{"id":6169,"date":"2024-03-07T22:00:32","date_gmt":"2024-03-08T01:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=6169"},"modified":"2024-03-07T22:00:32","modified_gmt":"2024-03-08T01:00:32","slug":"a-mulher-e-o-traje-masculino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-mulher-e-o-traje-masculino\/","title":{"rendered":"&#8220;A mulher e o traje masculino&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Um dos aspectos interessantes da moderniza\u00e7\u00e3o nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX foi sem d\u00favida a transforma\u00e7\u00e3o radical que sofreram as vestes femininas. Na esteira n\u00e3o s\u00f3 da sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, que exigia trajes mais pr\u00e1ticos no dia-a-dia, mas tamb\u00e9m do pensamento feminista, a reivindica\u00e7\u00e3o de formas de vestir cada vez mais livres por parte das mulheres passou tamb\u00e9m a reclamar o uso dos trajes masculinos, especialmente das cal\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n<p>Naturalmente, a id\u00e9ia de mulheres usando cal\u00e7as perturbava muitas mentes esclarecidas, e de forma suficiente para suscitar a reda\u00e7\u00e3o de textos t\u00e3o longos quanto o&nbsp; transcrito abaixo, publicado na edi\u00e7\u00e3o de 23\/11\/1924 do&nbsp;<em>Correio do Povo<\/em>. Nele, o escritor franc\u00eas Georges Maurevert (1869-1964) arrola in\u00fameros exemplos de mulheres que se trajaram como homens, retratando-as como pessoas de modos bizarros e figuras pitorescas. Mesmo com toda a sua erudi\u00e7\u00e3o, o que permeia o texto de Maurevert \u00e9 uma mal disfar\u00e7ada indigna\u00e7\u00e3o diante da id\u00e9ia de que uma mulher, ser &#8220;inferior&#8221; ao homem, pudesse se apropriar de uma pe\u00e7a t\u00e3o distintiva de sua indument\u00e1ria. Ora, n\u00e3o apenas isso, mas uma mulher usando cal\u00e7as tamb\u00e9m era um ato de borrar fronteiras claras entre diferentes grupos, coisa com que a sociedade ocidental nunca lidou com facilidade.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>De qualquer forma, o escritor franc\u00eas viveria o suficiente para ver mulheres trajando cal\u00e7as de forma cada vez mais frequente e normal em seu cotidiano: nos anos 1930 e 40, as cal\u00e7as j\u00e1 eram usadas como traje de lazer, e nas d\u00e9cadas seguintes elas chegariam para ficar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>\u201cA mulher e o traje masculino<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h2>\n<p>Entre os assumptos que, modernamente, est\u00e3o merecendo a atten\u00e7\u00e3o dos sociologos figuram o feminismo e a moda, que n\u00e3o s\u00e3o, como geralmente se pensa,&nbsp; pretextos para \u2018boutades\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> mais ou menos interessantes e motivos para divaga\u00e7\u00f5es de chronistas elegantes nas sec\u00e7\u00f5es especiaes dos noticiarios mundanos. Sobre o feminismo escreveu Emilio Faguet um livro sensato e documentado, collocando o problema nos seus justos termos e mostrando os perigos sociaes dessa doutrina levada aos extremos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e1 moda \u00e9 certo que reflecte ellas as id\u00e9as ambientes e n\u00e3o depende exclusivamente da phantasia ou do capricho das costureiras. Assim, num bello trabalho que Dupont escreveu sobre as modifica\u00e7\u00f5es da indumentaria na Fran\u00e7a, mostrou elle como as modas introduzias pelo romantismo nada mais foram do que um reflexo das id\u00e9as de ent\u00e3o, nas quaes se surpreendia a tendencia para fazer resurgir o espirito cavalheiresco da idade media, com o seu amor pelas aventuras e o culto apaixonado da mulher. Os romances de Walter Scott, na Inglaterra, e algumas obras de Victor Hugo, por elle influenciado, na Fran\u00e7a, crearam uma atmosphera favoravel ao renasciento das preferencias que caracterisaram seculos j\u00e1 passados. Conta-se, por exemplo, que George Sand<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> trouxe durante algum tempo traje masculino, exhibindo cal\u00e7as talhadas em s\u00eada verde. A explica\u00e7\u00e3o desse facto n\u00e3o \u00e9, entretanto, difficil. Nos romances de aventura, que estavam ent\u00e3o em voga, n\u00e3o raro a heroina se trajava como homem para realisar uma fuga amorosa do castello em que o pae, sisudo e tyrannico, a tinha n\u00e3o raro sequestrada, ou para fugir de uma fortaleza disfar\u00e7ada em var\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, pois para estranhar que George Sand, que foi um dos chefes do romantismo em Fran\u00e7a, quisesse encarnar na vida real a bizarra protagonista de algum de seus romances.<\/p>\n<p>Ha pouco, nos Estados Unidos, o governo consentiu que em alguns collegios de meninas fosse permittido o uso de vestes masculinas. O resultado, por\u00e9m, sob o ponto de vista moral, foi t\u00e3o desastrado, conforme informa\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios professores, que a permiss\u00e3o n\u00e3o tardou em ser revogadas, restabelecendo-se o classico vestido. \u00c9 verto que alguns jornaes modernos noticiam a adop\u00e7\u00e3o, por parte de algumas mulheres, da indumentaria masculina. Mas quem s\u00e3o ellas? Actrizes de cinema, escriptoras e pintoras extravagantes, feministas victimas de um furioso jacobinismo, creaturas que, geralmente, pelo seu desequilibro nervoso n\u00e3o&nbsp; podem servir de paradigma para a[<em>s<\/em>] pessoas sensatas&nbsp; e ponderadas.<\/p>\n<p>Ha dias, \u201cLa Naci\u00f3n\u201d, de Buenos Aires, estampou em suas columnas um interessante artigo do escriptor francez Georges Maurevert, sobre as tentativas que se t\u00eam verificado atravez da historia para accommodar \u00e1s mulheres o traje masculino. \u00c9 este o trabalho do escriptor francez, que traduzimos especialmente para figurar nesta folha:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u2018A mulher n\u00e3o vestir\u00e1 roupa de homem, nem o homem vestir\u00e1 roupa de mulher, porque abomina\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a Jehovah, teu Deus, quem tal fizer\u2019. Deuteron\u00f4mio, XXII, 5.<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o Nicolau I, o Grande, foi um papa famoso. Combateu a heresia e anathematisou o illustre patriarcha Plotius. Censurou os bispos de Fran\u00e7a e teve at\u00e9 a honra de converter ao catholicismo Bogoris, rei dos bulgaros e seu povo. No emtanto, levava muito pouco em conta os ensinamentos da Biblia. Eis a prova disso:<\/p>\n<p>Depois de sua convers\u00e3o, os bulgaros enviaram-lhe embaixadores para fazer-lhe algumas perguntas, entre as quaes havia esta: \u2018\u00c9 admissivel que a mulher use cal\u00e7as como um homem?\u201d<\/p>\n<p>Em vez de ouvir, com indigna\u00e7\u00e3o esta pergunta, respondendo-a com as palavras do Deuteronomio e que serve de epigraphe a este artigo, Nicolau o Grande assim disse:<\/p>\n<p>\u2018A eu v\u00ear, isso \u00e9 uma pergunta secundaria. O que eu desejo v\u00ear mudar s\u00e3o os vossos sentimentos, e n\u00e3o o vosso vestuario. Para mim, tanto faz que vossas mulheres usem cal\u00e7as, como saias. O que me interesse s\u00e3o a f\u00e9 e as b\u00f4as obras. Tendes costues que n\u00e3o s\u00e3o os dos outros christ\u00e3os e receiaes que isso n\u00e3o seja lavado \u00e1 conta de peccado, pois sabeis que, em nossos livros, est\u00e1 escripto serem as cal\u00e7as feitas para os homens, e n\u00e3o para as mulheres. N\u00e3o vos inquieteis com isso. Agi segundo vosso entender. Conservae vossos antigos costumes, ou adoptaes os nossos, pois de certo modo, vos tornastes christ\u00e3os. Que v\u00f3s ou vossas mulheres continuem a usar ou abandondem as cal\u00e7as, isso em nada contribuir\u00e1 para vossa salva\u00e7\u00e3o, nem augmentar\u00e1 vossa virtude.\u2019<\/p>\n<p>O que importa \u2013 acabou por dizer o bom Papa \u2013 \u00e9 que a f\u00e9 vos d\u00e1, assim como \u00e1s vossas mulheres, contra o peccado, \u2018cal\u00e7as espirituaes\u2019. (femoralia spiritualia).<\/p>\n<p>Lembro a advertencia de Nicolau o Grande, ao comprovar com que facilidade come\u00e7am as mulheres a usar hoje em dia essas cal\u00e7as que lhes foram t\u00e3o disputadas. Por exemplo, n\u00e3o ha quasi uma pelicula cinematographica, produzida nos Estados Unidos, que n\u00e3o nos offere\u00e7a o espectaculo de uma jovem ostentando, graciosamente, o chap\u00e9u redondo, a sobrecasaca, as cal\u00e7as de montaria e as polainas.<\/p>\n<p>A masculinisa\u00e7\u00e3o do vestido parece correr parelha, nas mulheres com seus exitos policitos. Uma das mais notaveis suffragistas, Howard Warren, previu a \u00e9poca em que os trajes femininos seriam quasi parecidos com os masculinos. \u2018Nada de garridice<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> para conseguir dos homens os privilegios que, daqui em deante, a lei conferir, &#8211; dizia \u2013 \u2018bastaria usar, em vez dos bordados e dos vestidos custosos e incommodos de agora, trajes amplos, simples, de c\u00f4r escura, semelhantes aos do homem\u2019.<\/p>\n<p>Mas, outra feminista, Ethel Stewart, foi muito mais radical. Pedia o completo desapparecimento do traje\u2026 N\u00e3o admittia a saia cal\u00e7\u00e3o e tampouco a cal\u00e7a solta a zuave\u2026 N\u00e3o. Mistress Stewart reclamava a cal\u00e7a completa.<\/p>\n<p>\u2018Libertemo-nos das tyrannias da moda \u2013 gritava ella \u2013 repillamos as saias immoraes, abandonemos nossas fazendas impuras\u2026 A pretexto de elegancia, impoem-nos ruinosas mudan\u00e7as de vestidos. Pois bem. Eu sustento que, com duas cal\u00e7as por anno, uma mulher pode vestir-se decentemente. Porque deixar aos homens o monopolio dos ternos baratos?\u2026 Depois dos nossos espiritos terem tido o valor da liberdade, por que n\u00e3o levar adeante o nosso triumpho, at\u00e9 libertar nossos corpos? \u00c9 preciso adoptar uma reforma definitiva para o vestuario feminino\u2026\u2019<\/p>\n<p>Parece que taes exhorta\u00e7\u00f5es e o accesso, cada vez mais pronunciado, das mulheres \u00e1 vida politica, come\u00e7am a produzir os seus fructos, pelo menos nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Assim foi que, no Estado de Wisconsin, o governador Blaine assignou, o anno passado, a lei votada pelo legislativo local, concedendo \u00e1s mulheres os mesmos direitos civis que aos homens. Essa lei confere \u00e1 mulher \u2018o direito de usar trajes de homem, se isso f\u00f4r de seu desejo\u2019.<\/p>\n<p>E neste ver\u00e3o, se poude v\u00ear, em Londres e Paris, uma jovem americana, Miss Jane Burr, ardente propagandista do traje masculino, passear pelo Regent-Circus e pelos grandes boulevards, com traje de cyclista, quasi igual ao que nossas companheiras usavam ha um quarto de seculo.<\/p>\n<p>Com um pequeno esfor\u00e7o, mais, creio que o traje masculino ter\u00e1, para as mulheres, direito de cidadania. Basta simplesmente que um grande modista lance a moda\u2026 Neste proporsito, segundo se sabe, Poiret, um dos arbitros das elegancias parisienses, foi, neste ver\u00e3o, a Meurthe e Mosele, para se certificar em pess\u00f4a o modo pelo qual as operarias das salinas de Dombasle, vestidas de home, por motivo de commodidade profissional, usavam essa vestimenta. Tal indumentaria d\u00e1, ao que parece, \u00e1s que ainda s\u00e3o jovens, um ar muito cortez, tanto mais que \u00e9 acompanhado de um gorro alpino, posto com muita arrogancia.<\/p>\n<p>O grande modista voltou perplexo de sua viagem\u2026 E \u00e9 que sua elegante clientela n\u00e3o se comp\u00f5e unicamente de damas jovens e bonitas\u2026 E diabo: temos de contas com\u2026 as outras!\u2026 O traje masculino para estas, seria, sem duvida, um desastre\u2026 Por isso, o nosso grande modista reservou sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Para falar a verdade, as mulheres \u2013 pelo menos na Fran\u00e7a \u2013 nem sempre aguardaram as licen\u00e7as da lei, ou as decis\u00f5es dos modistas, para usar cal\u00e7as. Sem falar nas mulheres-soldados, na grande Joanna d\u2019Arc, ou nas heroicas irm\u00e3s Ferning, quantas vestiram roupas masculinas!\u2026<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de Luiz XIII, estava em moda, entre as mulheres, usar o bonito traje de cavaleiro. Essa vestimenta assentava, \u00e1s mil maravillhas, na duquesa de Chevreuse, a formosa intrigante, cuja energia e cuja bravura n\u00e3o tinham igual. O traje masculino ficava-lhe t\u00e3o bem, que Tallemant des R\u00e9aux deu testemunho disso, em versos famosos.<\/p>\n<p>E a celebre novela de Theophilo Gautier \u2013 \u2018Mademoiselle de Maupin\u2019 \u2013 nos faz saber, de alguma forma, que esta admiravel mulher, esgrimista e cavalleira, usava o traje masculino.<\/p>\n<p>Demais, est\u00e1-se em dizer que, nos tempos da Revolu\u00e7\u00e3o, direito de usar cal\u00e7as foi uma das primeiras medidas reclamadas por certas mulheres exaltadas. \u2018As Peti\u00e7\u00f5es das Damas \u00e1 Assembl\u00e9a Nacional\u2019, apparecidas em 1789, pouco tempo depois de ser tomada a Bastilha, cont\u00e9m alguns artigos bastante pittorescos:<\/p>\n<p>\u20181\u00ba. Todos os privilegios do sexo masculino est\u00e3o abolidos completa e irrevogavelmente em toda a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>2\u00ba. O sexo feminino gozar\u00e1, sempre, da mesma liberdade, das mesmas vantagens, direitos e honras que o sexo masculino\u2026<\/p>\n<p>3\u00ba. As cal\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o far\u00e3o parte exclusiva do sexo forte, e sim cada sexo ter\u00e1 direito de usal-as.<\/p>\n<p>4\u00ba. Quando um militar houver compromettido, por covardiam a honra franceza, n\u00e3o ser\u00e1 degredado, fazendo-o usar trajes femininos, e sim ser\u00e1 castigado, declarando-o de \u2018genero neutro\u2019.<\/p>\n<p>Suspendo, aqui, a cita\u00e7\u00e3o da \u2018Peti\u00e7\u00e3o das Damas\u201d.<\/p>\n<p>A grande liberdade que reinou na Fran\u00e7a, relativamente ao vestuario, durante a Revolu\u00e7\u00e3o e, sobretudo, na \u00e9poca do Directorio, originou certas licen\u00e7as que levaram o legislados a promulgar a ordena\u00e7\u00e3o de 16 Brumario do anno IX, a qual obrigava toda mulher desejosa de vestir-se de homem a pedir, parta isso, autorisa\u00e7\u00e3o ao prefeito de Policia. Esta ordena\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi derrogada, e, ainda hoje, est\u00e1 em vigor.<\/p>\n<p>Entre as mulheres que vestiram roupas masculinas, a mais celebre foi Jorge Sand, que ostentou, no anno de 1830, umas cal\u00e7as de panno preto, uma casaca ao estylo das da Idade Media e uma touca co pluma branca. Como roupa de dentro, usava pe\u00e7as que as gravuras popularisaram: camisa de homem, gravata preta e uma bata de seda amarella, que lhe cahia sobre as babuchas turcas c\u00f4r de sangue.<\/p>\n<p>Foi encontrada a \u2018licen\u00e7a para usar roupa de homem\u2019, concedida a Margarida Bellanger, amiga de Napole\u00e3o III. Ei-la:<\/p>\n<p>\u2018Paris, 9 de janeiro de 1861. Eu, prefeito de Policia, autoriso a senhorita Belanger (Margarida), domiciliada no \u2018boulevard\u2019 dos Capuchinhos, n\u00ba 39, a vestir-se de homem, por motivos de saude; por\u00e9m, n\u00e3o poder\u00e1 apresentar-se com esse traje nos espectaculos, bailes e outros logares de reuni\u00e3o franqueados ao publico. A presente autorisa\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 valida por dois mezes. Pelo prefeito de Policia e por sua ordem, o secretario getral: (assignado) Jarry.\u2019<\/p>\n<p>\u2018Signaes pessoaes: estatura, 1,60 metro; cabellos e sobrancelhas castanhos; olhos cinzentos, nariz mediano, etc.<\/p>\n<p>As \u2018raz\u00f5es de saude\u2019, allegadas para a absten\u00e7\u00e3o dessa licen\u00e7a eram certamente, imaginarias. \u00c9 de supp\u00f4r que o favor, que beneficiava a amigade Napole\u00e3o III. f\u00f4sse concedida por ordem superior.<\/p>\n<p>Madame Rosa Bonheur, a celebre pintora de animaes, usava, igualmente, um traje masculino: por\u00e9m, um traje commodo e desprovido, totalmente, de garridice, possuia ella, em Nice, uma magnifica propriedade no bairro Bornala, e muitos se recordam, ainda, de tel-a encontrado no \u2018Passeio dos Inglezes\u2019, com cal\u00e7as de velludo e a larga blusa azul dos arrieirios. Era esse seu traje de trabalho. Quando se via obrigada a alternar com a sociedade, Madame Rosa Bonheur punha uma casaca e uma saia curta, de velludo negro, guarnecida com gal\u00f5es. N\u00e3o conheceram outra indumentaria nesta grande artista, que levava uma vida muito retraida de trabalho continuo.<\/p>\n<p>Outra mulher celebre que, em quasi toda sua vida, usou traje de homem, foi Madame Jane Dieulafois, a sabia exploradora. Para acompanhar o marido nas miss\u00f5es archeologicas a Marrocos, Egypto e Persia, vira-se obrigada a usar traje masculino. Adoptou-o por completo, quando contava vinte e cinco annos de idade e, e toda sua vida, n\u00e3o usou outro. Ao morrer, em 1916, foi enterrada com traje de etiqueta, levando na lapela a roseta de official da Legi\u00e3o de Honra.<\/p>\n<p>Outra dama que se vestia de homem e que teve a honra de falar, a menudo, na Bibliotheca Nacional de Paris, onde estava acostumada a trabalhar, foi Madame Marc de Montifaud. Era uma novelista que se especialis\u00e1ra na publica\u00e7\u00e3o de obras levianas, at\u00e9 um pouco eroticas. Laurant Tailhade retratou-a em seus \u2018Phantasmas de Antanho\u201d. Apresenta-a com sua cabe\u00e7a redonda, cabello lizo para traz, uma risca ao meio, olhos de c\u00f4r azul pallido, um rosto pintado e enrugado, dedos carregados de anneis. Com a jaqueta apertada, as cal\u00e7as estreitas, \u00e1 antiga, e sua varinha, dava ares de um velho collegial inquietante.<\/p>\n<p>Apezar desse rid\u00edculo vestuario e das suas obras equivocas pelas quaes foi at\u00e9 citada \u00e1 Policia correccional, era uma mulher muito digna e honesta, que tinham segundo assevera Tailhade, \u2018uma exist\u00eancia de matrona romana\u2019. Em sua casa, com a mesma m\u00e3o que escrevia gracejos um pouco livres, assoava no nariz a seu ultimo filho ou tirava a espuma ao caldo. Essa criatura singular morreu ha doze annos, s\u00f3 deixando pezares na memoria de todos que a conheceram.<\/p>\n<p>Uma mulher que se p\u00f3de ver, hoje, em dia, com cal\u00e7as pelas ruas de Paris, \u00e9 a c\u00e9lebre marqueza de B\u2026 Ha uns quinze annos, foi-me apresentada num palco de artistas de El Dorado de Nice, por Colette Willy, que ainda n\u00e3o tinha trocado o theatro pela penna. Parecia um homemzinho extranho, vestido com um terno cinzento perola, que lhe dava um aspecto de comparsa de revista. Parecia muito timida e falava com toda a suavidade. Era notavel o contraste entre a moista de suas attidutes e a audacia de sua indumentaria.<\/p>\n<p>Para terminar, podemos recordar que a liberdade no vestir foi reclamada nas Camaras Francezas, em 1887, pelas senhoras Asti\u00e9 de Valsayre e Martha de Vally, duas conhecidas suffragistas. O texto de uma peti\u00e7\u00e3o, feita em nome da Liga da Emancipa\u00e7\u00e3o da Mulher, parece ter inspirado o das feministas americanas.<\/p>\n<p>\u2018Visto como as modas s\u00f3 foram feitas para as mulheres ricas \u2013 diziam ellas \u2013 isentas de todo trabalho e que, por conseguinte at\u00e9 a saia mais simples, constitue, \u00e1s vezes, um obstaculo a certas occupa\u00e7\u00f5es, um entrave ao trabalho, e posto que esse entrave \u00e9 prejudicial \u00e1quellas que t\u00eam a necessidade de ganhar a vida:<\/p>\n<p>A \u2018Liga da Emancipa\u00e7\u00e3o da Mulher\u2019 resolve obter a liberdade de se vestir por todos os meios poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Ai! as francezas ainda n\u00e3o obtiveram essa liberdade e quanto a isso de \u2018entrave prejudicial ao trabalho\u2019, os costumeiros acharam interessante lan\u00e7ar a moda do \u2018vestido travado\u2019.<\/p>\n<blockquote><p>Infelizmente para as feministas exaltadas, que reclamam a igualdade absoluta entre os dois sexos, parece que essa igualdade jamais se extender\u00e1 \u00e1 indimentaria. \u00c9 certo que as necessidade profissionaes \u2013 a avia\u00e7\u00e3o, a ca\u00e7a, o alpinismo, todos os exercicios sportivos, pelos quais se interesse, mais a mais, o bello sexo &#8211; nos acostumaram a ver, cada dia mais, a mulher com trajes masculinos. Mas isso n\u00e3o passar\u00e1 de um disfarce pouco mais ou menos transitorio. A mulher perderia muito, se abandonasse seu vestido e os graciosos adornos que a distinguem do homem e que mant\u00eam seus encantos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Sempre haver\u00e1 pobres e infelizes creaturas, para as quaes o facto de ser mulher constituir\u00e1 uma catastrophe, no dizer dessa \u2018amazona\u2019 Miss Natalia Clifford Barney, grande amiga e uma das inspiradoras de Remy de Gourmont.<\/p>\n<p>Mas, a maior parte das mulheres se resignam, de boamente, \u00e1 sua sorte e n\u00e3o pensam em se disfar\u00e7arem de homem.<\/p>\n<p>Recentemente, uma revista dinamarqueza dirigiu a seus leitores, um inquerido sobre as condi\u00e7\u00f5es que deve preencher \u2018a mulher perfeita\u2019. A resposta premiada foi esta: \u2018A mulher perfeita \u00e9 a que lamenta nunca n\u00e3o ser homem\u2019.<\/p>\n<p>Com seguran\u00e7a, esta phrase de bom senso seria a que reuniria, e todos os paizes, a immensa maioria dos suffragios das mulheres intelligentes e sabias\u2019.\u201d<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<h3><strong>&nbsp;Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Correio do Povo<\/em>, 23\/11\/1924, s\/p. Hemeroteca do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Em franc\u00eas, \u201cpiada\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>George Sand era o pseud\u00f4nimo da escritora Amandine Aurore Lucile Dupin (1804-1876), uma das maiores romancistas francesas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>Apuro excessivo no trajar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos aspectos interessantes da moderniza\u00e7\u00e3o nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX foi sem d\u00favida a transforma\u00e7\u00e3o radical que sofreram as vestes femininas. Na esteira n\u00e3o s\u00f3 da sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, que exigia trajes mais pr\u00e1ticos no dia-a-dia, mas tamb\u00e9m do pensamento feminista, a reivindica\u00e7\u00e3o de formas de vestir cada vez mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6178,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[352],"tags":[35,604,605,237,53],"class_list":["post-6169","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-costumes","tag-correiodopovo","tag-diainternacionaldamulher","tag-feminismo","tag-genero","tag-moda","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6169"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6177,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6169\/revisions\/6177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}