{"id":4613,"date":"2021-01-27T23:05:15","date_gmt":"2021-01-28T02:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=4613"},"modified":"2021-05-25T11:46:31","modified_gmt":"2021-05-25T14:46:31","slug":"um-assomo-de-paixao-e-desespero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/um-assomo-de-paixao-e-desespero\/","title":{"rendered":"&#8220;Um assomo de paix\u00e3o e desespero&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Esta dram\u00e1tica reportagem do <em>Correio do Povo <\/em>de 8 de janeiro de 1929 entrela\u00e7a espa\u00e7os, sociabilidades urbanas e viol\u00eancia de g\u00eanero de forma minuciosa. O jornal traz a hist\u00f3ria conturbada do fim do relacionamento dos jovens Octac\u00edlio e Leda, n\u00e3o aceito pelo primeiro. Ela, descrita como uma mo\u00e7a de vida \u201cairada e s\u00f3 pensava em divertimentos\u201d, \u00e9 provavelmente uma prostituta que trabalha em clubes noturnos. Ele, um rapaz \u201cdedicado e trabalhador\u201d que vem a Porto Alegre para reencontr\u00e1-la e emprega-se como gar\u00e7om no Restaurante Naval, um dos mais tradicionais ainda em funcionamento no Mercado P\u00fablico.<\/p>\n<p>Ela, uma residente \u00e0 \u201cpens\u00e3o de artistas denominada <em>Aurelia<\/em>\u201d; ele \u201cresidia no anexo do Hotel Bianchi\u201d, na atual rua 7 de Setembro. Ambos confrontam-se \u00e0 hora do <em>footing<\/em>, ou seja, do passeio a p\u00e9 ao final da tarde ao longo da rua da Praia ou dos Andradas, mais precisamente no Largo dos Medeiros. Este percurso no espa\u00e7o urbano por si s\u00f3 j\u00e1 indica como as ruas \u201crespeit\u00e1veis\u201d de Porto Alegre eram pr\u00f3ximas das ruas \u201cde m\u00e1 fama\u201d, o que muito preocupava as autoridades da \u00e9poca. De acordo com Fabiane B. Luckow,<\/p>\n<p><em>\u201cA Rua da Praia representa a cidade familiar, trabalhadora, divertida, enquanto a rua Andrade Neves, antiga Rua Nova, ficaria conhecida como o lugar dos perdidos, do divertimento mundano, do jogo, do v\u00edcio e da prostitui\u00e7\u00e3o. Ambas efervescentes, agitadas, modernas.<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto a primeira desfrutava de uma boa fama, sendo o local onde a boa sociedade em geral ia passear ao final do dia, onde as casas de com\u00e9rcio respeitadas estavam sediadas, a Rua Nova era descrita como de p\u00e9ssima forma, por conta das diversas pens\u00f5es e clubes noturnos que l\u00e1 funcionavam. \u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/em><\/p>\n<p>Ser\u00e1 justamente na rua General C\u00e2mara, que conecta a rua da Praia \u00e0 rua Andrade Neves, o palco do que j\u00e1 foi muito conhecido como \u201ccrime passional\u201d, e que hoje pode ser caracterizado como uma tentativa de feminic\u00eddio, pois o g\u00eanero da v\u00edtima determina a viol\u00eancia sofrida. E como n\u00e3o era incomum homens andarem armados pelas ruas, Octacilio, inconformado com o desinteresse de Leda, n\u00e3o hesitou em tentar mat\u00e1-la, tentando cometer suic\u00eddio em seguida.<\/p>\n<p>A Leda, s\u00f3 restou lamentar:<\/p>\n<blockquote><p>Que gente essa que nem siquer me acudia para impedir que elle me atirasse.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h2>\u201c<strong>Em plena rua General Camara, um homem f\u00e9re a ex-amante e estoura a cabe\u00e7a<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><strong>Um assomo de paix\u00e3o e desespero foi a causa do delicto<\/strong><\/p>\n<p><strong>A dramatica occorrencia verificou-se \u00e1s 17h de hontem, a poucos passos da rua dos Andradas, que regorgitava<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u2018Fui trahido!\u2019 Assim justificou o seu crime o tresloucado ao ser interrogado pela nossa reportagem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A violenta scena de sangue impressionou vivamente a nossa principal arteria<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gravissimo \u00e9 o estado do desvairado, ao passo que o da infeliz era, hoje, \u00e1s primeiras horas, desesperador<\/strong><\/p>\n<p>Cinco horas.<\/p>\n<p>Hora do apperitivo.<\/p>\n<p>A rua da Praia regorgita.<\/p>\n<p>Nos caf\u00e9s, cheios, as phrases dos tangos e dos shimmyes se mistura \u00e1 algazarra dos frequentadores e no ru\u00eddo das chicaras e ta\u00e7as.<\/p>\n<p>Elle, que ha muito vem amargurando os longos dias com a id\u00e9a, a que n\u00e3o se habitua, daquelle rompimento, v\u00ea-a, de subito.<\/p>\n<p>Num relampago de sangue, fuzila-lhe no cerebro aquelle mesmo desejo.<\/p>\n<p>Procura, com a m\u00e3o crispada, o rev\u00f3lver que traz occulto. Preme-lhe a coronha.<\/p>\n<p>E ella indifferente, segue o seu caminho, sem imaginar que a morte a espreita.<\/p>\n<p>Subito, sem poder conter os seus nervos enfermos, o olhar desvairado, cede a impuls\u00e3o homicida. Investe-a. Alveja-a. Ella d\u00e1, horrorizada, ainda alguns passos, para tombar desamparada, pesadamente.<\/p>\n<p>Com o estampido, acorrem curiosos.<\/p>\n<p>E ali mesmo, em plena rua, a poucos passos da sua victima que se esvae em sangue e geme, diante do estupor de toda gente, elle leva o cano do rev\u00f3lver contra a tempora direita e estoura a cabe\u00e7a com uma bala.<\/p>\n<p>Os que a assistiram n\u00e3o poder\u00e3o, por certo, esquecer o horr\u00edvel epis\u00f3dio. Um homem que em pleno cora\u00e7\u00e3o da cidade, no seu ponto mais movimentado, \u00e1 luz do dia, fere gravemente uma mulher e, depois, esphacela o craneo com um tiro, n\u00e3o \u00e9 um espectaculo vulgar.<\/p>\n<p>E porque? Que terrivel motivo teria levado aquelle homem ao gesto tresloucado?<\/p>\n<p>Um desvario passional.<\/p>\n<p>Eis em resumo, como se passou o dramatico episodio de hontem da rua general Camara e cuja circumstanciada narrativa vamos fazer a seguir:<\/p>\n<h3><strong>Os protagonistas da trag\u00e9dia<\/strong><\/h3>\n<p>Octacilio Moura e Leda Macedo, os protagonistas da tragedia de hontem, viviam maritalmente, no Rio de Janeiro, ha um anno, mais ou menos.<\/p>\n<p>Segundo informa\u00e7\u00f5es colhidas pela nossa reportagem, Octacilio nutria forte paix\u00e3o pela sua companheira, que correspondia ao amor que lhe dedicava o rapaz.<\/p>\n<p>Foi na capital da Republica que ambos se conheceram e se amaram. Mas&#8230; \u2018n\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure\u2019, e, talvez em obediencia a essa verdade, uma mudan\u00e7a brusca transtornou por completo a vida dos dois amantes, originando-se, dahi, a causa da tragica scena da tarde de hontem.<\/p>\n<p>Procurando investigar os verdadeiros motivos que levaram o tresloucado rapaz \u00e1 pr\u00e1tica desse acto de desespero, conseguiu a nossa reportagem colher preciosas informa\u00e7\u00f5es, que abaixo descrevemos.<\/p>\n<h3><strong>Enganando o amante<\/strong><\/h3>\n<p>Leda Macedo, ao que parece, aborreceu-se de viver com Octacilio. N\u00e3o querendo, por\u00e9m, contar ao seu amante tudo o que sentia, resolveu usar da arma da mentira para deix\u00e1-lo \u00e1 margem de sua existencia.<\/p>\n<p>Chamou Octacilio e lhe fez v\u00ear que tinha absoluta necessidade de embarcar para Porto Alegre. Estava com saudades de seus parentes e, por isso, viria at\u00e9 esta capital.<\/p>\n<p>Octacilio relutou; tudo, por\u00e9m em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Leda mantinha-se firme no seu proposito de seguir viagem.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o desiludir o pobre rapaz, que temia que ella n\u00e3o mais volvesse ao Rio, simulou que em Porto Alegre ficaria por pouco tempo.<\/p>\n<p>Octacilio n\u00e3o se conformava ainda com a separa\u00e7\u00e3o, embora momentanea, no dizer de sua amante. Como esta continuasse em sua attitude, resolveu dar o seu consentimento.<\/p>\n<h3><strong>Rumo a Porto Alegre<\/strong><\/h3>\n<p>Finalmente, Leda Macedo embarcou para esta capital, aqui chegando em dias do mez de setembro do anno findo.<\/p>\n<p>Dada a paix\u00e3o que Octacilio nutria pela sua amante, facil \u00e9 de se imaginar o transtorno que essa separa\u00e7\u00e3o lhe causou.<\/p>\n<p>Julgando que ella passasse por necessidades, Octacilio escrevia-lhe, seguidamente.<\/p>\n<p>Tudo fazia elle por sua amante. Mandava-lhe, a meudo [?], dinheiro para o seu sustento.<\/p>\n<h3><strong>O proceder de Leda<\/strong><\/h3>\n<p>Longe de visitar seus parentes, Leda entregou-se \u00e1 vida airada.<\/p>\n<p>Conhecendo Porto Alegre, pois que aqui estivera residindo h\u00e1 muito tempo, facil lhe foi travar innumeras rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro acto de Leda quando chegou a esta capital foio de residir na pens\u00e3o de artistas denominada \u2018Aurelia\u2019, \u00e1 rua Andrade Neves n. 96.<\/p>\n<p>Os prazeres da vida attraiam a rapariga.<\/p>\n<p>Tanto de dia, como \u00e1 noite, sahia ella a divertir-se, recolhendo-se \u00e1 casa, quasi sempre, alta madrugada.<\/p>\n<p>Leda tinha forte inclina\u00e7\u00e3o pelos centros de divers\u00f5es nocturnas, onde se entregava \u00e1s dansas, vivendo cercada de innumeros rapazes.<\/p>\n<p>Os divertimentos fizeram com que Leda se esquecesse do amante, que se n\u00e3o can\u00e7ava de escrever-lhe e mandar-lhe dinheiro.<\/p>\n<h3><strong>As suspeitas do amante<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o obtendo resposta das cartas que escrevia, Octacilio principiou a suspeitar do proceder de Leda.<\/p>\n<p>Essas suspeitas vieram a confirmar-se quando Octacilio recebue [?] uma carta, por intermedio da qual era informado de tudo o que se passava.<\/p>\n<p>Doido de ciume e cego de colera, resolveu embarcar.<\/p>\n<p>A sua inten\u00e7\u00e3o era a de trazer novamente Leda para a sua companhia.<\/p>\n<h3><strong>Os primeiros passos<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o havia outro remedio sin\u00e3o o de embarcar para esta capital.<\/p>\n<p>Mas, antes de tomar definitivamente esta resolu\u00e7\u00e3o, queria certificar-se da verdade.<\/p>\n<p>Para isso expediu dois telegrammas para esta capital, que abaixo transcrevemos e que foram encontrados num movel do quarto de Leda.<\/p>\n<p>Esses despachos continham os seguintes dizeres:<\/p>\n<p>\u2018Rio \u2013 Madame Olga Alda. Hotel Lagache, quarto 404, Porto Alegre \u2013 A ordem para o Banco Pelotense foi expedida a 11 do corrente. Mande direc\u00e7\u00e3o certa. Aguarde carta. Saudades. \u2013 (a.) Octacilio\u2019.<\/p>\n<p>Esse telegramma trazia data de 30 de outubro do anno passado.<\/p>\n<p>A 19 de novembro, tambem do anno passado, expedia elle o outro despacho, assim concebido:<\/p>\n<p>\u2018Pelotas, 19 \u2013 Olga Alda \u2013 Chego a vinte pelo \u2018Ripper\u2019 \u2013 (a.) Octacilio\u2019.<\/p>\n<h3><strong>A odyss\u00e9ia de Octacilio<\/strong><\/h3>\n<p>Como promettera em seu ultimo telegramma, Octacilio Moura aqui chegava a vinde de novembro ultimo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou, dahi, ent\u00e3o, a odyss\u00e9ia do infeliz amante.<\/p>\n<p>Sem recursos de especie alguma e sem o menor conhecimento, Octacilio passava priva\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<h3><strong>Chegou a empregar-se de gar\u00e7on<\/strong><\/h3>\n<p>Era preciso, no entanto, garantir ao menos a sua subsistencia e, por isso, Octacilio Moura saiu \u00e1 procura de uma colloca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem ter, ao menos, uma carta de recommenda\u00e7\u00e3o, batia de porta em porta, solicitando servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Era, sem duvida, uma tarefa difficil.<\/p>\n<p>Um dia, afinal, tomou uma resolu\u00e7\u00e3o. Necessitava de trabalhar para ter o que comer. Por isso, qualquer emprego lhe servia.<\/p>\n<p>Entrou no Restaurante Naval, situado no Mercado e pediu trabalho.<\/p>\n<p>Falou com o proprietario da casa, expondo a sua situa\u00e7\u00e3o. Um emprego de \u2018gar\u00e7on\u2019 era o sufficiente para sustentar-se por alguns dias.<\/p>\n<p>O dono do restaurante fez-lhe v\u00ear que n\u00e3o havia vaga, por\u00e9m, uma boa palestra e a insistencia de Octacilio convenceram-no do contrario.<\/p>\n<p>Deu ao pobre mo\u00e7o o logar de \u2018gar\u00e7on\u2019.<\/p>\n<p>Octacilio Moura, entretanto, n\u00e3o entendia nada do officio. Esfor\u00e7ava-se, comtudo, em berm servir a freguezia e retribuir a b\u00f4a vontade que lhe dispensara o seu patr\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Relatando o seu passado<\/strong><\/h3>\n<p>Extremamente delicado e prestativo, foi facil a Octacilio grangear a estima de seu patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando diminuia o servi\u00e7o quedava-se pensativo e triste horas a fio.<\/p>\n<p>O dono do restaurante indagou do seu empregado a causa de tal aborrecimento.<\/p>\n<p>Octacilio, ap\u00f3s alguma reluctancia, contou certas pasagens da sua vida.<\/p>\n<p>Disse que para aqui tinha vindo unicamente por causa de uma mulher que amava loucamente.<\/p>\n<p>Estava bem no Rio de Janeiro \u2013 adeantou \u2013 e ali ganhava um bom ordenado como empregado no commercio.<\/p>\n<p>Mas \u2013 continuava \u2013 a mulher, que f\u00f4ra a causa de todo esse trantorno, o obrigara a passar priva\u00e7\u00f5es, a ponto de exercer uma profiss\u00e3o que desconhecia.<\/p>\n<p>Certa vez, voltou Octacilio ao emprego, visivelmente abatido e acabrunhado.<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Leda, affirmou elle ao seu patr\u00e3o, n\u00e3o me quiz receber hoje na pens\u00e3o onde reside, unicamente por ser eu \u2018gar\u00e7on\u2019.<\/p>\n<p>Depois de haver trabalhado doze dias apenas no Restaurante Naval, Octacilio despedia-se, dizendo ao seu patr\u00e3o que ia \u00e1 procura de outro emprego, afim de n\u00e3o desgostar sua ex-amante.<\/p>\n<h3><strong>N\u00e3o mais queria saber do amante<\/strong><\/h3>\n<p>O apaixonado Octacilio, entretanto, sempre procurava, na \u2018Pens\u00e3o Aurelia\u2019, pela sua ex-amante.<\/p>\n<p>Leda, no entanto, negava-se, a todo o transe, de seguir em companhia de Octacilio, que cada vez mais se tornava ciumento, mormente quando a via em companhia de outros rapazes.<\/p>\n<p>Apezar disso, por\u00e9m, n\u00e3o se can\u00e7ava de reiterar os seus pedidos para que ella voltasse a viver em sua companhia.<\/p>\n<p>Tudo em v\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>O primeiro acto de desespero<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o podendo mais supportar aquella situa\u00e7\u00e3o e com o cora\u00e7\u00e3o mesclado de dor e de odio, Octacilio come\u00e7ou a architectar o plano da vingan\u00e7a contra aquella que fizera delle um ente desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Mata-la era o seu desejo.<\/p>\n<p>E essa id\u00e9ia n\u00e3o lhe sahia da mente.<\/p>\n<p>Com esse proposito, ha uns dez dias, mais ou menos, entrou elle na \u2018Pens\u00e3o Aurelia\u2019 e, fulo de raiva, quando deparou com a amante sentada numa mesa com outras pessoas, saccou do rev\u00f3lver que trazia \u00e1 cintura.<\/p>\n<p>Teria elle eliminado desta vez Leda se n\u00e3o f\u00f4ra a interven\u00e7\u00e3o de terceiros.<\/p>\n<p>Hontem, Octacilio Moura levantou-se sedento de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c1 tarde, com esse proposito, dirigiu-se nervosamente para a rua dos Andradas.<\/p>\n<p>Sabia perfeitamente que Leda costumava fazer seus passeios diarios por ali. De facto, ella n\u00e3o tardou em apparecer.<\/p>\n<p>Vinha acompanhada de outra rapariga.<\/p>\n<p>Algumas pessoas viram-na entrar no Cinema Central.<\/p>\n<p>Os seus minutos estavam contados pelo amante, que, impaciente, esperava-a na esquina da rua General Camara, com a dos Andradas.<\/p>\n<h3><strong>Dois tiros!<\/strong><\/h3>\n<p>Ao sair do Cinema Central, Leda seguiu com sua companheira pela rua dos Andradas af\u00f3ra e, depois de percorrer algumas quadras, voltou pelo mesmo caminho.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e1 rua General Camara, salta-lhe \u00e1 frente o amante enfurecido, que j\u00e1 trazia na m\u00e3o direita um rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>A scena foi rapida, n\u00e3o dando tempo a que qualquer pessoa pudesse intervir.<\/p>\n<p>Com a m\u00e3o esquerda no peito de Leda, Octacilio levou a m\u00e3o no gatilho da arma, desfechando-lhe um tiro, \u00e1 queima-roupa.<\/p>\n<p>Acto continuo, virou elle a arma contra si, desfechando um tiro na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ambos rolaram no meio da rua por entre uma po\u00e7a de sangue.<\/p>\n<h3><strong>O alarme<\/strong><\/h3>\n<p>Houve grande confus\u00e3o entre as pessoas que transitavam pela nossa principal arteria e as que se encontravam nos caf\u00e9s.<\/p>\n<p>Todos correram pressurosos para soccorrer os feridos.<\/p>\n<p>O agente da Inspectoria de Vehiculos, Jo\u00e3o Bellomo, de servi\u00e7o nas immedia\u00e7\u00f5es foi o primeiro que acudiu, conseguindo tirar a arma, ainda fumegante, das m\u00e3os de Octacilio.<\/p>\n<p>Leda foi erguida por alguns populares e collocada numa cadeira do Caf\u00e9 Colombo.<\/p>\n<p>Sua companheira, num canto da rua cercada por populares, que a interrogavam, chorava copiosamente.<\/p>\n<p>Os drs. Miguel Tostes e Loureiro da Silva, respectivamente delegado judiciario do [1]\u00ba e sub-intendente do 3\u00ba districtos, comparecendo, logo, ao local, tomaram as providen[cias].<\/p>\n<h3><strong>Na assistencia publica<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o tardou muito em chegar o auto-ambulancia da Assistencia Publica, que transportou os feridos para o posto central.<\/p>\n<p>Ali, foram Leda e Octacilio attendidos pelo dr. Gaspar Rogerio Sarmento Leite, que teve como auxiliares os doutorandos Mario Cini, Francisco Marques Pereira e o enfermeiro Manoel Pedro.<\/p>\n<p>Octacilio Moura apresentava um ferimento por bala acima do ouvido direito, com a vista do mesmo lado completamente inutilisada.<\/p>\n<p>Leda Macedo tinha um ferimento por bala no peito, do lado direito e com orificio de sa\u00edda nas costas.<\/p>\n<p>Depois de medicados, foram ambos, em estado gravissimo, transportados para o hospital da Santa Casa.<\/p>\n<h3><strong>Salve-me, doutor!<\/strong><\/h3>\n<p>Ao dar entrada na Assistencia Publica, Leda Macedo foi collocada numa das salas de curativo, para ser examinada.<\/p>\n<p>Leda, gemendo, pedia insistentemente aos medicos para que lhe aliviassem as dores que cada vez mais lhe torturavam.<\/p>\n<p>Queria, a todo o transe, que lhe fizessem os curativos o mais depressa poss\u00edvel. Perguntava a todos se ia morrer.<\/p>\n<p>Em seguida, voltava-se para o dr. Gaspar Rogerio Sarmento Leite, dizendo-lhe: \u2018Salva-me, doutor!&#8230;\u2019<\/p>\n<p>O nosso reporter, que ali se achava perguntou-se algo sobre a tragedia.<\/p>\n<p>A pobre raparida apenas dizia:<\/p>\n<blockquote><p>&#8211; \u2018Nada lhe fiz; simplesmente por n\u00e3o querer mais viver com elle. Que gente essa que nem siquer me acudia para impedir que elle me atirasse\u2019.<\/p><\/blockquote>\n<h3><strong>Ella trahiu-me!<\/strong><\/h3>\n<p>Numa outra sala de curativos, jazia sobre a mesa Octacilio Moura.<\/p>\n<p>A cada instante, queria elle levantar-se, queixando-se de uma d\u00f4r immensa nos olhos.<\/p>\n<p>Respondeu Octacilio as perguntas que lhe foram feitas accrescentando que contava 27 annos de idade, residia no anexo do Hotel Bianchi, \u00e1 rua 7 de Setembro, n. 1.169, e que f\u00f4ra empregado no Restaurante Naval.<\/p>\n<p>A uma pergunta do nosso \u2018report\u2019, respondeu simplesmente Octacilio:<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Ella trahiu-me!&#8230;\u2019<\/p>\n<h3><strong>O estado dos feridos<\/strong><\/h3>\n<p>At\u00e9 \u00e1s primeiras horas da madrugada, continuava gravissimo o estado dos feridos.<\/p>\n<p>Na Santa Casa foi Leda Macedo operada pelo dr. Weber, auxiliado pelos drs. Wallau e Heredia, e interno Oswaldo Souto.<\/p>\n<p>Foi praticada uma laparotomia mediana exporadora, seguida de sotura do ferimento do figado, nephrectomia \u00e1 direita e estirpa\u00e7\u00e3o do rim reclamada por hemi-sec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Outras notas<\/strong><\/h3>\n<p>Leda Macedo, que na occasi\u00e3o do crime trajava um vestido de phantasia, encarnado, meias de seda e sapatos amarellos, contava 24 annos de idade.<\/p>\n<p>Segundo nos consta, residia ella, por muito tempo, nesta capital e foi amante de um rapaz, que a abandonou para casar-se.<\/p>\n<p>Dizem, tambem, ter ella dois filhinhos.<\/p>\n<p>Na \u2018Pens\u00e3o Aurelia\u2019 onde residia fomos informados ser ella muito calma e de bom comportamento.\u201d<\/p>\n<p><em>Autoria desconhecida.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_4615\" aria-describedby=\"caption-attachment-4615\" style=\"width: 463px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-4615\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-463x1024.jpg\" alt=\"Correio do Povo, 08\/01\/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre\" width=\"463\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-463x1024.jpg 463w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-136x300.jpg 136w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-768x1700.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-694x1536.jpg 694w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-925x2048.jpg 925w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-5x10.jpg 5w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-432x956.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-396x876.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-1120x2478.jpg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-660x1461.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-99x220.jpg 99w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/CP_AHMMV_08-01-1929-Em-plena-rua-Gen-C\u00e2mara_p7_w-scaled.jpg 1157w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4615\" class=\"wp-caption-text\"><em>Correio do Povo<\/em>, 08\/01\/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre.<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LUCKOW, Fabiane Behling. <em>Chanteuses e Cabar\u00e9s: performance musical como mediadora dos discursos de g\u00eanero na Porto Alegre do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/em> Porto Alegre: disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em M\u00fasica. UFRGS, 2011. P. 23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Correio do Povo<\/em>, 08\/01\/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre. A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta dram\u00e1tica reportagem do Correio do Povo de 8 de janeiro de 1929 entrela\u00e7a espa\u00e7os, sociabilidades urbanas e viol\u00eancia de g\u00eanero de forma minuciosa. O jornal traz a hist\u00f3ria conturbada do fim do relacionamento dos jovens Octac\u00edlio e Leda, n\u00e3o aceito pelo primeiro. 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