{"id":5829,"date":"2023-07-26T19:00:59","date_gmt":"2023-07-26T22:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5829"},"modified":"2023-07-26T00:01:41","modified_gmt":"2023-07-26T03:01:41","slug":"onde-moram-os-pobres-por-everardo-backheuser-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/onde-moram-os-pobres-por-everardo-backheuser-parte-2\/","title":{"rendered":"\u201cOnde moram os pobres\u201d, por Everardo Backheuser (parte 2)"},"content":{"rendered":"<p>A partir do final do s\u00e9culo XIX, as cidades brasileiras passavam a acomodar um contingente crescente de oper\u00e1rios e trabalhadores pobres, atra\u00eddos pelas ind\u00fastrias e pelas oportunidades de trabalho. Isso gerou uma press\u00e3o cada vez maior por habita\u00e7\u00f5es de baixo custo, e, inicialmente, eram as piores da cidade que sobravam para acomodar essa popula\u00e7\u00e3o mais pobre: corti\u00e7os, casas de c\u00f4modos, <em>avenidas<\/em>, etc. Por\u00e9m, a aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas nesses tipos de casas e quartos preocupava as autoridades. Primeiramente, no sentido sanit\u00e1rio: como manter sob controle o risco constante de epidemias com tantas pessoas dividindo poucos quartos sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de saneamento, ilumina\u00e7\u00e3o ou ventila\u00e7\u00e3o? Depois, no sentido moral: como assegurar a dec\u00eancia com tanta promiscuidade?<\/p>\n<p>Conforme nos explica em seu artigo na revista <em>Renascen\u00e7a<\/em>, o engenheiro Everardo Backheuser (1879-1951), a\u00ed entram as <em>vilas oper\u00e1rias<\/em>. Esses complexos residenciais projetados especificamente para trabalhadores \u2013 e, seguidamente, constru\u00eddos por ind\u00fastrias para acomodar seus oper\u00e1rios nas cercanias das f\u00e1bricas \u2013 resolviam tanto os problemas sanit\u00e1rios quanto os \u201cmorais\u201d. Seu desenho garantia a todos ambientes iluminados e ventilados, com latrinas pr\u00f3prias, bem como a privacidade das fam\u00edlias e sua devida separa\u00e7\u00e3o dos homens solteiros. Estes, por sua vez, contavam com c\u00f4modos separados das fam\u00edlias, procurando garantir que encontros clandestinos n\u00e3o acontecessem facilmente. Tanto a proximidade das f\u00e1bricas quanto a divis\u00e3o dos espa\u00e7os eram formas de disciplinar o cotidiano e a vida familiar das classes trabalhadoras, procurando afast\u00e1-las de divers\u00f5es populares como o jogo, a m\u00fasica, a bebida e as tavernas. Com o aumento da popula\u00e7\u00e3o urbana, temia-se pela seguran\u00e7a e pela ordem p\u00fablica caso a rotina dos trabalhadores pobres n\u00e3o fosse assim vigiada.<\/p>\n<p><em>Everardo Backheuser tratou dos tipos de moradias populares consideradas problem\u00e1ticas em mat\u00e9ria publicada na mesma revista intitulada <a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/onde-moram-os-pobres-por-everardo-backheuser-parte-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Onde moram os pobres&#8221;<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>&nbsp;\u201c<strong>Onde moram os pobres \u2013 as \u2018villas\u2019 da Companhia Saneamento<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h2>\n<p>Chamam-se <em>villas operarias<\/em>&#8230; Mas devo acaso definir eu o que sejam essas habita\u00e7\u00f5es hygienicas e baratas que todos os paizes civilizados construem para dar agasalho \u00e1s classes proletarias? Todos sabem o que s\u00e3o ellas. Um pouco de cultura intellectual, um pouco de viajens pelo velho mundo, a s\u00f3 leitura de uns tantos romancistas do naturalismo s\u00e3o o bastante para saber a gente culta que ellas existem.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o sabe por certo a aristocracia fluminense \u00e9 que existem mesmo entre n\u00f3s essas essas villas operarias ou, si for desagradavel e de metter medo o qualificativo de <em>operarias<\/em>, essas <em>casas populares<\/em> como j\u00e1 as v\u00e3o chamando os especialistas extrangeiros.<\/p>\n<p>Julguei pois quasi um dever para mim que por estas mesmas columnas procurei descrever o que \u00e9 a \u2018casa de commodos\u2019, o \u2018corti\u00e7o\u2019, a \u2018estalagem\u2019, dizer tambem do antonymo dessas nojentas moradas onde se estiola a preciosa vida do povo.<\/p>\n<p>E descrevendo, como vou procurar fazer, as villas da Companhia Saneamento, evidenciarei que mesmo aqui, nestes <em>atrasados Brasis<\/em>, j\u00e1 houve quem cogitasse do assumpto, quem a elle se dedicasse. E por esse pequeno exemplo ficar\u00e3o os governantes sabendo do pouco que ha feito como (si me leram o que n\u00e3o \u00e9 crivel), ficaram, pelo penultimo numero da <em>Renascen\u00e7a<\/em> conhecendo o horroroso estado geral das demais habita\u00e7\u00f5es pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o me cansarei de repisar, de repetir em varios tons e feitios, que o problema \u00e9, como nenhum outro, momentoso e urgente.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram as villas da Companhia do Saneamento do Rio de Janeiro a ser construidas em 1890 quando se iniciaram os trabalhos da Villa Ruy Barbosa que irrompeu na esquina das ruas Senado e Invalidos, no terreno mesmo onde existiam antigos corti\u00e7os e predios velhos.<\/p>\n<p>Em 1891, iniciavam-se os servi\u00e7os de construc\u00e7\u00e3o das villas Arthur Sauer, Senador Soares e Maxwell, a primeira no Jardim Botanico, nas visinhan\u00e7as da Fabrica de Tecidos Carioca e as duas ultimas na rua Maxwell, em Villa Isabel, tambem proximas a uma outra fabrica de tecidos \u2013 a Confian\u00e7a Industrial.<\/p>\n<p>Ainda em 1892, principiavam-se a assentar alicerces para uma outra villa na esta\u00e7\u00e3o do Sampaio, nas margens, pois, da E. F. Central do Brasil.<\/p>\n<p>Iniciados que haviam sido os trabalhos mais ou menos febrilmente com o desejo evidente de favorecer pontos os mais affastados, e para logo surge entre governo e companhia uma quest\u00e3o, quest\u00e3o essa que se vem movendo at\u00e9 hoje, morosa e pachorramente, por todos os degr\u00e1os judiciarios. Eu n\u00e3o quero (livre-me Deus!), dizer aqui quem tem raz\u00e3o, quando os homens da lei, os unicos que avaramente reservam-se o direito de perceber dos textos, ainda n\u00e3o disseram a sua ultima palavra no labyrintho das replicas e treplicas.<\/p>\n<p>O que lamento, como brasileiro, como carioca, como patriota, \u00e9 que gra\u00e7as a isto, uma falta de encontro de vistas, esteja a Capital Federal se privando de dar alojamento sadio a 60.000 pessoas, deixando-as morrer nos \u2018corti\u00e7os\u2019 sordidos e nas repellentes \u2018casas de commodos\u2019.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o surgio&#8230; mas para que dizer por que surgio a quest\u00e3o, isto \u00e9 a demanda, a chicana? Passe-se calmamente sobre ella e veja-se o que h\u00e1 feito. Basta (penso eu) que se diga que o <em>casus belli<\/em> originou-se do primeiro dos favores feitos em 1888 a Arthur Sauer, incorporador da Companhia. Os favores eram: isen\u00e7\u00e3o por 20 annos dos direitos de importa\u00e7\u00e3o para os materiaes de construc\u00e7\u00e3o, objectos e apparelhos de que tivesse a Companhia necessidade, para a realisa\u00e7\u00e3o das obras; isen\u00e7\u00e3o por 15 annos do imposto predial para os edificios que construisse; direito de desappropria\u00e7\u00e3o para os terrenos onde quizesse edificar, agua necessaria ao uso dos moradores.<\/p>\n<p>Em resumo, basta dizer que o governo negou licen\u00e7a para que a Companhia importasse livremente uns tantos materiaes, o que ella julgava poder fazel-o. D\u2019ahi a quest\u00e3o&#8230; e (o que \u00e9 triste), a paralisa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, dando como resultado n\u00e3o ser construida nem uma s\u00f3 villa a mais a n\u00e3o serem ultimadas mesmo as j\u00e1 iniciadas.<\/p>\n<blockquote><p>Cinco s\u00e3o, pois, hoje as villas construidas. A mais importante dellas \u00e9 a Villa Ruy Barbosa, implantada no cora\u00e7\u00e3o da cidade, tendo tido at\u00e9 hoje muito boas condi\u00e7\u00f5es sanitarias, o que de certo modo responde \u00e1quelles que supp\u00f5em indispensavel affastar para os arrabaldes as habita\u00e7\u00f5es populares.<\/p><\/blockquote>\n<p>A Villa Ruy Barbosa \u00e9 exteriormente sumptuosa. O corpo central e os corpos extremos em tres pavimentos, tendo intercallados outros corpos em dois pavimentos apenas, d\u00e3o ao conjuncto uma fei\u00e7\u00e3o nobre, o que n\u00e3o impede de no seu bojo se acommodarem as classes menos favorecidas.<\/p>\n<p>O interior da Villa comp\u00f5e-se de uma larga rua central, arborisada, cal\u00e7ada, illuminada, interceptada perpendicularmente por uma serie de travessas, tambem arborisadas.<\/p>\n<p>Os grupos de habita\u00e7\u00f5es interiores, em geral em dois pavimentos, servem para alojar no andar terreo as familias, havendo no superior um longo corredor com quartos destinados aos solteiros. H\u00e1 145 casas para familias e 324 commodos para celibatarios.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Estes quartos s\u00e3o independentes, mas para vigial-os a todos, installa a Companhia em casa extremidade do corredor um casal, de modo a ser mantida a ordem e a decencia.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Tem al\u00e9m disto a Villa Ruy Barbosa uma lavanderia a vapor (que, diga-se, nunca foi utilisada, tal o espirito rotineiro da popula\u00e7\u00e3o, affeita a antigos habitos) e um forno de encinera\u00e7\u00e3o de lixo destinado a destruir detrictos provenientes das casas e quartos da villa.<\/p>\n<p>Dois armazens de seccos e molhados, um a\u00e7ougue, uma pharmacia, uma carvoaria, um <em>restaurant<\/em>, uma sapataria completam as dependencias da Villa, sendo por esse modo facil aos proprios moradores a acquisi\u00e7\u00e3o dos generos mais necessarios.<\/p>\n<p>Facilita tambem a companhia o uso de mobilias para os quartos dos solteiros, fornecendo os moveis mais precisos ao rapido estadio nocturno no aposento. Por uma cama, um colch\u00e3o, um travesseiro, um lavatorio, uma mesa, uma cadeira e um cabide paga o locatario, em usofructo, mais 3$000 mensaes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Das outras <em>Villas<\/em> a mais importante \u00e9 a Arthur Sauer, que ainda tem corpos em dois pavimentos, predominando por\u00e9m, como nas demais, o andar terreo assobradado. Na Villa Sauer as casas em dois pavimentos s\u00e3o pouco procuradas, j\u00e1 por serem mais caras, j\u00e1 por ser augmentada a labuta da m\u00e3i de familia em constantes subidas e descidas. Succede ent\u00e3o que duas familias se cotisam, occupando uma os baixos e outra os altos da mesma casa.<\/p>\n<p>Tem a Villa Sauer 89 casas e 22 commodos para rapazes, sendo que a Villa Sampaio tem 66 casas, a Senador Soares 60 e a Maxwell apenas 11.<\/p>\n<p>Todas estas casas de todas as villas est\u00e3o sempre occupadas, pois \u00e9 enorme a sua procura, chegando a disputa a ponto de offerecer o novo pretendente luvas ao locatario antigo para que se mude. Havia, ao tomar eu as notas que v\u00e3o servindo de alinhavo deste artigo, mais descriptivo que technico, apenas 38 quartos vasios na Villa Ruy Barbosa e me explicava a Administra\u00e7\u00e3o este facto, attribuindo-o ao rigoroso cuidado que mantem n\u00e3o permittindo que exceda da cuba\u00e7\u00e3o marcada no contracto o numero de moradores, o que habitualmente se observa nas \u2018estalagens\u2019 e mesmo nas \u2018avenidas\u2019, onde as camas se amontoam nos aposentos. Por isso, v\u00ea-se a Companhia obrigada a alugal-os mais baratamente ainda; pela tabella que abaixo darei, esses commodos deveriam custar ao morador 20$ mensaes ao passo que s\u00e3o locados a 14$ somente.<\/p>\n<p>As casas que t\u00eam jardim, embora paguem por isso 10$000 a maior, s\u00e3o as mais procuradas, o que sobremodo lisongeia o gosto do nosso povo.<\/p>\n<p>De accordo com a clausula III do contracto calcula-se para cada commodo e por pessoa, adulto ou menor, um volume de ar de 16 m<sup>3 <\/sup>o que est\u00e1 de accordo com a media das prescrip\u00e7\u00f5es hygienistas.<\/p>\n<p>Os alugueis mensaes variam do seguinte modo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"188\">1 pessoa (at\u00e9 31 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">20$000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"188\">2&nbsp; \u201c (32 a 47 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">30$000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"188\">3 ou 4 \u201c (48 a 79 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">35$000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"188\">5 ou 6 \u201c (80 a 111 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">45$000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"188\">7 ou 8 \u201c (112 a 143 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">50$000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"188\">9 ou 10 \u201c (144 a 163 m<sup>3<\/sup>)<\/td>\n<td width=\"190\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/td>\n<td width=\"84\">60$000<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pagam mais, para&nbsp; remo\u00e7\u00e3o do lixo, 2$000 os solteiros e 5$000 as familias.<\/p>\n<p>Quando succede ser maior a familia, a clausula VI permitte ligarem-se duas casas e serem ellas habitadas pelo mesmo locatario.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Os typos das habita\u00e7\u00f5es adoptadas obedecem a varias disposi\u00e7\u00f5es internas, mantendo se sempre um directo recebimento de ar e luz do exterior. As casas s\u00e3o pois em todos os aposentos francamente arejadas e illuminadas.<\/p>\n<p>Cada casa de familia tem a sua latrina, o seu banheiro, a sua cosinha, o seu quintal completamente independentes de modo a manter isolado o recato de cada lar, embora pela proximidade das habita\u00e7\u00f5es vejam-se obrigados os moradores a um saltuar convivio social. Os commodos para solteiros n\u00e3o t\u00eam naturalmente as suas dependencias isoladas; cada grupo de 12 quartos tem, porem, a sua latrina e o seu banheiro.<\/p>\n<p>Tinha eu o maior desejo de reproduzir aqui alguns schemas das disposi\u00e7\u00f5es internas, verdadeiramente felizes, das casas das villas da Saneamento. Infelizmente a Directoria, apezar das suas mil gentilezas, n\u00e3o me permitte isso, n\u00e3o desejando ver conhecido do grosso publico essas <em>coisas<\/em> que julga serem da sua exclusiva propriedade.<\/p>\n<p>O caracteristico principal \u00e9 ter cada casa latrina o mais possivel affastada do domicilio. Anda bem nisto, como em outros pontos, a Companhia; uma latrina, mesmo funccionando bem a rede dos esgottos (n\u00e3o \u00e9 o caso do Rio) \u00e9 um imminente perigo de infec\u00e7\u00e3o e o mais elementar conselho \u00e9 affastal-a dos logares da permanencia constante dos moradores.<\/p>\n<p>Ha typos os mais variados comprehendidos nas classes acima indicadas, desde a pequena casinha com dois commodos apenas (uma sala e um quarto) at\u00e9 a mais espa\u00e7osa, mais ampla, mais confortavel, com duas salas e tres quartos, tendo sempre, todas ellas \u2013 \u00e9 bom repetir \u2013 cosinha, latrina e quintal; e entre esses dois typos extremos existe uma serie de outros em que varia quasi que s\u00f3mente a disposi\u00e7\u00e3o relativa dos aposentos, sendo ora dispostos deste ora daquelle modo, detalhes que s\u00f3 a compara\u00e7\u00e3o das plantas (o que me foi vedado reproduzir) poderia elucidar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Est\u00e1 assim visto, de um modo geral, o que s\u00e3o as villas operarias da Companhia Saneamento. Outras emprezas, principalmente fabricas de tecidos, t\u00eam construido tambem para seus operarios. Esses emprehendimentos j\u00e1 s\u00e3o o sufficiente para dar a coragem precisa ao governo e aos particulares afim de tentarem novas construc\u00e7\u00f5es deste genero. S\u00e3o ellas pouco, por\u00e9m, para a enorme, enormissima quantidade de corti\u00e7os que ainda hoje existem por toda a parte da cidade.<\/p>\n<p>Seja este exemplo ass\u00e1s energico para soerguer as for\u00e7as de combatentes combalidos, para dar energia e vigor aos outros que se aprestem para as pelejas em prol da hygiene, e seja elle principalmente bem vivo aos olhos do Poder Publico nesta epocha em que se trata por todos os modos, desde o rasgamento de novas ruas at\u00e9 a extinc\u00e7\u00e3o dos charcos nos quintaes, de sanear a cidade. E elle ser\u00e1 tanto mais vivo quanto se comparar a mortalidade nestas \u2018villas\u2019 com a das \u2018estalagens\u2019 e \u2018corti\u00e7os\u2019.<\/p>\n<p>A febre amarella, a nossa mais terrivel inimiga contra a qual hoje se lucta por todos os modos, gastando-se milhares de milhares de contos de r\u00e9is, n\u00e3o fez nos seis annos que v\u00e3o de 1890 a 1896, de 5000 almas que tantas s\u00e3o as que habitam as villas da Companhia Saneamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>Este eloquente exemplo n\u00e3o ser\u00e1 bastante efficaz para indicar ao governo a verdadeira derrota a seguir, eliminando os perniciosos \u2018corti\u00e7os\u2019 e cooperando por outro lado para que se levantem elegantes e hygienicas muitas e muitas outras construc\u00e7\u00f5es populares?<\/p>\n<p><em>Everardo Backheuser<\/em><\/p>\n<hr>\n<p>Abaixo, as p\u00e1ginas da publica\u00e7\u00e3o encontradas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:<\/p>\nngg_shortcode_0_placeholder\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Renascen\u00e7a \u2013 revista mensal de letras, sciencias e artes<\/em>. Rio de Janeiro, anno II, maio 1905, Num. 15, p. 185-189. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir do final do s\u00e9culo XIX, as cidades brasileiras passavam a acomodar um contingente crescente de oper\u00e1rios e trabalhadores pobres, atra\u00eddos pelas ind\u00fastrias e pelas oportunidades de trabalho. Isso gerou uma press\u00e3o cada vez maior por habita\u00e7\u00f5es de baixo custo, e, inicialmente, eram as piores da cidade que sobravam para acomodar essa popula\u00e7\u00e3o mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5841,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[316,349],"tags":[529,300,331,541,542],"class_list":["post-5829","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquitetura","category-cidade","tag-everardobackheuser","tag-habitacao","tag-moradia","tag-moradiasoperarias","tag-vilasoperarias","entry-image--portrait"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5829"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5829\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5846,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5829\/revisions\/5846"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5829"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}