{"id":4539,"date":"2021-03-11T21:49:18","date_gmt":"2021-03-12T00:49:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/?p=4539"},"modified":"2021-05-25T11:45:44","modified_gmt":"2021-05-25T14:45:44","slug":"um-novo-genero-de-moca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/um-novo-genero-de-moca\/","title":{"rendered":"Um novo g\u00eanero de mo\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Este delicioso texto publicado numa edi\u00e7\u00e3o da revista <em>A M\u00e1scara<\/em> de 1919 traz a descri\u00e7\u00e3o de \u201cum novo g\u00eanero de mo\u00e7a\u201d, a saber: a jovem moderna, que n\u00e3o tem medo do que as pessoas escandalizadas por tanta ousadia falar\u00e3o dela. O texto adverte com o cabe\u00e7ado \u201cDe Paris\u201d, indicando naturalmente uma ambi\u00e7\u00e3o de imitar a metr\u00f3pole cultural da \u00e9poca, mas que as jovens da pequena Porto Alegre de ent\u00e3o o estivessem lendo j\u00e1 nos diz bastante.<\/p>\n<p>O texto traz uma descri\u00e7\u00e3o detalhada das modas, que deixam o corpo atl\u00e9tico da jovem muito mais livre para o movimento. As primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX viram um interesse crescente na pr\u00e1tica do esporte pois este \u201c[&#8230;] se destinava justamente a adaptar os corpos e as mentes \u00e0 demanda acelerada das novas tecnologias\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. E novas tecnologias de fato havia, acelerando a vida urbana como nunca antes: bondes, carros, jornais, revistas, r\u00e1dio&#8230; E para isso novas modas, especialmente femininas, surgem para atender esse novo ritmo:<\/p>\n<blockquote><p>Desde o fim da Grande Guerra as tend\u00eancias de moda s\u00e3o para roupas leves e \u2018esportivas\u2019, caindo com naturalidade, sem cintos ou constri\u00e7\u00f5es, de maneira a ressaltar as formas da anatomia e a textura da pele<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, a jovem descrita \u00e9 livre para se movimentar, \u201cflirtar\u201d com os rapazes e at\u00e9 fumar! Este h\u00e1bito <em>chic<\/em>, difundido pelo cinema e que denotava um comportamento refinado e europeizado, era visto como arrojad\u00edssimo e extremamente sedutor nas mulheres, ainda que despertasse rea\u00e7\u00f5es escandalizadas.<\/p>\n<p>Mesmo com tudo isso, a nossa jovem moderna n\u00e3o seria moderna para sempre: como toda boa <em>pessoinha<\/em>-mulher, encontraria um bom marido, ainda que tivesse de ser atl\u00e9tico, e terminaria como boa m\u00e3e e cuidadora.<\/p>\n<p><strong>\u201cDe Paris<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>A ultima novidade de Paris<\/strong><\/p>\n<p>A graciosa figurinha da parisiense de hoje, com a sua gra\u00e7a decidida e sportiva de filha do seculo XX, \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o typica de um novo g\u00eanero de mo\u00e7a, producto de uma educa\u00e7\u00e3o hybrida, mixto de atavicos preconceitos latinos e desenvoltura \u2018yanquee\u2019, os contrastes que nellas se entrechocam s\u00e3o o mais seguro factor da sua irresistivel seduc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chamemo-la Merc\u00eades. Sob a elegancia impeccavel do seu vestido de ver\u00e3o, um mimo de foulard c\u00f4r de telha pintalgado de branco, com um largo panno de foulard liso formando avental na frente e atr\u00e1s, um cinto de verniz preto em torno \u00e0 cintura frouxa, gola e manchettes de organdi branco, seu flexivel corpo de nadadora emerita, livre de collete, ondula serpentinamente. O decote amplo e as mangas curtas deixam a descoberto o pesco\u00e7o torneado e os bra\u00e7os roli\u00e7os. A saia curta desvenda-lhe audaciosamente a perna agil que a meia de seda molda impeccavelmente. Os sapatos de camur\u00e7a branca lhe aprisionam os pequeninos p\u00e9s, affeitos \u00e1s grandes caminadas do \u2018footing\u2019 matinal. Sob as abas amplas do canotier de palha branca, seus olhos vivos sorriem candidamente \u00e1 delicia de ter dezenove annos e de viver. Vae para o tennis, s\u00f3zinha, \u00e1 americana, protegida pela propria irradia\u00e7\u00e3o da sua altiva innocencia. A m\u00e3o tratada e fina segura a raquette num gesto firme, revelador de uma vontade consciente do que quer, uma vontade perfeitamente resolvida a attingir o seu fim na existencia.<\/p>\n<p>Merc\u00eades \u00e9 uma pessoinha resoluta e alegre, que sabe querer como sabe jogar tennis, nadar, montar a cavallo, guiar, remar, tangar e flirtar. Oh! Principalmente flirtar&#8230;<\/p>\n<p>Nas horas vagas, Merc\u00eades occupa-se das criancinhas pobres de uma \u2018cr\u00eache\u2019 para quem cose e \u00e1s quaes faz, tres vezes por semana, uma hora de guarda. Esta \u2018cr\u00eache\u2019 \u00e9 o lado s\u00e9rio do seu estouvado viver, o lado austero, a sua escola da maternidade, a pequena valvula de caridade por onde communica com o vasto mundo soffredor. Merc\u00eades traja sempre no rigor da moda e penteia-se pelo ultimo figurino. Adora os cinemas; o seu ideal sentimental e musculoso parece-se extraordinariamente com o George Walsh.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um ideal muito definido nem muito arraigado pelo qual, intransigente, sacrificaria a flor radiosa da sua mocidade exuberante.<\/p>\n<p>Merc\u00eades est\u00e1 prompta a transigir comtudo que o marido seja um \u2018pequeno de muque\u2019. Tem o culto da for\u00e7a e \u00e9 torcedora&#8230; das mais \u2018torcentes\u2019 ardorosas. Emquanto o tal marido n\u00e3o chega, dansa, ri, borboleteia e namora, seguindo a moda \u00e1 risca. E t\u00e3o \u00e1 risca segue Merc\u00eades essa moda que deu ultimamente para fumar. Foi um escandalo em toda a roda social onde a evolue a linda pessoinha moderna de Merc\u00eades. Mas a menina n\u00e3o se deu por vencida. Continua tranquilamente a fumar uns cigarrilhos perfumados e fracos, fornecidos pelo primo, de quem \u00e9 o mais duradouro \u2018b\u00e9guin\u2019<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, mas cigarrilhos de boneca.<\/p>\n<p>Podem botar a boca no mundo. Merc\u00eades fuma e h\u00e1 de fumar&#8230; se fumar \u00e9 a ultima novidade de Paris?!&#8230; Todas as mulheres andam fumando por l\u00e1.<\/p>\n<p>A cigarreira de tartaruga, loira, cravejada de pequeninos rubis incandescentes \u00e9 a ultima palavra do \u2018chic\u2019, e o mais bonito presente que um noivo possa fazer a uma noiva. Merc\u00eades tem a pretens\u00e3o de acclimatar aqui, esse yankeismo aparisianado. Conseguir\u00e1 ella o seu temerario desideratum? As m\u00e1s l\u00ednguas j\u00e1 lhe est\u00e3o retalhando inexoravelmente a pelle de rosa.<\/p>\n<p>Merc\u00eades suspeita, naturalmente, esse examear escandalizado de mexeriquices malfevolentes. Que importa?!&#8230; Sacrifica-se em pr\u00f3l da moda. Desde que se fuma em Paris, que \u00e9 de alto \u2018chic\u2019 fumar-se em p\u00fablico, fumar\u00e1 a despeito de todos e de tudo. Merc\u00eades, fumando, fica, ali\u00e1s, irresistivel.<\/p>\n<p>Tem um geitinho particular de abrir a cigarreira e um muxoxo t\u00e3o adoravel para pedir fogo que inflamma immediatamente o cora\u00e7\u00e3o do incauto a que se dirigir. Debalde contra essa nova moda se insurge o bom senso e se rebella a familia indignada. Merc\u00eades continua a fumar. N\u00e3o \u00e9 que isto lhe agrade muito&#8230; mas \u00e9 t\u00e3o, t\u00e3o \u2018chic\u2019!&#8230;\u201d<\/p>\n<p><em>Autoria desconhecida<\/em><\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-4539 gallery-columns-2 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/A-Mascara_BNDigital_1919_Ed00045-6-19_p27_w.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/A-Mascara_BNDigital_1919_Ed00045-6-19_p27_w-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"&quot;Um novo g\u00eanero de mo\u00e7a&quot;. Revista &quot;A Mascara&quot;, BNDigital, 1919, Ed00045,p27 e 28.\" aria-describedby=\"gallery-1-4555\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-4555'>\n\t\t\t\t&#8220;Um novo g\u00eanero de mo\u00e7a&#8221;. Revista &#8220;A Mascara&#8221;, BNDigital, 1919, Ed00045,p27.\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon portrait'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/A-Mascara_BNDigital_1919_Ed00045-6-19_p28_w.jpg'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/A-Mascara_BNDigital_1919_Ed00045-6-19_p28_w-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-4556\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-4556'>\n\t\t\t\t&#8220;Um novo g\u00eanero de mo\u00e7a&#8221;. Revista &#8220;A Mascara&#8221;, BNDigital, 1919, Ed00045,p28.\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<h3>Refer\u00eancias:<\/h3>\n<p><em>Hist\u00f3ria da vida privada no Brasil \u2013 volume 3: Rep\u00fablica: da Belle \u00c9poque \u00e0 Era do R\u00e1dio<\/em>. Coordenador geral da cole\u00e7\u00e3o: Fernando A. Novais; organizador do volume: Nicolau Sevcenko. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1998.<\/p>\n<p>Revista <em>A M\u00e1scara<\/em>, 1919, Ed00045, p. 27. Hemeroteca online da Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> SEVCENKO, 1998, p. 571.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> SEVCENKO, 1998, p. 575.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Revista <em>A M\u00e1scara<\/em>, 1919, Ed00045, p. 27. Hemeroteca online da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Em franc\u00eas, algo como \u201camor plat\u00f4nico\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este delicioso texto publicado numa edi\u00e7\u00e3o da revista A M\u00e1scara de 1919 traz a descri\u00e7\u00e3o de \u201cum novo g\u00eanero de mo\u00e7a\u201d, a saber: a jovem moderna, que n\u00e3o tem medo do que as pessoas escandalizadas por tanta ousadia falar\u00e3o dela. 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