{"id":5728,"date":"2023-01-19T12:40:10","date_gmt":"2023-01-19T15:40:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5728"},"modified":"2023-06-27T22:48:59","modified_gmt":"2023-06-28T01:48:59","slug":"onde-moram-os-pobres-por-everardo-backheuser-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/onde-moram-os-pobres-por-everardo-backheuser-parte-1\/","title":{"rendered":"&#8220;Onde moram os pobres&#8221;, por Everardo Backheuser (parte 1)"},"content":{"rendered":"<p>Everardo Adolpho Backheuser (1879-1951) foi, entre outras coisas, renomado engenheiro, ge\u00f3logo e deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Nos primeiros anos do s\u00e9culo XX, escreveu reflex\u00f5es a respeito das grandes reformas urbanas por que a cidade vinha passando na administra\u00e7\u00e3o do prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913). Essa reforma, que ficou conhecida como o \u201cBota-abaixo\u201d pela quantidade de demoli\u00e7\u00f5es de casario colonial que a caracterizou, foi respons\u00e1vel pela abertura da grande Avenida Central, hoje avenida Rio Branco, s\u00edmbolo da moderniza\u00e7\u00e3o da capital carioca.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo foi tamb\u00e9m caracterizado pela preocupa\u00e7\u00e3o com o problema da habita\u00e7\u00e3o popular, ou seja, da popula\u00e7\u00e3o mais pobre da cidade, buscando n\u00e3o apenas proporcionar casas com boas condi\u00e7\u00f5es de ilumina\u00e7\u00e3o e ventila\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m disciplinar a vida familiar dos trabalhadores pobres atrav\u00e9s do espa\u00e7o. Nesse sentido, Backheuser escreve este artigo na revista <em>Renascen\u00e7a<\/em>, detalhando os diversos tipos construtivos de habita\u00e7\u00f5es populares presentes no Rio de Janeiro: as <em>casas de c\u00f4modos<\/em>, as <em>estalagens<\/em>, os <em>corti\u00e7os<\/em>, as <em>avenidas<\/em> e as <em>favelas<\/em>. Salvo as <em>avenidas<\/em>, todos eles s\u00e3o tipos de constru\u00e7\u00f5es que traziam ainda os velhos problemas de falta de ventila\u00e7\u00e3o, de saneamento e de ilumina\u00e7\u00e3o, ou seja, ainda n\u00e3o eram as moradias populares projetadas atendendo rigorosamente estes quesitos de habitabilidade e higiene. Contudo, a descri\u00e7\u00e3o de Backheuser ajuda a compreender esses tipos construtivos, que n\u00e3o eram \u00fanicos do Rio de Janeiro, mas que podiam ser encontrados em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>No caso de Porto Alegre, contudo, as <em>avenidas<\/em> de que se tem not\u00edcia at\u00e9 aqui n\u00e3o dispunham de uma \u00e1rea aberta aos fundos como as descritas pelo engenheiro. Ao contr\u00e1rio, estariam muito mais pr\u00f3ximas das <em>estalagens<\/em> descritas pelo autor, o que pode indicar uma varia\u00e7\u00e3o regional de significado para o mesmo termo.<\/p>\n<p>Neste blog voc\u00ea pode encontrar mais informa\u00e7\u00f5es sobre as <em>avenidas<\/em> da antiga Porto Alegre <a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/o-que-e-uma-avenida-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;\u201c<strong>Onde moram os pobres<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Hoje que a administra\u00e7\u00e3o publica deixando o campo theorico dos relatorios espalhafatosos envereda afinal pelo terreno pratico da execu\u00e7\u00e3o dos melhoramentos, hoje que se vai remodelando a velha metropole rasgada por avenidas em todos os sentidos, demolindo-se e reconstruindo-se, soffregamente, hoje que se sente, gra\u00e7as a isso, gra\u00e7as a isso, esperan\u00e7a de ser ver em breve um Rio de Janeiro formoso e hygienico, \u00e9 hoje tambem occasi\u00e3o de se voltarem as vistas para as lugubres moradas onde vegeta a popula\u00e7\u00e3o indigente da cidade.<\/p>\n<p>Mesmo para isso j\u00e1 olhou o energico administrador municipal, apezar de ter a sua atten\u00e7\u00e3o sollicitada por uma diversidade grande de assumptos, incluindo na lei de obras disposi\u00e7\u00f5es terminantes para acabar com as habita\u00e7\u00f5es infectas, n\u00e3o o fazendo, por\u00e9m, de chofre, n\u00e3o atirando pois os moradores a uma vida nomade, agglomerando-os em outros antros, como s\u00f3 pode querer fazer uma m\u00e1 orienta\u00e7\u00e3o hygienica, mas lentamente por um trabalho persistente e ininterrupto.<\/p>\n<p>\u00c9 por certo curioso mostrar, principalmente ao leitos aristocrativo desta aristocratica <em>Renascen\u00e7a<\/em>, o que s\u00e3o ainda hoje essas habita\u00e7\u00f5es, para dizer depois \u2013 assumpto de outro artigo \u2013 o que j\u00e1 se tem feito no Rio para melhoral-as e o que se p\u00f3de ainda fazer ou ainda pela iniciativa particular, j\u00e1 do capitalista individualmente, j\u00e1 de associa\u00e7\u00f5es de caridade ou cooperativas, ou pela iniciativa do Estado explorando tambem ou monopolisando at\u00e9 esse genero de servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>S\u00e3o as ruas da Cidade Nova, da Gamb\u00f4a, da Sa\u00fade, de Frei Caneca (que sempre foram a habitual resid\u00eancia da gente pobre) as que hoje continuam a ser procuradas e por isso se enchem aidna mais os commodos que os minguados vencimentos dos operarios permittem pagar.<\/p>\n<p>E assim reunida, agglomerada, essa gente \u2013 trabalhadores, carroceiros, homens ao ganho, catraeiros, caixeiros de bodegas, lavandeiras, costureiras de baixa freguezia, mulheres de vida reles, entopem as \u2018casas de commodos\u2019, velhos casar\u00f5es de muitos andares, divididos e subdivididos por um sem numero de tapumes de madeira, [a]t\u00e9 nos v\u00e3os de telhados entre a cobertura carcomida e o forro carunchoso. \u00c1s vezes, nem as divis\u00f5es de madeira; nada mais que saccos de aniagem estendidos verticalmente em sceptos permittindo quasi a vida em commum, numa promiscuidade de horrorisar. A existencia \u00e9 ahi, como se p\u00f3de immaginar, detestavel.<\/p>\n<p>Palacetes de fei\u00e7\u00e3o afidalgada, por certo residencias nobres nos tempos da colonia ou do imperio, estendidos pelas ruas Camerino, Bar\u00e3o de S. Felix, Visconde de Itauna, Riachuelo e um milheiro de outras, encobrem com o seu aspecto agigantado a negra miseria de uma popula\u00e7\u00e3o enorme. Ahi se cosinha em commum, em corredores escuros, com amea\u00e7as permanentes de incendio que lamberiam rapidamente aquelles andares cheios de infortunio; mesmo nos v\u00e3os de escadas, escondem-se fogareiros, luzindo com as suas brazas vermelhas como as faiscantes pupillas de gatos, a se aquecerem nos borralhos. As alcovas escuras ficam pesadas de camas.<\/p>\n<p>Italianos vadios resonam dias a fio nesses ambientes nauseabundos; negras chegas de oleo na carapinha decantam modinhas, lavando roupas ali mesmo nas alcovas, e estendendo-as em telhados, quantas vezes em cordas nos proprios aposentos que adquirem pela persistencia uma athmosphera quente e humida, impossivel de respirar; crean\u00e7as n\u00faas e sujas esfregam-se no ch\u00e3o immundo, sujando-o mais; e no meio disso, mulheres de baixa extrac\u00e7\u00e3o, pretas em geral, em trajes ignobeis, baralhando-se na mesma colmeia com mo\u00e7as pobres mas recatadas, que cosem para os arsenaes pesadas tarefas, mantendo os seus quartinhos luxuosos quase \u00e1 custa de asseio, enfeitadas paredes com retratos queridos \u2013 ilhas de limpeza naquelles oceanos de immundicie.<\/p>\n<p>A casa de commodos \u00e9 a mais anti-hygienica, a mais detestavel das habita\u00e7\u00f5es collectivas. Contra ella pouco valem as rigorosas disposi\u00e7\u00f5es da lei desde que n\u00e3o haja a executal-a funccionarios criteriosos. O edificio em si \u00e9 habitavel, \u00e9 confortavel mesmo. Os seus vastos sal\u00f5es, os seus quartos espa\u00e7osos, as suas escadarias largas e suaves, os seus vestibulos luxuosos, restos de uma riqueza antiga, seriam excellente moradia si a necessidade, por que n\u00e3o dizer assim, si a necessidade n\u00e3o obrigasse a transforma\u00e7\u00e3o desses quartos, desses sa\u00e7\u00f5es, desses vestibulos em cubiculos estreitos e escuros.<\/p>\n<p>S\u00f3 aos poucos, e quando for poss\u00edvel, se ir\u00e3o transformando as \u2018casas de commodos\u2019 pela ac\u00e7\u00e3o dos poderes competentes trabalhando combinadamente, mas sem soffreguid\u00e3o n\u00e3o desalojando familias por terem ruim habita\u00e7\u00e3o para mettel-as em outros pontos j\u00e1 sobrecarregados e que mais sobrecarregados ficar\u00e3o com esse excessivo contrapeso, esvaziando a estes em seguida por medidas tyrannicas, pondo afinal a popula\u00e7\u00e3o pobre na contingencia de ter a vida errante dos vagabundos e, o que \u00e9 peior, ser tida como tal; ou ent\u00e3o essa transforma\u00e7\u00e3o se far\u00e1 seguindo outros proprietarios expontaneamente, nos casos exequiveis, o exemplo do Sr. Visconde de Cardoso da Silva que fez de um desses casar\u00f5es infectos, aprazivel vivenda tal a quantidade de areas arejadas em que a luz e o ar se espalham em golfadas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>P\u00f3de-se mesmo aconselhar at\u00e9 novas construc\u00e7\u00f5es desses grandes predios seguindo typos felizes de engenheiros extrangeiros. Os Srs. Magnani e Rondoni projectaram para Mil\u00e3o, ha pouco tempo, um edificio em uma area de pouco mais de 2.500 m<sup>2<\/sup> tendo 400 aposentos, todos recebendo fartamente ar e luz do exterior por meio de areas dispostas com felicidade, havendo al\u00e9m disso jardins e sendo toda a loja occupada com banhos populares e outros compartimentos n\u00e3o destinados \u00e1 moradia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>J\u00e1 em melhores condi\u00e7\u00f5es que a \u2018casa de commodos\u2019 \u00e9 a estalagem. Na \u2018estalagem\u2019 ha mais ar, ha mais luz, h\u00e1 um pouco mais de bem estar e de conforto.<\/p>\n<p>Em um pateo central creoulas, portuguezas, italianas, uma ou outra hespanhola, lavandeiras em geral, agglomeram-se em torno de tinas e no labutar diario, entre a pequerruchada travessa e alegre, passam as horas em uma agita\u00e7\u00e3o gritada e atordoante. Mas ahi a vida nocturna n\u00e3o tem a promiscuidade da \u2018casa de commodos\u2019.<\/p>\n<p>Pequenas casinhas de porta e janella, alinhadas, contornando o pateo, s\u00e3o habita\u00e7\u00f5es separadas, tendo a sua sala da frente ornada de registros de santos e annuncios de c\u00f4res gritantes, sala onde se recebem visitas, onde se come, onde se engomma, onde se costura, onde se maldiz dos visinhos, tendo tambem a sua alcova<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> quente e entaipada, separada da sala por um tabique de madeira, tendo mais um outro quartinho escuro e quente onde o fog\u00e3o ajuda a consumir o oxigeneo, envenenando o ambiente. Dorme-se em todos os aposentos. (Vide as figuras 1 e 3.)<\/p>\n<p>Essas habita\u00e7\u00f5es que as leis municipaes condemnam com o maximo de rigor tendem por isso mesmo a desapparecer. Como s\u00e3o muitas, por\u00e9m, algumas relativamente recentes, outras em concertos por ordem da Directoria de Saude Publica, perdurar\u00e3o por certo emprestando \u00e1 cidade um aspecto pittoresco com o seu <em>tic<\/em> de originalidade de costumes, de onde sahir\u00e1 gravado o typo dos trovadores noctivagos de viola e sanfona perdendo-se pela noite a dentro em melop\u00e9as insipidas ou em fandangos em que muita vez termina a func\u00e7\u00e3o pelo rolo e pela navalha.<\/p>\n<p>As estalagens antigas t\u00eam um aspecto mais primitivo, mais grotesco, mais mal acabado. S\u00e3o ligeiras construc\u00e7\u00f5es de madeira que o tempo consolidou pelos concertos clandestinos, atravancadas nos fundos de predios, tendo um segundo pavimento aca\u00e7apado como o primeiro e ao qual se ascende difficilmente por escadas ingremes, circumdado tambem por varandinhas de gosto exquisito e contextura ruinosa. Isto que ahi fica resumido \u00e9 o \u2018corti\u00e7o\u2019, cujo interior a penna naturalista de Aluisio Azevedo deixou para sempre gravada com o seu magestoso tra\u00e7o pinctural.<\/p>\n<p>Na \u2018estalagem\u2019 e no \u2018corti\u00e7o\u2019, o <em>facies <\/em>\u00e9 igual si bem que neste as condi\u00e7\u00f5es hygienicas sejam mais inferiores. As alcovas s\u00e3o mais quentes, mais baixas e mais escuras; a separa\u00e7\u00e3o das familias \u00e9 muito menos accentuada; a vida em commum, diurna ou nocturna, \u00e9 por isso mesmo mais promiscua. H\u00e1 \u2018corti\u00e7os\u2019 onde se penetra com o len\u00e7o ao naris e donde se sahe com nauseas.<\/p>\n<p>Essas habita\u00e7\u00f5es tendem e h\u00e3o de desapparecer si os futuros administradores municipaes seguirem a recta norma que est\u00e1 hoje tra\u00e7ada e n\u00e3o ficarem seduzidos por uma apparente melhoria dessas detestaveis construc\u00e7\u00f5es ordenando que se as concerte, preferindo ver melhoradas, em apparencia repito, esses \u2018corti\u00e7os\u2019 e \u2018estalagens\u2019 ao em vez de deixar o Tempo consumil-os para que flores\u00e7am nesses mesmos locaes as encantadoras \u2018villas operarias\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Os \u2018corti\u00e7os\u2019 e \u2018estalagens\u2019 j\u00e1 v\u00e3o cedendo lugar a essa outra habita\u00e7\u00e3o popular que o vulgo e a sisuda linguagem official classificaram de \u2018avenidas\u2019.<\/p>\n<p>A \u2018avenida\u2019 \u00e9 afinal uma estalagem aperfei\u00e7oada. Uma rua central, cal\u00e7ada e com passeios, fica ladeada por casinhas. Essas casinhas, por\u00e9m, s\u00e3o perfeitamente separadas, com a sua installa\u00e7\u00e3o de cosinha, banheiros e latrinas independentes, bem ladrilhados esses compartimentos como mandam os regulamentos para as mais ricas residencias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da rua com serventia commum apenas para transito, cada casa tem a sua area espa\u00e7osa e cimentada, destinada em geral a lavanderia. Quartos arejados substituem as lugubres alcovas das estalagens.<\/p>\n<p>(Para observar os exteriores a figura n. 2 \u00e9 sufficiente; o schema n. 3 d\u00e1 perfeita id\u00e9a da disposi\u00e7\u00e3o interna mais frequente na \u2018estalagem\u2019 e na \u2018avenida\u2019 e serve para comparal-as.<\/p>\n<p>A \u2018avenida\u2019 n\u00e3o \u00e9, muito longe est\u00e1 mesmo das <em>villas jardins<\/em>, abundantemente arborisadas com oxigeneo a produzir-se sempre gra\u00e7as a frondosas arvores, com jardins floridos como s\u00e3o exemplo algumas das villas da Companhia Saneammento; n\u00e3o s\u00e3o isso, s\u00e3o coisa muito aquem, s\u00e3o, por\u00e9m, um grande passo dado para a hygiene effectiva das habita\u00e7\u00f5es pobres.<\/p>\n<p>Na \u2018avenida\u2019 falta o arvoredo, falta o jardim, falta o encanto do bucolismo t\u00e3o necessario para suavisar a rude existencia do proletario; mas na \u2018avenida\u2019 j\u00e1 h\u00e1 luz, j\u00e1 h\u00e1 o \u2018home\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, o lar separado, j\u00e1 p\u00f3de haver a vida em familia isoladamente esse t\u00e3o precioso elemento moral de que carece o homem de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Destacando-se de tudo isso pela originalidade e pelo inesperado \u00e9 o \u2018morro da Favella\u2019.<\/p>\n<p>O \u2018morro da Favella\u2019 nada mais \u00e9 que o antigo morro da Providencia, perfurado pelos dois tunneis da Gamboa, os quaes ligam a linha tronco da Central \u00e1 Esta\u00e7\u00e3o Maritima. \u00c9 assim chamado depois da lucta de Canudos, pelos solados que de l\u00e1 voltaram e que por certo charam o seu <em>qu\u00ea<\/em> de semelhan\u00e7a entre o reducto dos fanativos e o reducto da miseria do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O \u2018morro da Favella\u2019 \u00e9 ingreme e escarpado; as suas encostas em ribanceiras marchetam-se, por\u00e9m, de pequenos casebres \u2018sem hygiene, sem luz, sem nada\u2019.<\/p>\n<p>Imaginem-se, de facto, <em>casas<\/em> (!) t\u00e3o altas como um homem, de ch\u00e3o batido, tendo para paredes tran\u00e7ados de ripas, tomadas as malhas com por\u00e7\u00f5es de barro a sopapo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, latas de kerozene abertas e justapondo-se, taboas de caix\u00f5es; tendo para telhado essa mesma mixtura de materiaes presas \u00e1 ossatura da coberta por blocos de pedras, de modo a que os ventos n\u00e3o as descubram; divis\u00f5es internas mal acabadas, como que paradas a meio com o proposito \u00fanico de subdividir o s\u00f3lo para auferir proventos maiores. \u00c9 isto pallida id\u00e9a do que sejam essas furnas onde ao mais completo desprendimento por comesinhas no\u00e7\u00f5es de asseio, se allia uma falta d\u2019agua quasi absoluta mesmo para beber e cosinhar.<\/p>\n<p>Quem olha a \u2018Favella\u2019 de longe tem com certeza, uma impress\u00e3o lisongeira, impress\u00e3o mais ou menos reprodusida pela gravura n. 4; mas quem sobe, desde logo depara com essas horrendas cho\u00e7as figuradas nas gravuras ns. 5 e 6.<\/p>\n<p>Para alli v\u00e3o os mais pobres, os mais necessitados, aquelles que pagando duramente alguns palmos de terreno, adquirem o <em>direito<\/em> de escavar as encostas do morro e fincar com quatro moir\u00f5es os quatro pilares do seu <em>palacete<\/em>. Os casebres espalham-se por todo o morro; mais unidos na base, espa\u00e7am-se em se subindo pela rua (!) da Igreja ou pela rua (!) do Mirante, euphemismos pelos quaes se conhecem uns caminhos estreitos e sinuosos que d\u00e3o difficil ascesso \u00e1 chapada do morro.<\/p>\n<blockquote><p>Alli n\u00e3o moram apenas os desordeiros e os facinoras como a legenda (que j\u00e1 a tem a \u2018Favella\u2019) espalhou; alli moram tambem operarios laboriosos que a falta ou a carestia dos commodos atiram para esses lugares altos onde se goza de uma barateza relativa e de uma suave vira\u00e7\u00e3o que sopra continuamente dulcificando a rudeza da habita\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O illustre Dr. Passos<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, activo e intelligente Prefeito da cidade, j\u00e1 tem as suas vistas de arguto administrador voltadas para a \u2018Favella\u2019 e em breve providencias ser\u00e3o dadas de accordo com as leis municipaes, para acabar com esses casebres.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante fazer notar a forma\u00e7\u00e3o dessa pujante aldeia de casebres e cho\u00e7as no cora\u00e7\u00e3o mesmo da capital da Republica, eloquentemente dizendo pelo seu mudo contraste a dois passos da Grande Avenida, o que \u00e9 esse resto de Brasil pelos seus milh\u00f5es de kilometros quadrados\u201d.<\/p>\n<p><em>Everardo Backheuser<\/em><\/p>\n<hr>\n<p>Abaixo, as p\u00e1ginas da publica\u00e7\u00e3o encontradas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:<\/p>\nngg_shortcode_0_placeholder\n<hr>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Renascen\u00e7a \u2013 revista mensal de letras, sciencias e artes<\/em>. Rio de Janeiro, anno II, mar\u00e7o 1905, Num. 13, p. 89-94. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Quarto sem janelas, t\u00edpico das antigas casas coloniais portuguesas que se constru\u00edam nas cidades brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Home<\/em>, ou <em>casa<\/em> em ingl\u00eas. Aqui, a palavra d\u00e1 o sentido de <em>lar familiar<\/em>, ou seja, do espa\u00e7o privativo da fam\u00edlia nuclear, caracterizado pelo aconchego mas tamb\u00e9m pela separa\u00e7\u00e3o individual de cada membro da fam\u00edlia em quartos, evitando a promiscuidade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Sopapo<\/em> \u00e9 uma t\u00e9cnica construtiva tradicional e usada pelas popula\u00e7\u00f5es mais pobres at\u00e9 hoje devido \u00e0 sua simplicidade e ao uso de materiais facilmente encontrados: galhos e troncos de \u00e1rvores, barro e palha. Sobre a estrutura de troncos e galhos tran\u00e7ados da constru\u00e7\u00e3o, atira-se a mistura de barro e palha, que vai sendo socada e preenchendo os vazios do tramado at\u00e9 formar as paredes. Da\u00ed o nome <em>sopapo<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O ent\u00e3o prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836-1913).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Everardo Adolpho Backheuser (1879-1951) foi, entre outras coisas, renomado engenheiro, ge\u00f3logo e deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Nos primeiros anos do s\u00e9culo XX, escreveu reflex\u00f5es a respeito das grandes reformas urbanas por que a cidade vinha passando na administra\u00e7\u00e3o do prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913). Essa reforma, que ficou conhecida como o \u201cBota-abaixo\u201d pela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5730,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[316],"tags":[295,529,300,465,293,528,382,80,85],"class_list":["post-5728","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquitetura","tag-corticos","tag-everardobackheuser","tag-habitacao","tag-habitacoespobres","tag-habitacoespopulares","tag-revistarenascenca","tag-riodejaneiro","tag-arquitetura","tag-avenidas","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5728"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5844,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5728\/revisions\/5844"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}