{"id":5227,"date":"2023-08-16T19:00:05","date_gmt":"2023-08-16T22:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=5227"},"modified":"2023-08-17T19:37:29","modified_gmt":"2023-08-17T22:37:29","slug":"cenas-de-cabare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/cenas-de-cabare\/","title":{"rendered":"Cenas de cabar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Os cabar\u00e9s \u2013 t\u00edpicos lugares de sociabilidades masculinas e que caracterizam a modernidade urbana \u2013 eram, sem d\u00favida, frequentados pelos poderosos coron\u00e9is das est\u00e2ncias e da pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m por profissionais liberais como artistas, jornalistas e poetas. Nestas \u00faltimas duas categorias se enquadrava Theodemiro Tostes (1903-1986)&nbsp; que ilustra, nesta cr\u00f4nica, diversas cenas e personagens do quotidiano de um cabar\u00e9: o velho coronel rico que se desespera com o disp\u00eandio nas bebidas e na companhia, o rapaz bonito mas ing\u00eanuo que perde a companhia da prostituta para o homem mais rico (e n\u00e3o t\u00e3o bonito), as <em>francesas<\/em>, o t\u00e9dio.<\/p>\n<p>Todos esses personagens e cenas compunham o cen\u00e1rio urbano noturno moderno<span style=\"text-decoration: line-through;\">,<\/span> em que os amores e o dinheiro se poderiam ganhar no jogo<span style=\"text-decoration: line-through;\">,<\/span> e onde a ilumina\u00e7\u00e3o el\u00e9trica garantia noites sem sono a quem quisesse. A cidade n\u00e3o parava, era internacional na figura de suas <em>francesas<\/em><span style=\"text-decoration: line-through;\">,<\/span> que, como sugere \u00c9rico Ver\u00edssimo<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, educavam com suas maneiras europeias os rudes por\u00e9m ricos estancieiros que visitavam a capital \u2013 e seus bord\u00e9is de luxo.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica <em>Cabar\u00e9<\/em> foi publicada originalmente no volume <em>Bazar<\/em> pela Livraria do Globo, em 1931.<\/p>\n<h2><strong>\u201cCabar\u00e9<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/strong><\/h2>\n<p>A champanha explodiu na cara do coronel.<\/p>\n<p>&#8211; <em>Mon p\u2019tit chou<\/em>, mia a madama, felinamente l\u00e2nguida, e faz cosquinhas amorosas na papada do velho.<\/p>\n<p>O coronel se abstraiu no solil\u00f3quio interior dos pagantes. A ros\u00e1cea das l\u00e2mpadas no teto abre uma festa de reflexos no espelho do seu cr\u00e2nio liso. E ele olha as garrafas perfiladas com o olhar de Napole\u00e3o diante das tropas de Bl\u00fccher.<\/p>\n<p>Cada garrafa explode, como um obus en\u00e9rgico, na alma do coronel.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4122\" aria-describedby=\"caption-attachment-4122\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4122\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel.jpg\" alt=\"a_mascara_15121924_stelius_o_coronel\" width=\"900\" height=\"619\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel.jpg 900w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-768x528.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-10x7.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-432x297.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-396x272.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-660x454.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/a_mascara_15121924_stelius_o_coronel-320x220.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4122\" class=\"wp-caption-text\"><em>O Coronel<\/em>&#8230; Desenho de Stelius (Jos\u00e9 Rasgado Filho) na revista <em>A M\u00e1scara<\/em>, 15\/12\/1924. Hemeroteca do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>O rapazola milongueiro, gelatinosamente, se derrete num tango.<\/p>\n<p>Cumparsita.<\/p>\n<p>A voz dele se alonga na banalidade melosa da can\u00e7\u00e3o. E a sala toda bebe a garapa musical na mais a\u00e7ucarada das emo\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>O rapaz milongueiro parece ter guardado o cora\u00e7\u00e3o entre as ancas. No reboleio do corpo a gente sente que ele vibra.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>O mo\u00e7o louro fez um gesto. Ela veio ondulando o vestido negro, perfeitamente Pola Negri. Sentou-se \u00e0 mesa e, como ele insistisse, pediu uma Guaran\u00e1. Foi a primeira decep\u00e7\u00e3o daquela noite malfadada.<\/p>\n<p>Depois, a cretinice liter\u00e1ria:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? Nunca vi dois olhos t\u00e3o estranhos como os seus. Voc\u00ea tem um jeitinho arisco de gazela. Se eu ilustrasse o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, voc\u00ea seria a Sulamita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem?<\/p>\n<p>&#8211; A Sulamita. Uma senhora que esgotou o repert\u00f3rio de imagens po\u00e9ticas do velho rei Salom\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ela exibiu, escandalosamente, um dentinho de ouro e gracejou:<\/p>\n<p>&#8211; Comigo n\u00e3o, Salom\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O rapaz ficou l\u00edvido. N\u00e3o tanto pela frase como pelo dente de ouro. Compreendeu.<\/p>\n<p>&#8211; Pensei que voc\u00ea fosse uma mulher diferente das outras. Me enganei.<\/p>\n<p>Ela bisou a exibi\u00e7\u00e3o do dente:<\/p>\n<p>&#8211; Diferente? Ora e essa! Por que motivo eu seria diferente das outras? Que besteira! Voc\u00ea queria que eu fizesse f\u00e9 com a sua carinha de gigola e desprezasse o coronel? Queria? Pois eu lhe digo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Ningu\u00e9m vive de amor, nem de frase bonita. A dona da pens\u00e3o s\u00f3 acredita nos d\u00f3lares. E voc\u00ea, meu amigo, \u00e9 do g\u00eanero Guaran\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que quer dizer com isto?<\/p>\n<p>&#8211; Guaran\u00e1&#8230; uma mulher que se senta com voc\u00ea n\u00e3o pode desejar mais do que Guaran\u00e1. Ao passo que aquele gordo que est\u00e1 ali \u00e9 do g\u00eanero champanha. Uma mulher com ele defende a casa e o resto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O resto?&#8230; Pode ser&#8230; Em todo o caso, se voc\u00ea aceita uma champanha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Gracias. Guarde o dinheiro e n\u00e3o me queira mal. Champanha, aqui no caso, n\u00e3o \u00e9 bebida, \u00e9 s\u00edmbolo. E voc\u00ea \u00e9 demasiadamente poeta para pertencer ao g\u00eanero daquele senhor gordo.<\/p>\n<p>Neste caso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ciao. Talvez uma noite em que n\u00e3o haja champanha, meu amigo.<\/p>\n<p>E a Sulamita, mansamente, deu o fora naquele ing\u00eanuo Salom\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>O homem-plat\u00e9ia encorujou num canto a sua melancolia. Cisca no ch\u00e3o do cabar\u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o compensadora para aquela noite de chuva. Francesinhas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> de climas diferentes fazem punguismo em cima das ingenuidades coronel\u00edcias. Gastando as suas reservas de palavras carinhosas para a anestesia das facadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Cabar\u00e9. H\u00e1 sujeitos que gastam um dinheir\u00e3o para aborrecer-se coletivamente. Os homens estabelecem concentra\u00e7\u00f5es de t\u00e9dio para chupar o narguil\u00e9 do quotidianismo irremedi\u00e1vel. Vitrinazinha de ing\u00eanuas libertinagens. De byronismos provincianos. E de esplins<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> bem vestidos.<\/p>\n<p>Cabar\u00e9. Laborat\u00f3rio experimental para uso dos psic\u00f3logos desocupados\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> VERISSIMO, Erico. <em>O tempo e o vento, parte III: O arquip\u00e9lago<\/em>, vol. 1. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2004. P. 150.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> TOSTES, Theodemiro. <em>Bazar e outras cr\u00f4nicas<\/em>. Porto Alegre: Funda\u00e7\u00e3o Paulo do Couto e Silva: IEL, 1994. P. 185-187.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Provavelmente o autor se refere \u00e0s mulheres de diversas nacionalidades europeias que eram traficadas para as Am\u00e9ricas como francesas afim de trabalharem como prostitutas nos cabar\u00e9s.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Do ingl\u00eas <em>spleen<\/em>, denotando sentimento de melancolia, t\u00e9dio, enfado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os cabar\u00e9s \u2013 t\u00edpicos lugares de sociabilidades masculinas e que caracterizam a modernidade urbana \u2013 eram, sem d\u00favida, frequentados pelos poderosos coron\u00e9is das est\u00e2ncias e da pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m por profissionais liberais como artistas, jornalistas e poetas. 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