{"id":4344,"date":"2020-03-13T11:56:56","date_gmt":"2020-03-13T14:56:56","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3981"},"modified":"2021-05-25T11:49:35","modified_gmt":"2021-05-25T14:49:35","slug":"a-vida-cara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-vida-cara\/","title":{"rendered":"&#8220;A vida cara&#8221;"},"content":{"rendered":"\r\n<p>At\u00e9 meados dos anos 1920, a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pot\u00e1vel era prec\u00e1ria em Porto Alegre. A cidade em expans\u00e3o demandava cada vez mais fornecimento de \u00e1gua, cuja qualidade era bastante prec\u00e1ria ainda que no restrito per\u00edmetro da \u00e1rea mais central em que era dispon\u00edvel nos encanamentos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Assim, o <em>aguadeiro<\/em>, personagem urbano que remonta \u00e0s origens da cidade e atravessou o s\u00e9culo XIX ainda aparece neste jornal de 1923. Percorrendo as ruas da cidade com sua pipa puxada por um burrico, o aguadeiro aparentemente estava indo bem com o aumento de pre\u00e7o da sua \u00e1gua a ponto, como diz a legenda da foto, de poder ter um assistente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<div class=\"wp-block-image\">\r\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3986\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2020\/03\/arquivo_000.jpeg?w=1024\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption>Aguadeiro. Virada do s\u00e9c. XIX para o XX, Fototeca do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\r\n\r\n\r\n\r\n<div class=\"wp-block-image\">\r\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3985\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2020\/03\/post-a-vida-cara_capa.jpg?w=1002\" alt=\"\" width=\"373\" height=\"380\" \/>\r\n<figcaption>Estudo da pesquisadora em sketchbook a partir da foto de aguadeiro em Porto Alegre (acima). L\u00e1pis, bico de pena e aquarela sobre papel, 2016.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O jornalista n\u00e3o traz os valores dos pre\u00e7os de sua \u00e9poca, mas os compara melancolicamente com pre\u00e7os<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> de cem anos antes (1824), o que faz pensar que teriam aumentado bastante.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esse contexto geral de pobreza n\u00e3o era \u00fanico de Porto Alegre. Tendo permanecido um pa\u00eds dependente no sistema internacional capitalista, o Brasil, cujo produto principal de exporta\u00e7\u00e3o era ent\u00e3o o caf\u00e9, teve sua economia bastante enfraquecida pela Primeira Guerra (1914-1918). Nesse cen\u00e1rio, o Rio Grande do Sul, que fornecia sobretudo charque aos grandes centros de produ\u00e7\u00e3o cafeeira, tamb\u00e9m sofreu as consequ\u00eancias da queda das exporta\u00e7\u00f5es nacionais de caf\u00e9, e ainda tinha de fazer frente \u00e0 concorr\u00eancia do charque platino. Desta forma, muitas eram as dificuldades de sobreviv\u00eancia na cidade na d\u00e9cada de 1920, com a famosa <em>carestia<\/em>, ou seja, o alto custo de vida, provocando instabilidades pol\u00edticas e as primeiras greves oper\u00e1rias do pa\u00eds justamente no final dos 1910 e in\u00edcio dos 1920&#8230;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>\u201cA vida cara<a href=\"#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>At\u00e9 a agua augmentou 50% no pre\u00e7o<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>As classes pobres n\u00e3o sabem mais que reviravoltas dar, que malabarismo financeiro realizar, afim de enfrentarem a vida de hoje. Realmente, ella est\u00e1 \u2018pela hora da morte\u2019, est\u00e1 positivamente insupportavel. Os generos de primeira necessidade duplicaram, no m\u00ednimo, de pre\u00e7o; o vestuario triplicou, os alugueis subiram ao dobro. E, a todas essas, a perspectiva, a terr\u00edvel perspectiva \u00e9 de que o augmento proseguir\u00e1, num crescendo assustador.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<div class=\"wp-block-image\">\r\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3982\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2020\/03\/novidades_bndigital_11-06-1923_ed0006_a-vida-cara_p1_foto.jpg?w=550\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption><em>&#8220;<\/em>Hoje a coisa est\u00e1 melhor e d\u00e1, at\u00e9, para um ajudante&#8230;&#8221;<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n<\/div>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Vale, pois, a rememora\u00e7\u00e3o hoje dos pre\u00e7os dos generos nos bons tempos de 1824, segundo um jornal da \u00e9poca, e que, sobre ver curiosissima, nos mata de saudades: assucar, arroba 1$500 [<em>R$ 12,55\/kg<\/em>]; carne secca, arroba 1$600 [<em>R$ 13,38\/kg<\/em>]; farinha de trigo, arroba 2$600 [<em>R$ 21,75\/kg<\/em>]; fub\u00e1, um alqueiro [<em>sic<\/em>] $600 [<em>R$ 5,34\/kg<\/em>]; um queijo de Minas, $240 [<em>R$ 2,00\/kg<\/em>]; rapaduras, $040 [<em>R$ 4,92<\/em>]; toucinho e carne de porco salgada, arroba 2$000 [<em>R$ 16,73\/kg<\/em>]; cebolas, um cento $200 [<em>R$ 0,24\/un<\/em>]; feij\u00e3o, 20 litros $500 [<em>R$ 3,75\/kg<\/em>]; gallinhas, uma $160 [<em>R$ 19,68\/un<\/em>]; per\u00fa, um $400 [<em>R$ 49,02\/un<\/em>]; porco gordo em p\u00e9, um 4$500 [<em>R$ 553,50\/un<\/em>].<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Bons tempos, n\u00e3o? Mas elles n\u00e3o alcan\u00e7aram a nossa gera\u00e7\u00e3o. Nem por isso, entretanto, podem deixar de servir de base, num cotejo com os pre\u00e7os actuaes, para a demonstra\u00e7\u00e3o bem pouco explicavel da horrivel vida de hoje. O augmento generalisado constituiu-se moda, e moda \u2018sui-generis\u2019 pela sua irritante durabilidade&#8230;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Se at\u00e9 a agua, o precioso e barat\u00edssimo liquido, passou a ser vendida de porta em porta e, com o advento da nova \u2018moda\u2019, est\u00e1 custando $150 [<em>R$ 18,45<\/em>] um pequeno barril!\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>Autoria desconhecida.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Segundo a pesquisa de para Laurentino Gomes para o livro <em>1808 : como uma rainha louca, um pr\u00edncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napole\u00e3o e mudaram a hist\u00f3ria de Portugal e do Brasil<\/em> (S\u00e3o Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007) um mil r\u00e9is (1$000) equivaleria a cerca de R$ 0,123 atuais. Os valores de uma arroba equivaleriam a 14,7kg e um alqueire a 13,8L segundo a Wikipedia (https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Antigas_unidades_de_medida_portuguesas).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> <em>Novidades<\/em>, 11\/06\/1923, p. 1. Hemeroteca da BN Digital, Ed0006. A grafia original foi mantida.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 meados dos anos 1920, a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua pot\u00e1vel era prec\u00e1ria em Porto Alegre. A cidade em expans\u00e3o demandava cada vez mais fornecimento de \u00e1gua, cuja qualidade era bastante prec\u00e1ria ainda que no restrito per\u00edmetro da \u00e1rea mais central em que era dispon\u00edvel nos encanamentos. 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