{"id":4595,"date":"2021-04-14T18:06:24","date_gmt":"2021-04-14T21:06:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=4595"},"modified":"2021-04-30T11:38:43","modified_gmt":"2021-04-30T14:38:43","slug":"porto-alegre-colonial-vai-desaparecendo-aos-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/porto-alegre-colonial-vai-desaparecendo-aos-poucos\/","title":{"rendered":"\u201cPorto Alegre colonial vai desaparecendo aos poucos\u201d"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase cem anos, Porto Alegre j\u00e1 se modernizava e j\u00e1 ambicionava mudar totalmente a sua paisagem. Contudo, ainda continha nela exemplares da arquitetura colonial portuguesa, tra\u00e7o em comum que teve com tantas outras cidades brasileiras de norte a sul.<\/p>\n<p>O testemunho do cronista Celestino Jord\u00e3o, que escreve nesta edi\u00e7\u00e3o de 1929 da <em>Revista do Globo<\/em>, d\u00e1 a entender que a \u00e2nsia por moderniza\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00e3o exigida pela imprensa e t\u00e3o diligentemente buscada pela municipalidade\u00a0 &#8211; n\u00e3o era um consenso. Havia sensibilidades que, como a dele, viam com tristeza o desaparecimento da paisagem colonial da cidade, aqui representada especialmente pelos pr\u00e9dios revestidos de azulejos.<\/p>\n<p>Afinal, quem n\u00e3o encontra conforto nas paisagens familiares? Ou talvez o cronista estivesse tamb\u00e9m saudoso de um tempo passado, vivido mais lentamente, que ficara simbolizado naqueles azulejos?&#8230;<\/p>\n<h2>\u201c<strong>Aspectos urbanos<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h2>\n<p>Porto Alegre colonial vai desaparecendo aos poucos.<\/p>\n<p>Quer dizer: a velha Porto Alegre, a Porto Alegre dos nossos paes, a Porto Alegre que \u2013 infelizmente! \u2013 muitos de n\u00f3s alcan\u00e7aram, cede passo, gradativamente, a uma cidade moderna, a uma cidade americana, igual a todas as outras cidades.<\/p>\n<p>Porto Alegre, cidade internacional&#8230;<\/p>\n<blockquote><p>Evidentemente, dentro da febre de renova\u00e7\u00e3o por que passa, nesse momento de vertigem, a face da terra, a evolu\u00e7\u00e3o da Cidade s\u00f3 nos p\u00f3de encher de orgulho.<\/p><\/blockquote>\n<p>Entretanto, n\u00e3o \u00e9 sem uma ponta de melancolia que a gente v\u00ea desapparecer, no [&#8230;] irresistivel, a Porto Alegre tradicional que h\u00e1 apenas vinte annos assemelhava a todas as cidades coloniaes do Brasil, como hoje se assemelha a todas as cidades cosmopolitas da America.<\/p>\n<h3><strong>Hontem&#8230;<\/strong><\/h3>\n<p>Hontem, os beiraes lacrimosos chorando sobre as cal\u00e7adas, nos dias frios e chuvosos de inverno, os longos fios prateados das goteiras.<\/p>\n<p>Hontem, os frades de pedra, as janellas de guilhotina, os casar\u00f5es sombrios, dentro dos quaes, os velhos habitos patriarchaes dos portugueses dos A\u00e7ores se ajustavam admiravelmente.<\/p>\n<p>Hontem, uma s\u00f3 l\u00edngua \u2013 a nossa.<\/p>\n<h3><strong>Hoje<\/strong><\/h3>\n<p>Hoje, a Cidade \u2013 Babel ascende em arranha-c\u00e9us (de seis andares&#8230;), extende, como um polvo fantastico, os seus tentaculos (a Cidade Tentacular) em todas as latitudes. E, em logar da antiga architectura quasi sombria, que denunciava a vida sabia dos nossos antepassados, que se accomodavam logo depois do ch\u00e1 das nove, surgem as construc\u00e7\u00f5es em linhas rectas, esfusiadas, reveladoras do espirito vertiginoso dos dias que correm.<\/p>\n<h3><strong>As duas cidades<\/strong><\/h3>\n<p>Quem reconhecer\u00e1, na Porto Alegre de hoje a Porto Alegre de h\u00e1 vinte annos?<\/p>\n<p>Quem, tendo se afastado da Cidade durante algum tempo, e a ella tornando agora, ser\u00e1 capaz de affirmar que \u00e9 a mesma Porto Alegre de outros tempos?<\/p>\n<h3><strong>Entretanto&#8230;<\/strong><\/h3>\n<p>Ha, entretanto, espalhados na Cidade, varios documentos que reconstituem a cidade de hontem.<\/p>\n<p>Ainda ha pouco, referimo-nos ao j\u00e1 hoje hist\u00f3rico valor de D. Diogo de Souza, nosso primeiro Governador.<\/p>\n<p>Hoje estampamos, nestas paginas, as photographias de algumas casas antigas da Cidade, cuja frente \u00e9 revestida de azulejo.<\/p>\n<p>Documento vivo e n\u00e3o devidamente apreciado daquelles tempos, esses predios, embora desfigurados pelas reformas, s\u00e3o ainda uma encantadora recorda\u00e7\u00e3o da nossa Porto Alegre tradicional, que n\u00e3o podemos v\u00ear sem um sorriso de ternura e de melancolica saudade.<\/p>\n<p>Entretanto, quantas pessoas, em Porto Alegre, teem sabido \u2018v\u00ear\u2019 essa riqueza prodigamente espalhada pela cidade pelos antigos habitantes de Porto Alegre?<\/p>\n<p>&#8211; A poesia do aranha \u2013 c\u00e9o \u00e9 empolgante \u2013 dizia-nos, n\u00e3o h\u00e1 muito um conhecido antiquario portugu\u00eas que aqui esteve com uma soberba collec\u00e7\u00e3o de tapetes da Persia, do Beluchstau, da Grecia. Mas n\u00e3o \u00e9 possivel deixar de sensibilizar-se diante destas fachadas, onde a arte portuguesa \u00e9 t\u00e3o viva. Os sr. n\u00e3o imaginam siquer o que possuem. Vi frentes de azulejos j\u00e1 mutiladas pela ancia do moderno.<\/p>\n<p>E depois de uma pausa:<\/p>\n<blockquote><p>&#8211; O moderno est\u00e1 muito bem. \u00c9 muito curioso. D\u00e1 caracter \u00e1 cidade. Mas&#8230; o colonial tambem n\u00e3o ambienta t\u00e3o singularmente certos aspectos urbanos?<\/p><\/blockquote>\n<p>Que elle era sincero naquillo que dizia, basta saber que mandou photographar as frentes que damos nestas paginas e pagou um desenhista para reproduzir, a aquarella, com a maior fidelidade, os diversos typos de azulejos empregados.<\/p>\n<p>Durante quanto tempo estiveram essas frentes de azulejos esquecidas?<\/p>\n<p>Quantas vezes, em transeunte menos prudente ter\u00e1 desejado se substituissem aquelles rectangulos da ceramica portuguesa pelo reboco do cimento armado? Ah! Porto Alegre! Minha velha Porto Alegre de hontem!\u201d<\/p>\n<p><em>Celestino Jord\u00e3o.<\/em><\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-4595 gallery-columns-2 gallery-size-medium'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"234\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-234x300.jpg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-4598\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-234x300.jpg 234w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-798x1024.jpg 798w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-768x985.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-8x10.jpg 8w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-432x554.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-396x508.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-660x847.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016-171x220.jpg 171w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p016.jpg 827w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-4598'>\n\t\t\t\tRevista do Globo, ano I, n\u00ba 5, p. 16.\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"234\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-234x300.jpg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-4599\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-234x300.jpg 234w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-799x1024.jpg 799w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-768x985.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-8x10.jpg 8w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-432x554.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-396x508.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-660x846.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017-172x220.jpg 172w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Revista-do-Globo_005_p017.jpg 826w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-4599'>\n\t\t\t\tRevista do Globo, ano I, n\u00ba 5, p. 17.\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Revista do Globo, ano 1, n\u00b0 5, 02\/03\/1929. p. 16-17. A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase cem anos, Porto Alegre j\u00e1 se modernizava e j\u00e1 ambicionava mudar totalmente a sua paisagem. Contudo, ainda continha nela exemplares da arquitetura colonial portuguesa, tra\u00e7o em comum que teve com tantas outras cidades brasileiras de norte a sul. 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