{"id":5496,"date":"2023-06-29T09:00:48","date_gmt":"2023-06-29T12:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5496"},"modified":"2023-06-29T18:49:09","modified_gmt":"2023-06-29T21:49:09","slug":"o-antro-de-echu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/o-antro-de-echu\/","title":{"rendered":"&#8220;O antro de &#8216;Ech\u00fa'&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o raro os jornais promoviam a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s religi\u00f5es afro-brasileiras nas cidades, e com Porto Alegre n\u00e3o foi diferente. Ainda que com forte presen\u00e7a desde os primeiros tempos da forma\u00e7\u00e3o da cidade, conforme testemunham diversos cronistas, as atividades, costumes e religiosidades pr\u00f3prias da sua popula\u00e7\u00e3o negra foi continuamente alvo de persegui\u00e7\u00f5es policiais. A reportagem do <em>Correio do Povo <\/em>abaixo \u00e9 reveladora disso: al\u00e9m da periferiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre e negra, tamb\u00e9m fica expl\u00edcito o olhar estigmatizante para as suas pr\u00e1ticas e religiosidade. Como em diversos outros casos, o discurso dos rep\u00f3rteres visa apontar os<a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-praga-do-batuque-em-porto-alegre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> inconvenientes da sua presen\u00e7a no contexto urbano<\/a>, relatando com indisfar\u00e7ado descuido os detalhes da cerim\u00f4nia e apontando o seu car\u00e1ter \u2018primitivo\u2019, t\u00edpico de uma vis\u00e3o eurocentrada.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que o casebre caracterizado como o perigoso \u2018antro de Ech\u00fa\u2019 que ilustra a reportagem seja um pequeno barraco de t\u00e1buas, t\u00edpico das \u00e1reas mais miser\u00e1veis da cidade.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<h2><strong>Como se explora a credulidade do povo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h2>\n<h3>Mystificadores de toda sorte&#8230; \u2013 Cartomantes etc. \u2013 Os \u2018batuques\u2019, praga que infesta os arredores da cidade \u2013 Uma interessante reportagem do \u2018Correio do Povo\u2019 \u2013 As \u2018moambas\u2019 e suas praticas \u2013 Os \u2018batuqueiros\u2019 e a sua ousadia<\/h3>\n<p>Ha tempos, j\u00e1, que o \u2018Correio do Povo\u2019, em successivas reportagens, vem tratado dos innumeros centros de explora\u00e7\u00e3o da credulidade do povo.<\/p>\n<p>Tendas de cartomantes chiromantes<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, casas onde se realisam \u2018batuques\u2019 e outros ritos de feiti\u00e7aria, e todos os f\u00f3cos de propaga\u00e7\u00e3o de bruxaria, trazem em constante agita\u00e7\u00e3o os moradores das ruas onde est\u00e3o localisados, dando logar a innumeras queixas.<\/p>\n<p>As autoridades, entretanto, nada t\u00eam feito, ao que se sabe, para livrar o povo dos espertalh\u00f5es que fazem meio de vida da \u2018magia negra\u2019, mystificando os incautos que lhes caem nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tudo, por\u00e9m. Em virtude da impunidade em que taes individuos vivem, largamente compensados pelo producto rendoso de suas vigarices, crescem, dia a dia, em audacia, n\u00e3o procurando j\u00e1 esconder suas praticas de \u2018moambeiros\u2019 e realisando estas aos olhos da policia.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Por isso, Porto Alegre, e, especialmente os seus arrabaldes acham-se infestados de casas de \u2018batuques\u2019 que v\u00e3o se alastrando cada dia com maior intensidade.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Um escandalo como se v\u00ea. Haja vistas \u00e1s j\u00e1 celebres casas denominadas \u2018M\u00e3e Emilia\u2019, \u2018Antoninho\u2019 e \u2018Tubino\u2019, onde se pratica toda sorte de feiti\u00e7arias, desde o \u2018despacho\u2019 at\u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o a \u2018Ech\u00fa\u2019.<\/p>\n<p>Esses antros, que se acham localisados no 2\u00ba districto<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> desta capital, trazem a visinhan\u00e7a em constante sobresalto com algazarras e disturbios, originando isso, como dissemos, innumeras reclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hontem, ainda, uma queixa nos foi trazida contra uma destas casas, a qual funcciona no predio n. 597 da rua Cancio Gomes, na Floresta.<\/p>\n<p>Disseram-nos os queixosos que, em virtude da algazarra infernal que ali se verifica todas as noites, a visinhan\u00e7a n\u00e3o tem soc\u00eago, vendo-se impossibilitada de dormir, tanto que duas familias j\u00e1 se mudaram do local, por n\u00e3o poderem supportar o barulho.<\/p>\n<p>&#8211; Accresce a isso, &#8211; ajuntaram os queixosos, &#8211; que nas portas de suas casas, apparecem constantemente varios \u2018despachos\u2019, o que lhes \u00e9 profundamente desagradavel.<\/p>\n<p>Procurando syndicar em torno do facto, a reportagem do \u2018Correio do Povo\u2019 dirigiu-se para o local onde funcciona o antro de \u2018Ech\u00fa\u2019.<\/p>\n<p>Realmente, \u00e1 rua Cancio Gomes, fomos encontrar um casebre em cuja porta fronteira se lia um cartaz com o seguinte dizer: \u2018Cartomante\u2019.<\/p>\n<p>Procuramos informar-nos pelas immedia\u00e7\u00f5es sobre a natureza dos habitantes daquelle casebre.<\/p>\n<p>Conseguimos saber, ent\u00e3o, o nome do feiticeiro, apellidado \u2018Manoelsinho\u2019, de grande influencia na zona pelos seus \u2018passes magneticos\u2019.<\/p>\n<p>Ainda no local, tivemos opportunidade de ouvir um \u2018batuqueiro\u2019 que nos poz a par de interessantes trabalhos do rito da \u2018moamba\u2019 que ali se realisa.<\/p>\n<blockquote><p>O novi\u00e7o que ingressa em casas de tal indole, s\u00f3 p\u00f3de fazer apresentado por um \u2018filho da casa\u2019.<\/p>\n<p>Recebe, ent\u00e3o, um titulo que p\u00f3de ser o de \u2018Xang\u00f4\u2019, \u2018Edun\u2019, \u2018Bar\u00e1\u2019, \u2018Demanj\u00e1\u2019, \u2018Areim\u2019 e tantos, conforme o \u2018santo\u2019 que o patrocina.<\/p><\/blockquote>\n<p>Aberta a \u2018sess\u00e3o\u2019, a cerimonia tem logar com as dan\u00e7as.<\/p>\n<p>Lan\u00e7am-se os \u2018buzos\u2019 (caramujos que s\u00e3o apanhados no \u2018bej\u00e9\u2019 (\u2018altar santo\u2019).<\/p>\n<p>Sabe-se, ent\u00e3o, quaes as offerendas que o \u2018iniciado\u2019 dever\u00e1 trazer dentro de uma quinzena ao \u2018Pae santo\u2019 e que ser\u00e3o gallinhas pretas, amarellas, carij\u00f3s, cabritos ou sete bananas.<\/p>\n<p>Interessante, como se v\u00ea.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ouvirmos estas declara\u00e7\u00f5es, proseguimos em nossas pesquizas.<\/p>\n<p>Queriamos fazer uma visita ao predio n. 597 da rua Cancio Gomes.<\/p>\n<p>Alguem, entretanto, foi avisar ao \u2018batuqueiro\u2019 dos nossos propositos.<\/p>\n<p>Sabedor de que eramos reporters do \u2018Correio do Povo\u2019, \u2018Manoelsinho\u2019 com mais dois \u2018irm\u00e3os\u2019 foi estacionar na frente do predio, chegando mesmo a amea\u00e7ar-nos.<\/p>\n<p>O nosso reporter photographico, por\u00e9m, n\u00e3o se intimidou, conseguindo depois de algumas peripecias, bater uma chapa que claramente demonstra a que ponto chegou a ousadia dos exploradores da credulidade publica.<\/p>\n<p>\u00c9 digno de destaque, o facto de serem encontrados, quasi diariamente, no coradouro daquelle antro de explora\u00e7\u00e3o, fardamentos de guardas civis\u201d.<\/p>\n<p><em>Autoria desconhecida.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_5497\" aria-describedby=\"caption-attachment-5497\" style=\"width: 483px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-5497\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-483x1024.jpg\" alt=\"&quot;Onde se explora...&quot; Correio do Povo, 24\/09\/1930. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho.\" width=\"483\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-483x1024.jpg 483w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-142x300.jpg 142w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-768x1627.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-725x1536.jpg 725w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-966x2048.jpg 966w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-5x10.jpg 5w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-432x915.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-396x839.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-660x1399.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w-104x220.jpg 104w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/CP_AHMMV_24-09-1930_Onde-se-explora-a-credulidade-do-povo_w.jpg 1050w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5497\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Onde se explora&#8230;&#8221; Correio do Povo, 24\/09\/1930. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho.<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Correio do Povo<\/em>, 24\/09\/1930. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho. A grafia original foi mantida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Na grafia atual, <em>quiromantes<\/em>, que fazem leitura de m\u00e3os.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Atualmente, a regi\u00e3o do bairro Floresta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o raro os jornais promoviam a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s religi\u00f5es afro-brasileiras nas cidades, e com Porto Alegre n\u00e3o foi diferente. 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