{"id":6476,"date":"2026-10-15T09:00:18","date_gmt":"2026-10-15T12:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=6476"},"modified":"2026-10-10T14:16:56","modified_gmt":"2026-10-10T17:16:56","slug":"a-molecada-dos-becos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-molecada-dos-becos\/","title":{"rendered":"&#8220;A molecada dos becos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Como era a vida das crian\u00e7as dos becos de Porto Alegre? Esse texto de Athos Damasceno Ferreira d\u00e1 poucas pistas a esse respeito, mas usa uma linguagem reveladora sobre a forma com que elas eram vistas quando se aventuravam pela cidade &#8211; e, pelo jeito, em bandos. O autor usa palavras que sinalizam uma percep\u00e7\u00e3o de algo fora do seu lugar (&#8220;os casebres vomitavam) e que invadem ilegitimamente a cidade das &#8220;fam\u00edlias direitas&#8221; como &#8220;hordas de b\u00e1rbaros&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">E essa linguagem vem atrelada a uma clara racializa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as dos becos, bem como ao uso do chicote para cont\u00ea-las, numa clara perman\u00eancia de costumes dos tempos da escravid\u00e3o. A viol\u00eancia com que os embates se davam era combatida \u00e0 altura pela pol\u00edcia na forma dos&nbsp;<em>ratos brancos<\/em>, como eram chamados os policiais de Porto Alegre nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, devido \u00e0 sua farda clara, chegando mesmo a haver meninos mandados \u00e0 for\u00e7a para a Marinha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6501\" aria-describedby=\"caption-attachment-6501\" style=\"width: 905px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6501\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24.jpg\" alt=\"Os moleques dos becos_Fonte - A M\u00e1scara_BNDigital_1920_Ed00006_p24\" width=\"905\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24.jpg 905w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-768x539.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-10x7.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-432x303.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-396x278.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-660x463.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Os-moleques-dos-becos_Fonte-A-Mascara_BNDigital_1920_Ed00006_p24-314x220.jpg 314w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6501\" class=\"wp-caption-text\">Garotos fotografados fumando em uma pra\u00e7a de Porto Alegre.&nbsp; Revista <em>A M\u00e1scara, <\/em>1920, Ed00006, p. 24. Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, Brasil.&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n<h1><strong>A molecada dos becos<sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">1<\/a><\/sup><\/strong><\/h1>\n<p align=\"justify\">&#8220;Dan\u00e7as e cantigas se prolongavam at\u00e9 ao escurecer. A\u00ed, as m\u00e3es prudentes chamavam as meninas para dentro, porque a molecada dos becos pr\u00f3ximos invadia, de s\u00fabito, a rua, como hordas de b\u00e1rbaros, aos gritos e trompa\u00e7os.<\/p>\n<p>Contra a r\u00e9cula<sup><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">2<\/a><\/sup> infrene<sup><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">3<\/a><\/sup> que os casebres vomitavam, de todos os lados, a Cidade n\u00e3o podia nada.<\/p>\n<p>Os <em>perna-finas<\/em>, os <em>gaforinhas<sup><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">4<\/a><\/sup><\/em>, os <em>bei\u00e7olas<sup><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">5 <\/a><\/sup><\/em>tomavam, de assalto, as cal\u00e7adas e os passeios, ocupavam as pra\u00e7as, galgavam os muros, vadeavam os p\u00e1tios, entravam pelos corredores escuros \u2013 tinham-se como donos do burgo aturdido que eles dominavam inteiramente.<\/p>\n<p>Queixas, protestos, reclama\u00e7\u00f5es pouco adiantavam.<\/p>\n<p>Havia o recurso do chicote.<\/p>\n<p>As surras, por\u00e9m, n\u00e3o davam resultado.<\/p>\n<p>Moleque sovado \u2013 moleque dobrado.<\/p>\n<p>Ainda com os lanhos da sumanta<sup><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">5<\/a><\/sup>, ardendo, ainda com os verg\u00f5es do vergalho, empolados e roxos, ganhavam a rua, protegidos pela escurid\u00e3o da noite, e era s\u00f3 lampi\u00e3o apagado, vidra\u00e7a partida \u00e1rvore despencada \u2013 uma devasta\u00e7\u00e3o em regra.<\/p>\n<p>De vez em quando, as autoridades tomavam medidas en\u00e9rgicas.<\/p>\n<p>Os rato-brancos<sup><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">6<\/a><\/sup>, auxiliados por pra\u00e7as da for\u00e7a p\u00fablica, ca\u00edam de surpresa em cima daqueles cardumes ruidosos que eram mandados pra Marinha, no Rio de Janeiro, como castigo.<\/p>\n<p>A cidade sossegava um pouco.<\/p>\n<p>Enquanto durava o medo da limpa, os que tinham escapado \u00e0 colheita tem\u00edvel se encolhiam, por algum tempo, e n\u00e3o davam sinal de vida.<\/p>\n<p>Depressa, por\u00e9m, tornavam a organizar-se e de novo enfestavam as ruas.<\/p>\n<p>Agrupados e \u2018coudelarias\u2019 \u2013 assim designavam eles os bandos perturbadores \u2013 os moleques voltavam aos ataques e reiniciavam as depreda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eram verdadeiros ex\u00e9rcitos essas \u2018coudelarias\u2019<sup><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">7<\/a><\/sup>.<\/p>\n<p>Havia a coudelaria da rua da Ponte. A do Alto da Bronze. A da rua da Varzinha<sup><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">8<\/a><\/sup>. A do Beco do Po\u00e7o<sup><a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">9<\/a><\/sup>. In\u00fameras.<\/p>\n<p>Lutavam umas contra as outras.<\/p>\n<p>Meninos de \u2018fam\u00edlia direita\u2019, muitos, se incorporavam aos bandoleiros e, de parceria com eles, enfiavam nos entreveros de que, vezes sem conta, sa\u00edam seriamente feridos.\u201d<\/p>\n<p><em>Athos Damasceno Ferreira<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a> FERREIRA, Athos Damasceno. <em>Imagens sentimentais da cidade<\/em>. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1940, pp. 87-88. A grafia foi atualizada.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a> O mesmo que <em>bando<\/em>, <em>s\u00facia<\/em>.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a> O mesmo que <em>sem freios<\/em>.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a> Forma pejorativa de designar cabelo de pessoas negras.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">5<\/a> Uma refer\u00eancia a l\u00e1bios grossos.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">6<\/a> A forma como os policiais urbanos eram chamados devido ao seu fardamento claro.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">7<\/a> Lugar onde se cria cavalos.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">8<\/a> A atual rua Washington Luiz.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">9<\/a> O famoso beco, trecho da rua General Paranhos, que foi aberta para dar lugar \u00e0 atual avenida Borges de Medeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como era a vida das crian\u00e7as dos becos de Porto Alegre? Esse texto de Athos Damasceno Ferreira d\u00e1 poucas pistas a esse respeito, mas usa uma linguagem reveladora sobre a forma com que elas eram vistas quando se aventuravam pela cidade &#8211; e, pelo jeito, em bandos. 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