{"id":5671,"date":"2022-11-26T12:34:13","date_gmt":"2022-11-26T15:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5671"},"modified":"2022-11-26T12:36:01","modified_gmt":"2022-11-26T15:36:01","slug":"fumaca-o-valentao-da-colonia-africana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/fumaca-o-valentao-da-colonia-africana\/","title":{"rendered":"Fuma\u00e7a, o valent\u00e3o da Col\u00f4nia Africana"},"content":{"rendered":"<p>Ary Veiga Sanhudo (1915\u20131997) foi advogado, pol\u00edtico e escritor nascido em Porto Alegre, e que ficou conhecido pelos seus livros <em>Porto Alegre: cr\u00f4nicas da minha cidade<\/em>, em dois volumes. No segundo, Sanhudo relembra esse epis\u00f3dio policial, mas tamb\u00e9m com um qu\u00ea de c\u00f4mico, ocorrido na<span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-colonia-africana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Col\u00f4nia Africana<\/strong><\/a><\/span>: n\u00e3o sem deixar transparecer a linguagem racista da \u00e9poca, o autor narra as perip\u00e9cias do valent\u00e3o Fuma\u00e7a, personagem conhecido do bairro e que \u00e9 descrito como o t\u00edpico habitante daquela \u00e1rea: negro, trabalhador pobre, beberr\u00e3o, brig\u00e3o. E, claro, que n\u00e3o demora a ter problemas com a pol\u00edcia, ou, como eram assim apelidados no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os <em>ratos brancos<\/em>.<\/p>\n<p>Ainda que a resolu\u00e7\u00e3o do conflito possa parecer inocente e farsesca, a descri\u00e7\u00e3o de Fuma\u00e7a e de sua esposa corresponde a como o imagin\u00e1rio urbano representava os habitantes da Col\u00f4nia Africana naquele tempo: pobres, racializados, e frequentemente envolvidos em conflitos com a lei.<\/p>\n<blockquote>\n<h2><strong>&nbsp;O valent\u00e3o da zona<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>Ali na Col\u00f4nia Africana, na famigerada bacia, uma tarde de s\u00e1bado, o negro Fuma\u00e7a, que, ao que estou informado, era pedreiro de profiss\u00e3o, recebeu \u2018as notas\u2019 e foi pro \u2018boteco\u2019 mais perto espairecer as m\u00e1goas e encher a alma de cacha\u00e7a.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5668\" aria-describedby=\"caption-attachment-5668\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5668\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca.jpg\" alt=\"O valent\u00e3o Fuma\u00e7a da Col\u00f4nia Africana\" width=\"600\" height=\"926\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca.jpg 600w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca-194x300.jpg 194w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca-6x10.jpg 6w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca-432x667.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca-396x611.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/O-valentao-Fumaca-143x220.jpg 143w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5668\" class=\"wp-caption-text\">Desenho de sketchbook da pesquisadora. Bico de pena, nanquim e aquarela sobre papel, 2018.<\/figcaption><\/figure>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, entre um trago e outro e principalmente muita prosa, se desentendeu com o parceiro e deitou-lhe a madeira, sem d\u00f3 nem piedade. E foi rebuli\u00e7o dos pecados!<\/p>\n<p>Chamaram a pol\u00edcia, e em coisa de minutos o mercadinho ficou coalhado de \u2018ratos brancos\u2019<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O negro Fuma\u00e7a, moleque habituado a esses entreveros, quando viu a coisa preta passou a m\u00e3o numa acha de lenha e era um Deus nos acuda!&#8230;<\/p>\n<p>De sa\u00edda, assim, olhou para a porta e, deparando com tr\u00eas guardi\u00f5es da ordem, imperturbavelmente fardados de branco, n\u00e3o teve d\u00favida \u2013 quadrou o corpo, entrou rachando e os espalhou de golpe. J\u00e1 se viu um \u2018rato branco\u2019 levar a durindana<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> ao ch\u00e3o e, pisando em cima, pux\u00e1-la com firmeza para desentortar a l\u00e2mina que, ao primeiro tir\u00e3o, ficara que nem arco de barril velho amassado.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o \u2018rolo\u2019 ia aumentando e os \u2018ratos brancos\u2019 chegando de mont\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5673\" aria-describedby=\"caption-attachment-5673\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5673\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01.jpg\" alt=\"Guarda Civil. Revista A M\u00e1scara, 06\/02\/1925. Hemeroteca do MCSHJC.\" width=\"400\" height=\"913\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01.jpg 400w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01-131x300.jpg 131w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01-4x10.jpg 4w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01-396x904.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/A_Mascara_06021925_Guarda_Civil_01-96x220.jpg 96w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5673\" class=\"wp-caption-text\">Guarda Civil. Revista<em> A M\u00e1scara<\/em>, 06\/02\/1925. Hemeroteca do MCSHJC.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O negrinho mediu a situa\u00e7\u00e3o, deu uma olhada, viu um claro, e enveredou pro lado duma obra que existia ali por perto.<\/p>\n<p>Quando se acercou duma pilha de tijolos, atirou fora a acha de lenha, que, nessa altura, mais parecia um graveto esfarpelado, e passou a arremessar tijolos, sem dar a m\u00ednima folga aos policiais. De vez em quando, um \u2018rato branco\u2019 mais afoito investia decidido e Fuma\u00e7a s\u00f3 desviava o golpe, quadrando o corpo, e com c\u00e9lere rasteira fazia o homem amontoar descadeirado prum canto da sarjeta.<\/p>\n<p>Aquele n\u00e3o voltava mais!<\/p>\n<p>E por a\u00ed a briga se estendeu at\u00e9 ao entardecer, porque enquanto houve tijolo, ningu\u00e9m chegou perto do Fuma\u00e7a!<\/p>\n<p>Chamaram o delegado e de nada adiantou.<\/p>\n<p>J\u00e1 noitinha, entre tijolos e improp\u00e9rios, e in\u00fameras e in\u00fateis vozes de pris\u00e3o, todo o mundo cansado, ouviu-se um zumzum desusado e uma mulata baixa, gorda e bexigosa, irrompeu do pr\u00f3prio lado dos guardas e, caminhando r\u00e1pida em dire\u00e7\u00e3o ao Fuma\u00e7a, levantou a m\u00e3o e deu-lhe tremendo bofet\u00e3o, que o apanhou assim pelas costas, ombros, pesco\u00e7o, cabe\u00e7a e tudo&#8230;<\/p>\n<p>Todo mundo ficou perplexo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a dona do valent\u00e3o berrou:<\/p>\n<p>\u2013 Negro desgra\u00e7ado, vagabundo, sem-vergonha, desordeiro!&#8230;<\/p>\n<p>O homem se encolheu todo e a rec\u00e9m-chegada deu-lhe mais uma s\u00e9rie de trompa\u00e7os e disse:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tem mais nada a fazer do que andar brigando?<\/p>\n<p>Depois, virou-se para o lado dos \u2018ratos brancos\u2019, onde estava a autoridade policial, e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Pode deixar, seu delegado, eu vou dar comida pra esse negro cachorro e em seguida j\u00e1 levo ele no Posto.<\/p>\n<p>E metendo as m\u00e3os no Fuma\u00e7a o foi levando aos trambolh\u00f5es, abaixo de gritos e desaforos, rua afora&#8230;\u201d<\/p>\n<p><em>Ary Veiga Sanhudo<\/em><\/p>\n<h3><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> SANHUDO, Ary Veiga. <em>Porto Alegre: cr\u00f4nicas da minha cidade.<\/em> V. 2. Porto Alegre: Editora Movimento\/Instituto Estadual do Livro, 1975. P. 115-116.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Como eram chamados os policiais, \u00e0 \u00e9poca, devido \u00e0 cor branca das suas fardas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Esp\u00e9cie de faca ou punhal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ary Veiga Sanhudo (1915\u20131997) foi advogado, pol\u00edtico e escritor nascido em Porto Alegre, e que ficou conhecido pelos seus livros Porto Alegre: cr\u00f4nicas da minha cidade, em dois volumes. No segundo, Sanhudo relembra esse epis\u00f3dio policial, mas tamb\u00e9m com um qu\u00ea de c\u00f4mico, ocorrido na Col\u00f4nia Africana: n\u00e3o sem deixar transparecer a linguagem racista da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5668,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[519,214,59,518,161,174],"class_list":["post-5671","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-aryveigasanhudo","tag-coloniaafricana","tag-policia","tag-ratosbrancos","tag-portoalegrenegra","tag-sociabilidades","entry-image--portrait"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5671"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5692,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5671\/revisions\/5692"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}