A roda dos expostos vista de fora. Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.

“Vidas anonymas”: a roda dos expostos da Santa Casa

Se, por um lado, a vida das mulheres era especialmente dura nas cidades como Porto Alegre, por outro a Santa Casa de Misericórdia, estabelecida ainda nas primeiras décadas do século XIX, durante mais de um século acolheu os pobres e desvalidos, inclusive aqueles que recém nasciam.

A roda dos expostos, cuja instalação era uma medida para salvar crianças nascidas na miséria ou frutos de crimes ou romances inconfessáveis, esteve sempre presente na vida da cidade. Graças a ela, muitas meninas e meninos conseguiam salvar-se da morte certa, atendidos pelas Irmãs da Caridade da Santa Casa. Neste artigo do Correio do Povo de 23/4/1929, o autor discute as causas e consequências deste abandono na infância, e destaca que, no ano antecedente, apenas três crianças haviam sido aí deixadas.

Não apenas a cidade se modernizava, mas a indústria farmacêutica incipiente também modernizava os métodos contraceptivos disponíveis.

“Vidas anonymas[1]

Os parias – Quantas crianças abandonadas vão trilhar, amanhã, a senda do crime e do vicio? – E de quem a responsabilidade? – Uma roda que é como a roda da vida – Que é feito dos infelizes engeitados? – O destino das crianças que a miseria ou algum romance inconfessavel levam á ‘roda dos expostos’ – Notas curiosas

Durante o anno passado só tres crianças foram deixadas na triste roda da Santa Casa de Misericordia

Os párias…

Ha muito a literatura tomou-se de christianissima piedade pelos desherdados, pelos infelizes que atravessam a rude estrada da vida sem conhecer um lar, sem sentir o balsamo benefico do aconchego materno, sem ter, na alma deserta, que o tempo torna esteril e safara[2] a semente fecunda dos altos e melhores sentimentos que só o carinho da familia é capaz de florescer e fructificar.

Os párias…

Quantas vezes, diante de um criminoso, de um contraventor, de um vagabundo, não nos revoltamos, sem saber que esse transgressor da lei podia estar hoje num nivel à altura do nosso si não houvesse sido abandonado quando o seu pequeno coração e a sua alma tenra estavam em condiões de soffrer o milagre dos conselhos uteis, o influxo de uma educação moral, o exemplo de uma vida pura!

Os párias!

Nem sempre os desgraçados que comparecem á barra do Tribunal devem aos seus instinctos perversos os crimes por que vão responder. Ás vezes, os unicos responsaveis por esse doloroso desvio são os paes, creaturas desnaturadas, que lançam ao acaso da vida, sem sempre boa conselheira, pobres pequenos sêres, em cujo cerebro e em cujo coração só a semente do mal vae cahir.

"Vista geral da Santa Casa". Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.
“Vista geral da Santa Casa”. Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.

Miseria

É bem certo que ás vezes é a miseria a ultima responsavel.

Quem conhece os labirynthos que a desgraça crea nas cidades, sabe a que extremos são, muitas vezes, arrastados os pobres farrapos humanos, que são os homens, quando batidos pela tempestade das grandes desventuras.

Um quadro angustioso

Noite.

O frio cae do firmamento escuro, em que as estrellas são como flócos de neve tocados por um ultimo raio de sol morrente.

Dentro de casa, uma vivenda confortavel, em redor da mesa illuminada, a familia, feliz, faz um alegre serão, sem pensar nos que, áquella hora, dormem transidos de fome e de frio, nos desvãos de uma porta.

Subito, um chôro de criança. Um chôro fraco.

De onde virá?

Ergue-se a familia, que se dirige para a porta da rua de onde vem aquelle chôro extranho.

E ali, junto da escada, uma pequena trouxa, da qual duas mãositas roseas saem e se agitam.

Acercam-se todos.

É uma trouxa feita de velhos trapos.

Dentro della uma criancinha quasi arroexada, magrinha, de poucos dias.

E, agasalando-se do ar gelado que vem da rua, todos se perguntam, attonitos, incredulos:

– Mas, ha, no mundo, uma mãe ou um pae capaz de abandonar um filhinho junto da escada de uma casa desconhecida?

A vida

Esse episodio, que parece o prologo de um romance barato, em que um engeitado, pelas suas qualidades conquista, depois de homem, desde o amor de uma condessa ás mais brilhantes situações na sociedade, nada mais é do que uma das scenas mais profundamente crueis que a vida prodigalisa ás grandes cidades.

Por que foi abandonado esse pequeno sêr?

Por pura monstruosidade de seus paes, cujos instinctos inferiores nem aos das féras pódem ser comparados?

Para esconder um crime, o fructo de um amor peccaminoso?

Por miseria? Por que a mãe daquelle innocentiho nem o que comer tem?

Vão lá saber!

A vida tem uma imaginação tão rica para o frama e para a desgraça!…

Entretanto, o que é certo, é que a maioria dos engeitados deve a sua tristissima condição á miseria. E neste caso, com que angustia no coração, com que lagrimas de fogo nos olhos pisados aquella pobre mãe não abandonou, talvez para sempre, aquella creaturinha, que, por momentos, foi toda a esperança da sua vida?

Nem todas as mães tem aquella energia – ou aquella covardia – da protagonista da ‘Dor Suprema’, que fugiu á vida asphyxiando-se com os seus proprios filhinhos no quarto onde só a miseria e desventura imperavam…

A triste roda

Foi por isso que a piedade dos homens creou a ‘roda dos expostos’, aquella tristissima roda que é como a roda da vida, que, num simples girar para a direita ou para a esquerda, gira, tambem, o destino de um homem.

Ali, ao menos, uma pobre mãe sabe que o seu filhinho será recolhido, terá um tecto e poderá crescer, ao passo que sobre a relva de um canteiro ou ao canto de uma porta talvez nem amanheça, levado pelo frio impiedoso.

Nem todos, porém, sabem ao certo o que vem a ser a roda dos expostos.

Quem, entretanto, ao passar pela Santa Casa não sentir a curiosidade de olhar, de examinar aquella pequena abertura rectangular na janella de grandes e por trás da qual, a grande roda que gira já levou tantos desherdados e tantos párias.

A roda dos expostos vista de fora. Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.
“A triste roda dos expostos vista de fora”. Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.

Que é feito dos expostos?

É esta uma pergunta que occorre naturalmente.

Que destino levam os desventurados a quem nem o direito de conhecer os proprios paes assiste?

Ao ser collocado na roda o abandonado, uma campainha dá signal. A roda, que é de madeira e tem dois nichos, gira ao impulso da mão de quem engeitou a criança.

Immediatamente, a irmã de caridade, que nem o direito de conhecer aos proprios colhe o innocentinho e examina-o, com cuidados maternaes.

Si está enfermo, é levado para a enfermaria, onde fica aos cuidados de um especialista. Si está de saude e é robusto, é levado para a Maternidade, onde é tratado com especial desvelo.

Com vagar, a propria Santa Casa se encarrega de encontrar familia idonea, á qual confia o engeitado.

Notas curiosas

A primeira criança engeitada recolhida pela Santa Casa, chamava-se Boaventura e foi exposta a 8 de março de 1830, isto é, ha quasi cem annos.

Era então provedor da Santa Casa Manoel José de Freitas Travassos.

Dahi para cá, a roda dos expostos girou tantas vezes!

Ultimamente tem declinado de maneira extraordinaria os abandonos ali. Basta dizer que no anno passado só tres crianças foram engeitadas ali. A ultima foi exposta no dia 28 de dezembro ultimo.

Os engeitados

Geralmente são abandonados na roda com a roupinha do corpo. Alguns, muito poucos, levam enxoval.

Alguns são encontrados com bilhetes bastante expressivos.

Este, por exemplo:

‘Na Santa Casa de Misericordia uma obra de caridade por esta criança na orphandade das crianças pobres, por falta de recursos o pae anda nas forças dos assisistas[3] não sabe noticias delle si morreu por não ter alimento, nasceu 22-11-1923’.

Seguia-se o nome da criança.

Ou este:

‘Rogo pelo amor de Deus ás boas Irmãs Caridosas nunca tirar esta correntinha do pescoço desta criança, para ser reconhecia em dia que possa ser. Nascido ás 4 1/2 ; pede-se para chamar Raul’.

Alguns levam pedidos de outra natureza.

Na sua maioria, os bilhetes rogam que a criança seja baptisada na Santa Casa.

Uma houve que já veio com a indicação de quem devia ser convidado para padrinho”.

Autoria desconhecida.

"Vidas anonymas". Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.
“Vidas anonymas”. Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV.

Referências:

[1] Correio do Povo, 23/4/1929, p. 5. Hemeroteca do AHMMV. A grafia original foi mantida.

[2] Deserta, pedregosa.

[3] As forças de oposição ao Partido Republicano Riograndense, comandadas por Assis Brasil na revolta de 1923.

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