Como já foi discutido aqui neste blog anteriormente, em especial nos posts sobre os becos de Porto Alegre no início do século XX, a modernização urbana veio de mãos dadas com a moralização urbana. Ou ao menos fazia-se muito esforço nesse sentido.

A breve mas demolidora reportagem sobre o Ibá Club, um “antro de vagabundos” em um “ponto central da cidade”, mostrando até mesmo a localização e a fachada do estabelecimento, exemplifica o empenho da imprensa em denunciar o que considerava então como costumes inadmissíveis no coração de Porto Alegre.

“A casa onde se realisam as ‘reuniões’ do Ibá Club”, marcada com o X.

De fato, a casa térrea acima marcada com um X na foto, embora mais ampla e elevada do chão, parece mostrar um remanescente da Porto Alegre do século XIX. Suas aberturas em arco romano e fachada com uma porta e duas janelas, numa via tão central, parecem apontar para um passado em que a construção viu dias melhores. Provavelmente, pode ter sido residência de uma família modesta mas respeitável, mas naquele novembro de 1929 tinha decaído ao destino de tantas outras casas do século XIX do centro da cidade: havia se tornado um cabaré, o Ibá Club.

Caracterizado como “antro de vagabundos”, abrigava atividades que não mais poderiam ser admitidas na cidade moderna: o alcoolismo, a vagabundagem, o jogo e a prostituição. Ou seja, a repressão policial era demandada, e o jornalista repreende as autoridades pela sua leniência, deixando que tal estabelecimento siga funcionando em plena Travessa 2 de Fevereiro, hoje a Avenida Salgado Filho.

Detalhe da planta de Porto Alegre de João Cândido Jacques, 1888. Mapoteca do IHGRS. Em azul, a localização da Travessa 2 de Fevereiro, atual Avenida Salgado Filho. Edição digital da pesquisadora.
Detalhe da Planta Cadastral de Porto Alegre pelos irmãos Ahrons, de 1893. Embaixo, a Travessa 2 de Fevereiro. Mapoteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre.

Apesar dos tiros ao ar comemorados pelo jornal, cabarés como o Ibá Club poderiam até fechar, mas outros abriam em seu lugar no centro da cidade. Era a luta dos cabarés e tascas pelo direito de permanecer no centro da cidade.

“As ‘reuniões’ do Ibá Club[1]

Nesse celebrisado antro de vagabundos, ouve [sic] uma grande desordem na madrugada de hoje.

Um guarda civil acabou o sarilho a tiros de revolver, prendendo tres marinheiros do ‘Icarahy’.

O Ibá Club é talvez o maior antro de desordens que existe em Porto Alegre.

Ali, todas as noites se reunem desclassificados, rodeados de mulheres da vida facil, que formam uma ssistencia verdadeiramente indesejavel.

O Ibá fica situado á travessa 2 de Fevereiro, ponto central da cidade, mas nem assim consegue despertar a acção policial.

[inserir mapa da época relacionando com a atual Avenida Salgado Filho; link para o post]

Todos quantos frequentam aquella espelunca, divertem-se com entendem, bebendo, insultando e ameaçando-se mutuamente.

O guarda civil e o ronda dessa corporação ouvem as obscenidades e os dispauperios, porém, não os evitam.

Só quando o páo troveja é que a policia intervém e, assim mesmo, quasi sempre, para participar também das bordoadas que os valentões desancam ás cegas.

Na madrugada de hoje, ainda, se registrou um salseiro no ‘Ibá’.

Paulificaram, ali, os marinheiros do vapor ‘Icarahy’, que, em roda separada, ingeriam a fartar cerveja e vinho, como se estivessem commemorando um grande acontecimento nacional…

Completamente ébrios, passaram a fazer valentia, dirigindo gracejos pesados a quem entendiam.

Os mais exaltados eram os desordeiros Octavio Jamindo Freitas, José Jeronymo Sampaio e Antonio Costa, que passaram a atirar garrafas quanto [sic] o mulherio, em correria desenfreada, escapava aos gritos, dando idéa de um espectaculo clamoroso.

Entrando, então, em acção, forçadamente, o guarda civil, de serviço nas immediações do ‘Ibá’, accudiu, entrando em scena com maior espalhafato, e disparando o revólver para o ar.

Em consequencia da ‘energica’ actuação do guarda, os vaganundos se amedrontaram, tendo o de nome Octavio Freitas se atirado ao chão, com receio de ser ferido.

Em seguida, chegaram outros guardas, que effectuaram a prisão dos turbulentos José Jeronymo Sampaio, Antonio Costa e Octavio Freitas. Este foi medicado na Assistencia Publica, por ter recebido diversas escoriações pelo corpo, ao se atirar ao chão com medo das balas do policial.”

Autor desconhecido


Referências:

[1] Estado do Rio Grande, Ed00019, 13/11/1929, p. 6. Hemeroteca da BNDigital. A grafia original foi mantida.

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