{"id":6066,"date":"2023-12-22T19:05:43","date_gmt":"2023-12-22T22:05:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=6066"},"modified":"2023-12-22T19:05:43","modified_gmt":"2023-12-22T22:05:43","slug":"o-natal-de-joaosinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/o-natal-de-joaosinho\/","title":{"rendered":"O Natal de &#8220;Jo\u00e3osinho&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 final de dezembro. Est\u00e1 quente, muito quente, mesmo h\u00e1 mais de cem anos, quando ainda n\u00e3o se suspeitava que o escapamento dos motores a explos\u00e3o dos carros que faziam a del\u00edcia dos entusiastas da cidade moderna elevaria perigosamente as temperaturas m\u00e9dias de toda a Terra. Mesmo l\u00e1, h\u00e1 mais de cem anos, era v\u00e9spera de Natal e o colunista da revista <em>A M\u00e1scara<\/em> tirava sabe-se l\u00e1 de onde a inspira\u00e7\u00e3o para escrever, oprimido pelo calor de seu cub\u00edculo escaldante.<\/p>\n<p>Lendo a sua cr\u00f4nica intitulada \u201cNatal\u201d, \u00e9 poss\u00edvel sentir que a mente de \u201cJo\u00e3sinho\u201d rodopiava, aturdida pelo calor, e termina por tecer interessantes reflex\u00f5es sobre a mudan\u00e7a da moda feminina, e a toilette dos modernos cavalheiros de seu tempo. De l\u00e1 pra c\u00e1, muito mais mudou, mas o que n\u00e3o mudou \u00e9 a exaust\u00e3o de final de ano dos que, na v\u00e9spera de Natal, tem que trabalhar.<\/p>\n<h3>\u201c<strong>Natal<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h3>\n<p>Encantadora creatura \u2013 S\u00f3 este inadiavel compromisso que tenho com os directores desta revista me obrigaria, neste momento de canicula, a um inutil esfor\u00e7o creador deante da exigencia terrivel de algumas tiras de papel lamentavelmente em branco. Imagina, querida amiga, o meu tormento pavoroso. Faz l\u00e1 f\u00f3ria um calor de todos os demonios juntos e eu estou mettido dentro de um cubiculo que excede todas as determina\u00e7\u00f5es da cubagem do ar. Entre a pregui\u00e7a, que me prende a uma poltrona de vime e o esfor\u00e7o de abrir as janellas paro [<em>sic<\/em>] facilitar a entrada do ar abafadi\u00e7o da tarde estival, em absoluto n\u00e3o hesito: de par em par escancaro as janellas. Qual! Se ainda me fosse possivel abria as do espirito, para que a inspira\u00e7\u00e3o me assistisse nesta angustia!&#8230; Emfim, resigno-me e v\u00e1 de garatujar, penna em punho, bonecos inexpressivos que tento se assemelhem \u00e1 gra\u00e7a incomparavel do seu porte, \u00e1 seduc\u00e7\u00e3o magnifica dos seus olhos, ao encanto intraduzivel de toda a sua magnifica complei\u00e7\u00e3o de&#8230; de que? Nem a synonimia, t\u00e3o fecunda em outras horas, vem auxiliar-me na actualidade dolorosa que atravesso como algum viajeiro dos circulos malditos do inferno. Agora um borr\u00e3o mancha a alvura de uma das folhas de papel collocadas em cima do bureau onde, exhausto, desejaria adormecer um grande somno e dormir, sonhar&#8230; No silencio profundo do gabinete da redac\u00e7\u00e3o zumbe uma mosca. Olho aborrecido, o tecto e as paredes. H\u00e1 na minha frente uma gravura, extrahida de uma publica\u00e7\u00e3o extrangeira. Esta nada me p\u00f3de suggerir: refere-se ao carnaval, um Pierrot vulgar e duyas colombinas muito banaes; demais a mais o carnaval est\u00e1 ainda longe, de modo que poderia parecer indecente recurso apellar para motivo t\u00e3o distante. Atraz, vejo numa simples cartolina, um desenho. \u00c9 explendida, na concep\u00e7\u00e3o e no trabalho artistico, mas&#8230; impossivel como suggest\u00e3o ao meu cerebro can\u00e7ado e estafado, no desemparo de uma cultura solidade que agora de muito me serviria. Occulta quasi a um canto da sala, um calendario: sexta-feira, 24 de dezembro de 1920.<\/p>\n<p>Surpreendo-me; com que ent\u00e3o, minha presada amiga, estamos em vespera de natal e eu na ignorancia completa desse acontecimento t\u00e3o evocativo, adoravel, suavissimo de encanto!&#8230; O natal das commemora\u00e7\u00f5es christ\u00e3s!&#8230; E enquanto, por alguns instantes se afastam os tenebrosos pensamentos de h\u00e1 pouco, fico-me para aqui, recordando milh\u00e3o e meio de sentimentalidades, numa revoada do passado (se passado se denomina o periodo retrospectivo de dois anos) e immerso na tristeza oriunda da certeza que a elle n\u00e3o voltarei jamais. Sim, minha adoravel amiga, envelheci. Se me visse, induvitavelmente, n\u00e3o me reconhecia, t\u00e3o mudado estou. Ainda as rugas n\u00e3o vascillam na dennune[c]ia de minha idade falsa, mas os meus olhos j[a n\u00e3o tem a mesma vida anterior. S\u00e3o uns olhos de fauno envelhecido. Pobre de mim! E tanto mais entriste\u00e7o, sabendo que a senhora rejuveneceu naquelles dois annos. Affirma-o a dimens\u00e3o minima do seu vestido, pouco aquem do joelho, quando eu a vi, trajada com uma saia que rolava pelos sapatos. N\u00e3o o negue, mlle<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Que mal haveria nisso? Sim, eu a vi, de longo vestido, muito recatada de gestos, em attitude continua de melindres feridos, arisca e interessantes como as decantadas virgens dos romancetes de capa e espada. Naquelle tempo, mlle. muito discretamente punha os seus sapatinhos \u00e1 janelle, em a noite de vespera de Natal, aguardando a passagem de P\u00e1p\u00e1 Noel. Hoje&#8230; hoje, mlle. n\u00e3o p\u00f4e mais ingenuamente os sapatinhos junto ao fog\u00e3o ou em outra qualquer parte da casa. Atira-os, aborrecidamente para um canto da alcova e dorme tranquilla porque o P\u00e1p\u00e1 Noel moderno, n\u00e3o necessita de andar pela calada da noite telhados af\u00f3ra, arriscado a levar um bala\u00e7o, t\u00e3o communs s\u00e3o os assassinatos nos dias correntes. No baile, certamente elle j\u00e1 prometteu o presente, no intervalo de um <em>foxtrott<\/em>, <em>one-step<\/em>, etc.<\/p>\n<p>O seu \u2018S\u00e3o Nicolau\u2019 n\u00e3o usa a face coberta de longos pellos: tem-n\u2019a escanhoada correctamente e suavisada a sua maciez com <em>cold-cream<\/em>, p\u00f3 de arroz e outros ingredientes perfumados. Desse modo, \u00e9 perfeitamente inutil exigir-lhe o esfor\u00e7o immenso de subir a um telhado, trepar pela claraboia e sujar-se de fuligem e p\u00f2. Al\u00e9m disso, mlle. n\u00e3o acredita nessas coisas, e mais, em nada.<\/p>\n<p>Satisfeito, louvo aos c\u00e9us porque assim fico dispensado de escrever sobre um Natal cheio de calor como este. Perdoe-me a sensaboria e a idiotice dos periodos acima.<\/p>\n<p>Jo\u00e3osinho\u201d<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>A M\u00e1scara<\/em>, 1920, Ed00029-7, pp. 19-20. Hemeroteca Digital da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Abreviatura de <em>mademoiselle<\/em>, franc\u00eas para \u201csenhorita\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 final de dezembro. Est\u00e1 quente, muito quente, mesmo h\u00e1 mais de cem anos, quando ainda n\u00e3o se suspeitava que o escapamento dos motores a explos\u00e3o dos carros que faziam a del\u00edcia dos entusiastas da cidade moderna elevaria perigosamente as temperaturas m\u00e9dias de toda a Terra. 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