos fundos destinados à aplicação em cultura.

Na parte da tarde, pudemos experimentar juntos as possibilidades de materiais simples para o registro e produção de ilustrações de patrimônio, como blocos de papel A5, lápis, caneta nanquim e aquarela. Num breve exercício, registramos elementos construtivos do próprio Centro Cultural Brasileiro, num treinamento para o que viria na manhã seguinte.

Nela, fomos todos fazer uma visita à Cidade Velha, primeira capital da Cabo Verde, e que se apresenta riquíssima em sítios arqueológicos e ruínas de monumentos e equipamentos urbanos típicos de ocupação portuguesa: pelourinho, Sé Catedral, Igreja do Rosário, Santa Casa de Misericórdia, entre outros. Pelo que pude ver nas plantas da cidade mostradas pelos técnicos do IPC, o traçado urbano também se mostra tipicamente colonial português, como em diversas cidades brasileiras: em sítio alto e junto ao mar, ruas correndo ao longo das curvas de nível para suavizar o percurso do terreno acidentado.

Enquanto os alunos da formação prática produziam desenhos de observação na Praça do Pelourinho, o arqueólogo Jaylson me conduziu por um fascinante tour pelos sítios arqueológicos, monumentos restaurados ou não, e escavações recentes da Cidade Velha. Foi realmente impressionante tomar contato com tantos vestígios de ocupação que remonta a quase 600 anos, e ao mesmo tempo constatar problemas de preservação e descaracterização de sítios que também afligem muitos técnicos e historiadores no Brasil. De qualquer forma, foi uma experiência riquíssima em termos de aprendizado histórico e também de imaginar possibilidades de trabalho e produção de material a respeito da Cidade Velha. Quem sabe, num futuro próximo, será possível estabelecer cooperações mais duradouras no sentido de se produzir ilustrações a respeito da história do local, pois elas também tem um papel importante na conscientização e valorização desse patrimônio.

No pouco tempo que me restou livre, ainda pude passear pela rua pietonal do Plateau, fazer algumas compras e fotografias, e tomar um bom gelado de calabaçeira e bolacha. Ao longo da estadia, pude experimentar algumas iguarias locais, o que recomendo muito a quem visita Cabo Verde, e o mais importante: em companhia de caboverdianos e brasileiros residentes em Praia. O convívio com pessoas tão afáveis, interessadas e sempre prontas a compartilhar conhecimentos sem dúvida foi a melhor parte desta estadia, pois dá um rosto a cada história de vida, a cada experiência  e trajetória que, apesar de tão diferentes das minhas, em tantos outros aspectos são tão semelhantes.

Para não correr o risco de deixar alguém de fora, deixo aqui a minha admiração e gratidão a todas essas pessoas que me proporcionaram, em diveros níveis e momentos, uma experiência única e inesquecível. Uma experiência que me ajuda a ter um olhar para fora da minha “bolha” de classe média brasileira, de modo a ter contato com primeiras percepções do que é a vida num país africano e lusófono, e com as histórias e experiências das pessoas que o habitam. Como desconfiava antes mesmo da viagem, temos, no Brasil, muito a aprender com o olhar de Cabo Verde. Sobre nossas ligações com a África e sobre nós mesmas.

Espero poder voltar num futuro próximo, com mais tempo, para poder conhecer mais e apreciar mais tantas coisas boas que pude vivenciar em Praia.

Coragi fitchado! **

* Regionalismo do crioulo de Cabo Verde que quer dizer “amabilidade”, notoriamente no que diz respeito a receber visitantes. <3

** Algo como “coragem pro combate!” em caboverdiano.

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