Ao longo do desenvolvimento desta história em quadrinhos, tive um período bem desafiador de buscar mudar o meu desenho. Eu venho de uma tradição de desenho muito realista, muito detalhista, em que o principal era desenhar (e pintar) exatamente o que eu estava vendo ou criando, e que usei durante quase todo o tempo em que trabalhei como desenhista para o mercado franco-belga. Para alguns exemplos, ver aqui, aqui e aqui.

Lápis e aquarela, 2012. Desenho de personagem realista para um projeto para o mercado franco-belga.

Lápis e aquarela, 2012. Desenho de personagem realista para um projeto para o mercado franco-belga.

Tudo começou quando quis fazer uma história minha, própria. Eu havia terminado meus projetos para a gringa e tinha uma liberdade quase total nas mãos – que era, afinal, o que eu buscava –, mas me libertar do velho estilo de desenho com suas exigências e rigor não foi nada fácil. Eu queria criar algo novo, mas comecei desenhando como sabia, então o resultado final sempre ficava um tanto “realista” demais, um tanto “parado” demais, um tanto… “perfeito” demais.

A pressão por fazer tudo perfeito e detalhado quase me paralisou. A exigência do tipo de desenho que eu fazia antes não permitia mais que o traço fluísse. E aí eu me vi numa situação de não conseguir desenhar como antes e também não saber o que fazer de novo! Acho que foi nesse momento que comecei a experimentar com nanquim – vejam bem, antes eu fazia a arte-final com o lápis mesmo, sendo os esboços feitos com grafite azul –, coisa que há anos não fazia. Depois de muito quebrar a cabeça, comecei a usar o material de nanquim que mais se assemelhava ao lápis pois me permitia maior controle: a caneta nanquim descartável.

Rapidamente, porém, percebi que ela não iria me alçar a vôos mais altos. Eu já tinha experimentado o bico de pena antes, mas a (aparente) dificuldade de controle do traço e o “arranhar” da ponta metálica me haviam posto para correr. Ainda assim, eu queria aquele traço puro, com a tinta preta bem definida, coisa que com a caneta nanquim não conseguia obter. Então, respirei fundo e resolvi investir.

Penas - julho 2016

Alguns bicos de pena adquiridos em 2016.

Praticar, praticar, praticar. No início eu só repetia o rigor e detalhamento que fazia antes com o lápis usando o bico de pena, mas então uma coisa interessante começou a acontecer…

O bico de pena me fez simplificar meu traço. Como ele não se presta às nuances de grafite que eu fazia antes, e todas as linhas são super definidas, com a prática passei a me adaptar melhor às condições que essa ferramenta oferecia, não só simplificando mas deixando mais dinâmico o meu desenho. Os resultados estão aí:

Ou seja, o bico de pena me ensinou a trabalhar mais solta, mais simples, com mais estilo. E o estilo que se desenvolveu é o que uso até hoje. A partir daí, consegui fazer novamente que o meu trabalho “fluísse” sem a tensão de antes, e pude explorar melhores e mais possibilidades gráficas que antes sequer desconfiava.

Mas, sobretudo, a prática e o direcionamento novo de buscar uma expressão própria foram fundamentais. A nova ferramenta ajudou, é claro, e notei que quando fui trabalhar com arte-final com pincel o “jeito” do pincei também influenciou o meu traço. Hoje trabalho com um e com outro, mas o bico de pena prevalece no desenho enquanto que o pincel é a ferramenta com que já gosto de fazer todo o desenho quando trabalho com pintura.

Então, se você quer ou está buscando um estilo novo, o conselho é o de sempre: pratique, pratique, pratique. Tente usar um material diferente. Busque referências de estilos que vocês curtem e que inspiram vocês. Mas preencham vários sketchbooks que ele aparece. 😉

Nenhum comentário

  • Camila Fernandes
    27/09/2018 4:49 pm

    Ana,
    Seu traço, sinceramente, me deixa besta. Já era lindo na versão “certinha”, mas hoje, elástico e atrevido sem perder o detalhismo, ele chegou a um grau de expressividade deslumbrante. E olha que já vi ilustração de muita gente, de tudo quanto é lugar do mundo. Não falo por falar. Há tempos que sou sua fã. Espero um dia poder encomendar uma arte comissionada sua.

    Responder
    • Querida, muitíssimo obrigada! Me deixas incrivelmente feliz com essas palavras tão gentis! Nem sempre é fácil continuar, mas com um incentivo desses a força se restaura. Te faço uma arte com todo o prazer. Beijo grande! <3

      Responder
  • […] A Ana Koehler escreveu um texto muito bacana mostrando a evolução do estilo dela ao longo do tempo e como o hábito de testar várias coisas diferentes a ajudou nesse processo. Vai lá ler. […]

    Responder
  • […] eu havia referido no post anterior a respeito de desenvolvimento de estilo, a minha transição do lápis num traço […]

    Responder

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