{"id":5570,"date":"2022-06-03T15:23:06","date_gmt":"2022-06-03T18:23:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5570"},"modified":"2022-06-03T15:23:34","modified_gmt":"2022-06-03T18:23:34","slug":"a-festa-do-divino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-festa-do-divino\/","title":{"rendered":"A Festa do Divino"},"content":{"rendered":"<p>De origem a\u00e7oriana, a devo\u00e7\u00e3o ao Divino Esp\u00edrito Santo deu origem \u00e0 irmandade de mesmo nome em Porto Alegre, onde comemorava-se, entre maio e junho, a que talvez tenha sido a festa religiosa mais popular da cidade at\u00e9 fins do s\u00e9culo XIX. A sede da Irmandade, uma graciosa capela em estilo g\u00f3tico que ficava bem na esquina da rua Esp\u00edrito Santo com a rua Duque de Caxias, j\u00e1 n\u00e3o existe: foi demolida juntamente com a antiga Igreja Matriz para dar lugar \u00e0 atual catedral metropolitana. A Igreja do Divino, atualmente na avenida Osvaldo Aranha, foi constru\u00edda para continuar abrigando a irmandade devota que crescera e demandava uma sede maior nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a mem\u00f3ria tanto da capela quanto da festa do Divino permanece na cidade com a for\u00e7a das suas tradi\u00e7\u00f5es populares. Na pintura, o tcheco Francis Pel\u00edchek retratou a festa noturna em uma majestosa tela a \u00f3leo em que \u00e9 poss\u00edvel ver a multid\u00e3o na Pra\u00e7a da Matriz sob a ilumina\u00e7\u00e3o fe\u00e9rica dos bicos de luz e, ao fundo, a capela do Divino envolvida em luzes multicores.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5572\" aria-describedby=\"caption-attachment-5572\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5572\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-1024x679.jpeg\" alt=\"Festa do Divino. Francis Pel\u00edchek (Kutn\u00e1 Hora, Rep\u00fablica Tcheca, 1896 Porto Alegre, Brasil, 1937) \u00d3leo sobre tela, 1925.\" width=\"660\" height=\"438\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-1024x679.jpeg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-300x199.jpeg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-768x509.jpeg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-10x7.jpeg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-432x287.jpeg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-396x263.jpeg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-1120x743.jpeg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-660x438.jpeg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino-332x220.jpeg 332w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Francis-Pelichek-Festa-do-Divino.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5572\" class=\"wp-caption-text\"><em>Festa do Divino.<\/em> Francis Pel\u00edchek (Kutn\u00e1 Hora, Rep\u00fablica Tcheca, 1896<br \/>Porto Alegre, Brasil, 1937). \u00d3leo sobre tela, 1925.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na literatura, o poeta e escritor Augusto Meyer relata a festa com as cores v\u00edvidas da mem\u00f3ria de sua inf\u00e2ncia e juventude, tecendo uma impressionante descri\u00e7\u00e3o da mesma. O autor relembra o percurso da prociss\u00e3o para coletar esmolas pelas casas da cidade, os fogos de artif\u00edcio, as banquinhas de comidas e bebidas que se animavam \u00e0 medida em que a noite avan\u00e7ava e at\u00e9 da sess\u00e3o de cinema ao ar livre que se dava na Pra\u00e7a da Matriz, em pleno frio de junho.<\/p>\n<p>\u201c<strong>A festa do Divino<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>De repente corria a not\u00edcia: o Divino vai percorrer a pra\u00e7a e as quadras mais pr\u00f3ximas. O Imperador Festeiro j\u00e1 encomendou os fogos, vai ser um fest\u00e3o dos grandes&#8230; Em todas as casas, por devo\u00e7\u00e3o ou novidade, preparava-se o povo para a visita do Divino.<\/p>\n<p>Os guris ficavam de tocaia l\u00e1 no alto da pra\u00e7a. E vem n\u00e3o vem&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas horas da tarde, espocava uma gir\u00e2ndola de foguetes e o sino da capela, num repique alegre de festa, anunciava a sa\u00edda do pedit\u00f3rio; via-se o cortejo das bandeiras descendo as escadas do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u00c0 frente do bando de opas vermelhas, o negrinho Jacinto escancarava o riso na bei\u00e7ola; vinha de fogueteiro o felizardo, e pitando, ainda por cima! De vez em quando parava, escarafunchava na buchinha, encostava-lhe a brasa do cigarro e, arqueando o bra\u00e7o num gesto gracioso e negligente, como quem diz: minha gente, aprenda, largava para o alto a chispada do foguete, com um rabo de fa\u00edscas na cal\u00e7ada, que esparramava as canelas dos moleques&#8230; Vendo contra o c\u00e9u o penacho branco e preto da fuma\u00e7a, os olhos tinham tempo de mandar aviso ao ouvido: a\u00ed vem o estouro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Viva! Viva o Divino!<\/p>\n<p>Mal estourava a bomba, a vareta j\u00e1 vinha de volta, crescendo, e \u2013 a que te pego \u2013 espalhava-se a penca dos guris numa disparada de calcanhares bate bate no traseiro.<\/p>\n<p>Esvoa\u00e7avam ao vento as fitas azuis e vermelhas das bandeiras bordadas, com uma pomba de prata rebrilhando ao sol \u2013 era o pedit\u00f3rio que descia a rua, parando de porta em porta. Via-se o alferes da bandeira estacar de quando em quando, entrar numa casa, sair ao fim de alguns minutos, e o foguete anunciava mais uma d\u00e1diva \u2013 n\u00edquel, patac\u00e3o ou pelega \u2013 para a grande festa da cidade.<\/p>\n<p><em>Aqui chegou o Divino,<\/em><\/p>\n<p><em>Que a todos vem visitar;<\/em><\/p>\n<p><em>Vem pedir-vos uma esmola,<\/em><\/p>\n<p><em>Para o seu Imp\u00e9rio enfeitar.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>A pombinha do Divino <\/em><\/p>\n<p><em>De voar j\u00e1 vem cansada,<\/em><\/p>\n<p><em>Ela pede aos seus devotos<\/em><\/p>\n<p><em>Que lhe d\u00eaem uma pousada.<\/em><\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>O Divino Esp\u00edrito Santo<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o pede por carestia,<\/em><\/p>\n<p><em>Pede somente uma esmola,<\/em><\/p>\n<p><em>Pra festejar o seu dia.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_5573\" aria-describedby=\"caption-attachment-5573\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5573\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-821x1024.jpg\" alt=\"Capela do Divino com ilumina\u00e7\u00e3o noturna. Revista &quot;A M\u00e1scara&quot;, N\u00famero Comemorativo do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia, 1922. Acervo do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.\" width=\"660\" height=\"823\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-821x1024.jpg 821w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-240x300.jpg 240w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-768x958.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-1231x1536.jpg 1231w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-1641x2048.jpg 1641w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-8x10.jpg 8w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-432x539.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-396x494.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-1120x1398.jpg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-660x824.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica-176x220.jpg 176w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A_Mascara_Num-Comemorativo-do-Centenario-da-Independencia_Capela-do-Divino-feerica.jpg 1803w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5573\" class=\"wp-caption-text\">Capela do Divino com ilumina\u00e7\u00e3o noturna numa de suas festas. Revista &#8220;A M\u00e1scara&#8221;, N\u00famero Comemorativo do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia, 1922. Acervo do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando a bandeira entrava numa sala, com um vago cheiro de igreja, as devotas ca\u00edam de joelhos e punham os l\u00e1bios untuosos na pomba de prata, enquanto ao lado o tesoureiro abria a sacola das esp\u00f3rtulas. Se a d\u00e1diva n\u00e3o correspondia \u00e0 expectativa e da casa de algum pilchudo pingava um magro cobre, o capit\u00e3o do bando agradecia entre dentes, dava a ordem de marcha com sua vara de prata e desabafava aos pedintes da Irmandade a indigna\u00e7\u00e3o: aquilo n\u00e3o valia um busca-p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Mas espocavam alegremente os foguetes do negrinho Jacinto ao claro sol da tarde. Esvoa\u00e7avam por cima do bando vermelho as fitas compridas. Na ponta de cada estandarde uma pomba de metal abria as asas. E o tesoureiro, retardado, e pesadote da carga, fechava o pr\u00e9stito, passando o saco da direita para a esquerda ou de um ombro para o outro, num cansa\u00e7o um tanto ostensivo e cheio de responsabilidades.<\/p>\n<p>Entre a inveja ao fogueteiro, o respeito pelo saco e a atra\u00e7\u00e3o das varetas queimadas, fic\u00e1vamos aparvalhados de hesita\u00e7\u00e3o, trepidantes e patetas; de instante a instante, um de n\u00f3s largava a correr como louco, atirando as taquarinhas para o alto, entre vivas e pinotes. Era a folia do Divino Esp\u00edrito Santo, na Pra\u00e7a da Matriz, em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Come\u00e7avam os preparativos. Bancos cheirando a pinho novo protegiam os canteiros. Estendiam-se fileiras de bandeirolas festivas em todos os rumos, com postes ornamentados de galhardetes. Aos quatro cantos da pra\u00e7a erguiam-se os coretos para as famosas bandas militares. Num crescendo triunfal de pancadaria, cantavam os martelos sobre as t\u00e1buas, achatando a cabe\u00e7a dos pregos. Os dentes da serra comiam o risco do l\u00e1pis, e ouvia no seu ritmo o \u2018serra madeira\u201d dos meus brinquedos:<\/p>\n<p><em>Serra madeira,<\/em><\/p>\n<p><em>Carpinteiro,<\/em><\/p>\n<p><em>Serra direito<\/em><\/p>\n<p><em>Ganha dinheiro&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Em frente da igreja deitava corpo o coreto grande do leil\u00e3o e na parte baixa da rua fronteando a casa do Tib\u00farcio de Azevedo, a casinha do operador cinematogr\u00e1fico parecia muito alta e estreita sobre a arma\u00e7\u00e3o de estacas, com sua escadinha \u00edngreme e a misteriosa abertura serrada nas t\u00e1buas, por onde passava o olho da m\u00e1quina. O pano das \u2018vistas\u2019, como dizia o povo, era estaqueado numa esp\u00e9cie de port\u00e3o grande, que tomava quase toda a largura da rua.<\/p>\n<p>Entrava em cena o Tubino, o pitoresco cen\u00f3grafo das festas populares, com as enormes latas de tinta e a sua juba soberba, comendo as orelhas. Tira o pelego da cabe\u00e7a!, gritava a molecada. Imperturb\u00e1vel, assistido por aprendizes, Tubino projetava sua f\u00e9rtil inventiva de decorador sobre a carca\u00e7a de sarrafos e o revestimento de lona; eram volutas engenhosas, enganchando em rabioscas e argolinhas, com retic\u00eancias oportunas, para regalo dos olhos. Talvez sem querer, com uma frescura imprevista que era um fr\u00e1gil acaso, punha no meio do enchimento um delicioso motivo floral, que deitava raiz l\u00e1 no fundo da sua ingenuidade, rimando com o mist\u00e9rio da poesia&#8230; Nos momentos de autocr\u00edtica recuava, os olhos postos na frincha das p\u00e1lpebras, a cabe\u00e7a leonina meio de lado, para apreciar melhor a obra dos seus amores. Tubino vivia e sofria os seus coretos. Mas tamb\u00e9m em dois tempos transfigurava-os em n\u00e3o sei que estranhas fragatas empavesadas.<\/p>\n<p>Junto ao meio-fio das cal\u00e7adas, em volta do Tesouro e do Teatro S\u00e3o Pedro, na Rua da Ponte ou para os lados da Bailante, os doceiros e quitandeiros improvisavam as suas tendas, onde vendiam pinh\u00f5es, pipocas, amendoim torrado, peixe frito, sonhos e broinhas de milho, balas de ovos, cocadas cor-de-rosa, balas de c\u00f4co e puxa-puxa, grandes cartuchos de bala americana, que partiam ali mesmo sobre uma prancha, com a machadinha curta, de dois gumes. Corr\u00edamos a inspecionar os preparativos, j\u00e1 de \u00e1gua na boca.<\/p>\n<p>E as novenas sempre cheias; pela porta aberta, fulguravam altares, o coro atra\u00eda os conhecedores como um espet\u00e1culo de \u00f3pera no S\u00e3o Pedro, e os velhos que ainda se lembravam do tempo do Mendanha bebiam as vozes maviosas, enternecidos de saudade.<\/p>\n<blockquote><p>Ao anoitecer, a capela do Esp\u00edrito Santo parecia uma simples arma\u00e7\u00e3o de luzes multicores, uma fachada feita de bicos de luz, contra o c\u00e9u noturno. A pra\u00e7a era um mar de cabe\u00e7as ondulantes.<\/p><\/blockquote>\n<p>&#8211; Est\u00e1 na hora! \u2013 reclamava o povo, esperando pelas \u2018vistas\u2019.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, no meio da gentama, abria-se um corredor, formava-se uma clareira, \u00e0 for\u00e7a de empurr\u00f5es: chegara o bombeiro encarregado de molhar o pano do cinema. Aberta a chave do registro, o jato enchia a tripa murcha da mangueira e o esguicho claro subia, \u00e0s vezes passava por cima do pano e ca\u00eda do outro lado, em aguaceiro imprevisto, atropelando os incautos.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 conhecia o cinema ao ar livre, das festas de S\u00e3o Pedro, na Floresta. Lembra-me bem uma fita colorida, em que a mo\u00e7a do vestido azul entrega ao mo\u00e7o de preto, distinto e melanc\u00f3lico, um ramo de mios\u00f3tis&#8230; Mas n\u00e3o havia compara\u00e7\u00e3o com o cinema da Pra\u00e7a da Matriz, na festa do Esp\u00edrito Santo; todas as noites, programa novo, com duas sess\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois de muita gritaria, o povo se aquietava, e como era estranho ver aquela enchente humana, apesar dos frios de junho, silenciosa e embevecida, sem um pio de impaci\u00eancia, fascinada por um ret\u00e2ngulo de pano, onde fantasmas fotogr\u00e1ficos se agitavam entre dois letreiros, que muita gente mal podia soletrar, e das janelas da parte baixa da quadra as fam\u00edlias acompanhavam pelo avesso&#8230;<\/p>\n<p>Que espanto para a sia Clementina, a velha serrana, criada do professor Meyer, quando viu pela primeira vez na vida as \u2018vistas\u2019&#8230; Estava a meu lado na sacada e agarrou-me pelo bra\u00e7o, num vago terror:<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 aquilo, menino? Retrato se mexendo&#8230; \u00e9 figurinha de papel?<\/p>\n<p>Com o implac\u00e1vel pedantismo de guri j\u00e1 matriculado no gin\u00e1sio, tentei explicar a mandinga \u00e0 sia Clementina, mostrando o feixe luminoso que sa\u00eda da casinha do operador, mas logo vi que a serrana velha n\u00e3o podia entender patavina da generosa explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o prestava grande aten\u00e7\u00e3o \u00e0s \u2018vistas\u2019: o que eu queria era arrancar licen\u00e7a aos meus pais e misturar-me ao povo, conhecer os segredos da festa, comprar pinh\u00f5es e cartuchos de balas, arrematar qualquer coisa no leil\u00e3o, percorrer todas as tendas e coretos, gritar com os outros meninos:<\/p>\n<p>&#8211; Musga, musga, maestro Marcolino!<\/p>\n<p>Que alegr\u00e3o, quando nos concederam a licen\u00e7a t\u00e3o desejada num dos intervalos do cinema, ao primeiro acender das luzes! Quando parava a proje\u00e7\u00e3o, no primeiro intervalo, e a claridade inundava de s\u00fabito o mar de cabe\u00e7as atentas, o povo rompia num \u00f3\u00f3\u00f3 e se desmanchava em remoinhos, cada qual procurando abrir uma picada no meio dos outros, \u00e0 for\u00e7a de cotovelos e ombros, de \u2018com licen\u00e7as\u2019 e empurr\u00f5es. Um vento de capricho e aventura desmanchava o ajuntamento, e ao sil\u00eancio de crian\u00e7as bem comportadas \u2013 sil\u00eancio m\u00e1gico, fascina\u00e7\u00e3o das imagens num pano espectral \u2013 sucedia o despertar da <em>brouhaha<\/em>, aquele sussurro feito de muitas vozes e arrastar de passos.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes surgia um ondular mais crespo de cabe\u00e7as, numa brecha suspeita, agitavam-se bra\u00e7os; entre gritos e exclama\u00e7\u00f5es, trilavam apitos de guardas e ratos-brancos<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> metiam o chanfalho nalgum desordeiro ou apartavam a briga, dando conselhos cheios de experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao reacender das luzes, animava-se o passeio dos namorados no redondo da pra\u00e7a, em volta no monumento a Castilhos. Por um ajuste instintivo entre os interessados, reinava uma ordem quase estelar naquele namorisco, de modo que as mo\u00e7as, formando um c\u00edrculo de raio menor, percorriam num sentido a sua \u00f3rbita, enquanto o c\u00edrculo mais largo dos rapazes girava em sentido contr\u00e1rio; a cada encontro astronomicamente previsto, os olhos trocavam a senha muda e cariciosa. Era s\u00f3 um momento, um relance em que as pupilas se dilatavam um pouco, para embeber-se com ousadia na luz de outras pupilas; ou ent\u00e3o, mais disfar\u00e7adas, com uns leves toques de riso e mal\u00edcia, abriam caminho por entre c\u00edlios, numa cumplicidade obl\u00edqua&#8230; Mal se voltavam as cabe\u00e7as, e j\u00e1 iam sumidos os dois na roda-viva dos outros namorados.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5571\" aria-describedby=\"caption-attachment-5571\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5571\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-1024x657.jpg\" alt=\"A pra\u00e7a da Matriz com o monumento a J\u00falio de Castilhos. Possivelmente d\u00e9cadas de 1920-30. Acervo do Correio da Manh\u00e3, Rio de Janeiro, presente no Arquivo Nacional.\" width=\"660\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-1024x657.jpg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-300x192.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-768x493.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-1536x985.jpg 1536w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-2048x1314.jpg 2048w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-10x6.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-432x277.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-396x254.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-1120x718.jpg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-660x423.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/BR_RJANRIO_PH_0_FOT_02736_d0012de0107-1_Pca-Matriz-343x220.jpg 343w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5571\" class=\"wp-caption-text\">A pra\u00e7a da Matriz com o monumento a J\u00falio de Castilhos. Ao fundo, a antiga Igreja Matriz e a Capela do Divino atr\u00e1s das \u00e1rvores. Possivelmente d\u00e9cadas de 1920-30. Acervo do Correio da Manh\u00e3, Rio de Janeiro, presente no Arquivo Nacional. Foto 02736.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo isto, estranha cena de sempre, os olhos da crian\u00e7a observam com avidez e guardam no fundo da mem\u00f3ria; mais tarde, quando chega a hora do primeiro namoro, o sabor delicioso da inicia\u00e7\u00e3o parece misturar-se a uma vaga lembran\u00e7a de coisa vivida e reconhecida. O redondo da pra\u00e7a, com as duas rodas de mo\u00e7as e rapazes, os ing\u00eanuos olhares cruzados, as emo\u00e7\u00f5es de uma noite de festa, quando ao fim das novenas espocavam foguetes e as bandas de m\u00fasica traduzem o alvoro\u00e7o da esperan\u00e7a numa linguagem marcial de marchas vivas e alegres, num ritmo juvenil de alegria e conquista \u2013 o redondo da pra\u00e7a era um picadeiro de recorda\u00e7\u00f5es para os mo\u00e7os de agora, mal sa\u00eddos da inf\u00e2ncia, entravam por sua vez na roda, \u00e0 espera de uns olhos \u2013 e assim tudo recome\u00e7a, como um c\u00edrculo fechado, para as ilus\u00f5es de sempre.<\/p>\n<p>Nos quatro cantos da pra\u00e7a, as quatro bandas militares emendavam as marchas festivas; os preg\u00f5es dos tendeiros e dos vendedores ambulantes pareciam animados do mesmo furor de emula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Olha o gr\u00e3o-de-bico! O gr\u00e3o, o gr\u00e3o-de-bico!<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tenemo peche frito \u2013 e pipoca para sobremesa!<\/p>\n<p>&#8211; Pipoca e amendoim torrado! Chega minha gente! E \u00e9 pra j\u00e1 que eu vou viaj\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Piiiinh\u00e3o quente! Est\u00e1 quentinho o pinh\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 de muito longe se ouvia a poderosa voz do Ab\u00edlio, abrindo alas no meio da massa, \u00e0s vezes com efeitos irresist\u00edveis de \u2018tremolo\u2019 que nem os pr\u00f3prios verdureiros gringos n\u00e3o saberiam imitar.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vem o Ab\u00edlio \u2013 diziam todos.<\/p>\n<p>Parecia cruzar a pra\u00e7a em todas as dire\u00e7\u00f5es, acompanhado pelo seu preg\u00e3o como um cavaleiro de Wagner pelo motivo inconfund\u00edvel que anuncia sua entrada em cena.<\/p>\n<p>O grito do negro Ab\u00edlio, o baleiro mais popular da cidade, era um foguete de l\u00e1grimas: come\u00e7ando num registro baixo \u2013 <em>bala<\/em> \u2013 subia de repente a uma nota muito alta de tenor \u2013 <em>de mel<\/em> \u2013 para terminar, afinal, j\u00e1 em alturas inacess\u00edveis, num agud\u00edssimo \u2013 <em>de paaau<\/em> \u2013 que perfurava os ouvidos e lhe valeu a consagra\u00e7\u00e3o de virtuose dos baleiros.<\/p>\n<p>Corr\u00edamos a ver o leil\u00e3o. O enorme coreto apresentava um aspecto de tenda de feira, e era tal a profus\u00e3o de coisas disparatadas em oferta, que os leiloeiros tomavam ares de prestidigitadores ou transformistas, contratados pela Irmandade do Divino, para as fun\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo fant\u00e1sticas e pr\u00e1ticas do quem d\u00e1 mais.<\/p>\n<p>&#8211; Vejam, senhores, apreciam os distintos patr\u00edcios que lindas fronhas bordadas para casal! Quanto d\u00e3o por elas?<\/p>\n<p>&#8211; Olha a cara de massa doce com olho de feij\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho dois mil r\u00e9is pela caixinha de surpresas&#8230; vai bater!<\/p>\n<p>&#8211; Quinhent\u00e3o o pote de melado, \u00e9 o meladinho de Santo Ant\u00f4nio da Patrulha&#8230; quinhentos r\u00e9is e \u00e9 de gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Em volta do coreto, que parecia um palco, arrematantes e curiosos acompanhavam o espet\u00e1culo, rebatendo muitas vezes com bromas e dichotes o preg\u00e3o do leiloeiro.<\/p>\n<p>De quando em quando, por cima do mar de cabe\u00e7as, aparecia uma cana alta e ainda enfolhada, que o arrematante carregava em triunfo.<\/p>\n<p>Antes de terminar a segunda sess\u00e3o do cinema, grupos de espectadores come\u00e7avam a caminhar no rumo da Bailante e do Teatro S\u00e3o Pedro; cortava o c\u00e9u de repente o aviso do primeiro foguete de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Eram enormes, cabe\u00e7udos, subiam devagar, furando o c\u00e9u num esfor\u00e7o roncado, que parecia intermin\u00e1vel. Depois de um leve estalo, abriam l\u00e1 no alto uma chuva de ouro, ou um jorro de l\u00e1grimas de prata, que escorriam pela face escura da noite; \u00e0s vezes, do centro do jorro luminoso, pingava uma gota verde, brotava uma l\u00e1grima encarnada, e em todos os olhos parecia refletir-se o mesmo deslumbramento, e o mesmo \u00f3 arredondava as bocas.<\/p>\n<p>Acontecia tamb\u00e9m que o foguete, depois de riscar uma reta de fogo, tomando novo impulso, levemente inflectido, recome\u00e7ava a devorar o espa\u00e7o, subia, subia como se quisesse furar o teto do c\u00e9u; acabava deixando cair um assobio prolongado e fieiras de estrelas, presas a um fio invis\u00edvel, peda\u00e7os de um colar de vaga-lumes.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia da queima dos fogos, pregados em postes, obedecia a uma ordem ritual. Antes de acender a pombinha, considerada o fim da festa, era de uso atear fogo no casal de pretos, estranhas figuras de bra\u00e7os abertos, como espantalhos, bonecos grotescos que me enchiam de admira\u00e7\u00e3o e medo. Ele, seu Jo\u00e3o das cal\u00e7as brancas, trazia dentro da cabe\u00e7orra de papel\u00e3o, em vez da mioleira, uma bomba de arrebentar os t\u00edmpanos; ela, Maria Maluca, desandava a dan\u00e7ar em giros vertiginosos, largando estouros, traques e busca-p\u00e9s por baixo da saia inflamada.<\/p>\n<p>Mas o tremendo estrondo acabava de abalar a pra\u00e7a, vibrando ao longe, sobre os telhados pacatos de clarab\u00f3ia e as \u00e1guas adormecidas do Gua\u00edba. Crescia a seguir o sil\u00eancio profundo de expectativa. Chegara a vez da apoteose ao Divino.<\/p>\n<p>A mecha da pombinha chispava ao longo de um fio comprido e, atingindo o centro da arma\u00e7\u00e3o, estralejava um momento nas cordas de p\u00f3lvora; enovelavam-se grossas nuvens de fuma\u00e7a, avermelhada pelos clar\u00f5es intermitentes; e enfim, despedida triste, mas ainda cheia de promessas, a imagem da pomba sagrada, de asas abertas, palpitava um breve instante, como feita de l\u00ednguas de fogo, para apagar-se a pouco e pouco, desmanchada em pingos de luz morti\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Era o fim.<\/p>\n<p>Uma incerteza, primeiro, um vaiv\u00e9m hesitante por entre os fogos queimados, que j\u00e1 n\u00e3o fumegavam; um novo sil\u00eancio, enquanto as bandas desciam dos coretos e, entrando em forma, aguardavam a ordem de marcha, rumo do quartel.<\/p>\n<p>No \u2018redondo\u2019, os namorados procuravam resistir \u00e0 debandada pr\u00f3xima, inventando pretextos para mais umas voltas, queimando o \u00faltimo cartucho, o das mentiras:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda tem o leil\u00e3o! E a b\u00ean\u00e7\u00e3o na capela&#8230;<\/p>\n<p>Algum rapaz mais espero dirigia-se aos companheiros em voz bem alta, cheia de inten\u00e7\u00f5es, para que as tias ouvissem, e ao menos um derradeiro pretexto e um recado extremo ainda perdurasse na recorda\u00e7\u00e3o das vigiadas:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas v\u00e3o perder o resto da festa&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez era o fim, e talvez aquele fim, sem contar a espera, fosse o melhor da festa, principalmente quando se acaba o \u00faltimo dia do Divino e s\u00f3 restava o rem\u00e9dio de esperar pela entrada do outro inverno. O melhor da festa era esperar por ela.<\/p>\n<p>Agora, claros e mais claros no meio do povo.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o crua apenas servia para mostrar com dureza implac\u00e1vel os bancos abandonados, a relva pisoteada, os grupos que reflu\u00edam para os altos da Rua da Igreja, em caminho da Cidade Baixa, ou abalavam na dire\u00e7\u00e3o da Ladeira e da Rua da Ponte.<\/p>\n<p>Toda uma onda de retirantes inundava as ruas laterais, raspando sola no rude cal\u00e7amento, num passo cada vez mais picado por causa do frio. Iam meio adormecidos, apesar da pressa friorenta; combatiam a dorm\u00eancia, mas o cansa\u00e7o trepava pelas pernas. Carregados na onda, os baleiros continuavam a apregoar a mercadoria \u2013 \u00f3ia as balas! \u2013 ainda com vago palpite de proveito.<\/p>\n<p>Rompiam as bandas na marcha final, por despedida; e havia assim outro clangor nos instrumentos, o eco parecia subir pelas fachadas sombrias, o ritmo, t\u00e3o alegre no come\u00e7o, pautado agora por um movimento de retirada r\u00e1pida, a passo cadenciado, tomava um sabor de tristeza, de falsa anima\u00e7\u00e3o, de m\u00fasica tocada sem prop\u00f3sito e apenas para espantar o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Longos cord\u00f5es de bicos de luz, amarelecidos e murchos, depois de agoniar algum tempo, sumiam-se lentamente na sombra que avan\u00e7ava sob as \u00e1rvores da pra\u00e7a, coberta de pap\u00e9is amarrotados, cartuchos vazios de bala, cascas de pinh\u00e3o, restos de farnel.<\/p>\n<p>Tendeiros sentados \u00e0 beira da cal\u00e7ada recontavam os cobres do lucro ou, desmontando tabuleiros e tendas, comentavam os sucessos da noite, com palavras desmanchadas em bocejos.<\/p>\n<p>No coreto grande, os leiloeiros arrecadavam as sobras do leil\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda havia r\u00e9stias luminosas em algumas sacadas fronteiras ao largo; de vez em quando, algu\u00e9m tornava a debru\u00e7ar-se, para olhar uma rua deserta, como o pano do cinema alvejando ao fundo, levemente enfunado pelo vento.<\/p>\n<p>De muito longe, ainda chegavam na pra\u00e7a trechos truncados do \u2018Cerco de Bag\u00e9\u2019 ou de algum dobrado marcial transposto em surdina quase impercept\u00edvel pela dist\u00e2ncia cada vez maior; era como se os m\u00fasicos, fantasmas da recorda\u00e7\u00e3o, apenas reproduzissem o eco interior da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Depois, na pureza do sil\u00eancio, as \u00e1rvores recuperavam seu sussurro interrompido.<\/p>\n<p><em>E onde est\u00e3o os namorados?<\/em><\/p>\n<p><em>Acabou-se o que era doce.<\/em><\/p>\n<p><em>Esquinas na sombra,<\/em><\/p>\n<p><em>Janelas fechadas&#8230;<\/em>\u201d<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MEYER, Augusto. <em>Segredos de inf\u00e2ncia; No tempo da flor<\/em>. Porto Alegre: IEL\/Editora da Universidade\/UFRGS, 1996. P. 60-68. A grafia original foi mantida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Como eram conhecidos os policiais municipais \u00e0 \u00e9poca, em fun\u00e7\u00e3o da cor da sua farda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De origem a\u00e7oriana, a devo\u00e7\u00e3o ao Divino Esp\u00edrito Santo deu origem \u00e0 irmandade de mesmo nome em Porto Alegre, onde comemorava-se, entre maio e junho, a que talvez tenha sido a festa religiosa mais popular da cidade at\u00e9 fins do s\u00e9culo XIX. A sede da Irmandade, uma graciosa capela em estilo g\u00f3tico que ficava bem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5572,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[352],"tags":[362,507,508,505,506,99],"class_list":["post-5570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-costumes","tag-augustomeyer","tag-festadodivino","tag-festasreligiosas","tag-francispelichek","tag-irmandadedodivino","tag-capeladodivino","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5570"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5575,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5570\/revisions\/5575"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}