{"id":3910,"date":"2020-01-22T11:38:53","date_gmt":"2020-01-22T14:38:53","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3910"},"modified":"2021-05-25T11:49:58","modified_gmt":"2021-05-25T14:49:58","slug":"imagens-do-trabalho-na-decada-de-1920","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/imagens-do-trabalho-na-decada-de-1920\/","title":{"rendered":"Imagens do trabalho na d\u00e9cada de 1920"},"content":{"rendered":"\n<p>A reportagem \u201cGreve dos oper\u00e1rios fabris attinge a 1.600 o n\u00famero de trabalhadores\u201d<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>, encontrada no <em>Correio do Povo<\/em> de 09\/03\/1929, deixa ver um pouco da realidade dos trabalhadores de Porto Alegre na d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o conseguir t\u00ea-la captado na \u00edntegra, a maior parte, aqui transcrita, fala de rotinas dur\u00edssimas de trabalho e da media\u00e7\u00e3o entre oper\u00e1rios grevistas e patr\u00f5es atrav\u00e9s do ent\u00e3o secret\u00e1rio do Interior, Oswaldo Aranha.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do trabalho no Brasil \u00e9 marcada pela escravid\u00e3o, regime em que a explora\u00e7\u00e3o brutal dos trabalhadores, muitas vezes at\u00e9 a morte, era da ordem do dia. A sua aboli\u00e7\u00e3o, em 1888, longe de garantir na pr\u00e1tica um regime de direitos m\u00ednimos para os trabalhadores \u2013 direito ao descanso, ao sal\u00e1rio adequado, \u00e0 carga de trabalho suport\u00e1vel -, engendrou outras formas de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas, caracter\u00edsticas trabalho fabril e urbano, j\u00e1 de h\u00e1 muito eram combatidas na Europa, onde se iniciou o processo de industrializa\u00e7\u00e3o. L\u00e1, os trabalhadores organizavam-se em sindicatos, e, com a imigra\u00e7\u00e3o de muitos deles, os movimentos grevistas tamb\u00e9m come\u00e7aram a aparecer nas cidades brasileiras no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Porto Alegre, por sinal, teve sua primeira greve em 1919, conforme testemunho da revista <em>A M\u00e1scara<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2427\" height=\"1869\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve.jpg?w=1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-3911\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve.jpg 2427w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-300x231.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-1024x789.jpg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-768x591.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-1536x1183.jpg 1536w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-2048x1577.jpg 2048w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-10x8.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-432x333.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-396x305.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-1120x862.jpg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-660x508.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/a_mc3a1scara_30_ago_1919_rua-dos-andradas-e-a-greve-286x220.jpg 286w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>&#8220;A greve &#8211; um aspecto da rua dos Andradas durante os dias em que esteve paralysado o servi\u00e7o de bondes&#8221;. Revista <em>A M\u00e1scara<\/em>, 30\/08\/1919. Fot\u00f3grafo desconhecido. Hemeroteca do Museu de Comunica\u00e7\u00e3o Social Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na reportagem do <em>Correio do Povo<\/em>, dez anos depois, \u00e9 interessante notar a demanda por jornadas de oito horas, por exemplo. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o Brasil ainda n\u00e3o tinha uma regulamenta\u00e7\u00e3o das leis que regiam o trabalho, coisa que s\u00f3 viria com a primeira presid\u00eancia de Get\u00falio Vargas, na d\u00e9cada de 1930. Assim, n\u00e3o era incomum que muitos trabalhadores pobres se vissem obrigados a enfrentar jornadas de 10, 12 ou mesmo 14 horas de trabalho, com folgas qui\u00e7\u00e1 aos domingos.<\/p>\n\n\n\n<p>A conquista da jornada de 8 horas deu-se depois de muitos conflitos violentos com as classes patronais. Na reportagem, \u00e9 interessante notar que o ent\u00e3o Secret\u00e1rio do Interior elogia<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c[&#8230;] o meio pac\u00edfico e conciliador de que os operarios lan\u00e7aram m\u00e3o para conseguir o almejado [&#8230;]\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que denota o quanto a viol\u00eancia que poderia ser usada para obten\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias dos oper\u00e1rios era esperada por parte das autoridades. Por sua vez, os propriet\u00e1rios de f\u00e1bricas e estebelecimentos comerciais n\u00e3o hesitavam em acionar a pol\u00edcia para reprimir violentamente qualquer sinal de insurg\u00eancia por parte dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto importante a ser ressaltado \u00e9 a banalidade do trabalho infantil. Nos trechos transcritos, o rep\u00f3rter em nenhum momento acha digno de men\u00e7\u00e3o a quantidade de crian\u00e7as trabalhando nas f\u00e1bricas de tecidos. Casualmente, os pequenos oper\u00e1rios aparecem posando para uma foto que ilustra a reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto interessante, especialmente no quesito urban\u00edstico, \u00e9 a imagem da fileira de casas oper\u00e1rias que a reportagem traz fotografada. V\u00eaem-se o arranjo t\u00edpico de moradas pobres da \u00e9poca: casas t\u00e9rreas, de porta e janela, numa fiada que pode ser ao longo de uma rua ou no interior de um terreno, configurando um corti\u00e7o. Mesmo decoradas com cornijas e compoteiras, os seus tamanhos diminutos acabam revelando a que p\u00fablico se destinam.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1250\" height=\"940\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w.jpg?w=1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-3913\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w.jpg 1250w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-1024x770.jpg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-768x578.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-10x8.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-432x325.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-396x298.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-1120x842.jpg 1120w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-660x496.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/cp_ahmmv_09-03-1929-o-movimento-grevista-p8_fotos_w-293x220.jpg 293w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>&#8220;1 &#8211; grupo de operarios de uma fabrica em actividade, ao largar o servi\u00e7o. 2 &#8211; Menores empregados em estabelecimentos fabris. 3 &#8211; Um correr de casas habitadas por oper\u00e1rios.&#8221; <em>Correio do Povo<\/em>, 09\/03\/1929, p. 8. Fot\u00f3grafo desconhecido. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Abaixo, ent\u00e3o, uma parte da reportagem transcrita:<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cGreve dos oper\u00e1rios fabris attinge a 1.600 o n\u00famero de trabalhadores<a href=\"#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>O movimento grevista nas f\u00e1bricas de tecidos e padarias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nas fabricas Renner, Rio Guahyba e Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos os trabalhos paralysaram, hontem, completamente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que conseguimos saber do actual movimento, desde a sua origem at\u00e9 a explos\u00e3o da greve<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pretendem os paredistas augmento de salarios e as 8 horas de trabalho em todas as fabricas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em consequencia da resposta dos proprietarios de Padarias ao Syndicato Padeiral, os associados dessa agremia\u00e7\u00e3o declararam-se, hontem, tamb\u00e9m em greve<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi recebida com a maior estranheza a noticia da gr\u00e9ve operaria, declarada, ante-hontem, em tres importantes estabelecimentos fabris desta capital.<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;] pela harmonia, pelo manos apparente, que volt\u00e1ra a reinar entre patr\u00f5es e operarios, desde que estes se conformaram com a solu\u00e7\u00e3o proposta pelo governo no Estado, quando da parede [sic] intentada, ultimamente, para obten\u00e7\u00e3o das [&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p>Colhidos, tamb\u00e9m, por essa nova, n\u00e3o pudemos dar, hontem, sen\u00e3o uma synthese de movimento&nbsp; actual, que surgiu ex-abrupto, reservando-nos, hoje, entretanto, para nos determos, com detalhes mais abundantes, na origem e fins dessa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse intuito, desenvolvemos grande actividade, procurando syndicar tundo quanto se relacionasse \u00e1 gr\u00e9ve.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse nosso trabalho, por\u00e9m, n\u00e3o se restringiu s\u00f3 \u00e1s attitudes dos operarios fabris.<\/p>\n\n\n\n<p>Ampliou-se muito mais, porque a classe dos padeiros, coincidentemente, declarou-se em gr\u00e9ve, tamb\u00e9m, hontem, pelos motivos que adiante exporemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizemos coincidentemente, em vista do Syndicato Padeiral ter declarado ao nosso representante que o gesto dos seus associados, abandonano, quase ao mesmo que os operarios fabris, o trabalho, nada tem, por emquanto, de solidario com a iniciativa destes \u00faltimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dado esse facto, abaixo, passamos a narrar, em duas partes, os acontecimentos occorridos no seio daquellas duas classes laboriosas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A gr\u00e9ve dos operarios fabris<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em nossas indaga\u00e7\u00f5es, apuramos que os operarios das fabricas de tecidos A. J. Renner e Cia, Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos e Rio Guahyba, de commum accordo, h\u00e1 cerca de mais de um m\u00eas, vinham, silenciosamente, entrando em combina\u00e7\u00f5es para conseguirem de seus patr\u00f5es, com o auxilio do governo do Estado, augmento de salarios e outras vantagens que julgavam opportunas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ideando isso, esperaram um momento azado para fazel-o, afim de n\u00e3o verem fracassadas as suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os operarios, que eram consultados, naturalmente adheriam \u00e1quelle iniciativa e, assim, sem discordancias, foi se formando uma grande corrente operaria, prompta a p\u00f4r em pratica o plano concertado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira tentativa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Firme no seu proposito, um grupo de operarios da Fabrica Renner, onde se gerou a id\u00e9a desse movimento, h\u00e1 cerca de duas semanas mais ou menos, dirigiu-se ao dr. Oswaldo Aranha, secretario do Interior e, depois de explicar as pretens\u00f5es de sua classe, pediu que o governo do Estado, por intermedio daquelle seu auxiliar, interviesse junto aos industriaes para conseguir o que elles pleiteavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Demonstrando a maior sollicitude e boa vontade, o dr. Oswaldo Aranha, depois de louvar o meio pac\u00edfico e conciliador de que os operarios lan\u00e7aram m\u00e3o para conseguir o almejado, promptificou-se a fazer tudo que estivesse em seu alcance em benef\u00edcio dessa numerosa classe, assegurando-lhes que, immediatamente, trataris do assumpto.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a reaffirmar as suas inten\u00e7\u00f5es, o secretario do Interior adiantou aos interessados que voltassem a procural-o ante-hontem, afim de se inteirarem do resultados de sua ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Realisando o promettido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cumprindo a sua palavra, o dr. Oswaldo Aranha approximou-se dos industriaes, come\u00e7ando as demarches para a solu\u00e7\u00e3o do pretendido pelos operarios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os patr\u00f5es, em face dessa interven\u00e7\u00e3o, trocaram diversas id\u00e9as sobre o assumpto com o secretario do Interior, expondo-lhe minuciosamente o seu ponto de vista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outras coisas, segundo conseguimos saber, os industriaes declaram, em conferencia com o dr. Oswaldo Aranha, que n\u00e3o achavam sem fundamento o pedido dos operarios, mas necessitavam de um praso para se pronunciar, afim de conciliar os seus interesses com os dos seus empregados. Assim, promettiam fazer um estudo da situa\u00e7\u00e3o das industrias, vendo, affinal, o que era possivel deliberar.<\/p>\n\n\n\n<p>Teriam ponderado, ainda, os patr\u00f5es, ao dr. Oswaldo Aranha, que nunca se desinteressavam pela melhoria dos salarios de seus operarios. Se isto ainda estava demorando, era porque a industria de tecidos, agora, \u00e9 que ia se refazendo do abalo que lhe caus\u00e1ria a crise de h\u00e1 dois annos atraz.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, eram de opini\u00e3o que se attendesse aos interessados, debaixo de muita medita\u00e7\u00e3o, mesmo porque, naturalmente, o augmento dos salarios havia de trazer como consequencia qualquer alta no pre\u00e7o dos tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram estes os resultados dos primeiros passos do dr. Oswaldo Aranha nesta quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A explos\u00e3o do movimento grevista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ante-hontem, justamente o dia convencionado para os operarios voltarem ao secretario do Interior, para receberem a resposta das suas demarches junto aos industriaes, os tecel\u00f5es da Fabrica Renner declararam a gr\u00e9ve, \u00e0s 15 \u00bd horas, abandonando, em peso, o trabalho, como houvesse uma pr\u00e9via combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo a seguir, os tecel\u00f5es das Fabrias Rio Guahyba e Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos adheriam aos gesto dos seus collegas da Renner, augmentando, assim, o numero de paredistas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante essa resolu\u00e7\u00e3o, os operarios da Renner foram procurar o dr. Oswaldo Aranha, como estava combinado, e, antes de receberem qualquer resposta, scientificaram-no de que tinha estalado a gr\u00e9ve naquelles estabelecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Recebendo essa noticia desagradavelmente, o secretario do Interior achou inopportuna a attitude dos tecel\u00f5es, declarando-lhes que, por esse motivo, se via obrigado a n\u00e3o mais tratar do assumpto, como secretario de Estado, embora continuasse a procurar pessoalmente solucionar o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Verificados esses acontecimentos, os operarios das outras sec\u00e7\u00f5es das Fabricas Renner, Rio Guahyba e Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos foram adherindo \u00e1 gr\u00e9ve, at\u00e9 generalisar-se por todos os departamentos daquelles estabelecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As declara\u00e7\u00f5es dos industriaes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em busca de informes, percorremos, hontem, as fabricas attingidas pela gr\u00e9ve.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, tudo estava paralysado, silencioso, sem a minima actividade fabricitante dos dias da semana. Apenas os empregados dos escriptorios se entregavam aos calculos e \u00e1s escriptas, mudos, quietos, como se estivessem dominados por um sentimento de pezar.<\/p>\n\n\n\n<p>Debaixo desse ambiente incommum, penetr\u00e1mos, primeiramente, na<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Expondo ao que iamos, falamos a um dos chefes desse estabelecimento, que assim nos respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018Aqui est\u00e1 tudo paralysado. Apenas os mestres e contra-mestres est\u00e3o seccando umas vinte obras, mas, conclu\u00eddo esse trabalho, nada faremos emquanto n\u00e3o for solucionada a gr\u00e9ve. Os tecel\u00f5es retiraram-se do servi\u00e7o sem declarar os motivos, e o mesmo, depois, succedeu com os demais operarios. Na nossa fabrica, entre homens e mulheres, mourejam quatrocentas pessoas, sendo que destas o numero das que desejam continuar no servi\u00e7o \u00e9 muito reduzido. Por isso, resolvemos n\u00e3o accender fogo, visto ser contraproducente o servi\u00e7o parcial. Em consequencia, tivemos de adiar obras e a remessa de muitas encomendas. Enfim, vamos aguardar os acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabrica Renner<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse grande estabelecimento industrial, nos entendemos com o socio sr. Jacob Renner.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito solicito, levou-nos elle ao seu gabinete de trabalho come\u00e7ando por dizer que os seus operarios levantaram a gr\u00e9ve, sem dar aos patr\u00e7oes e chefes de servi\u00e7os a minima explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Retiraram-se usando de um direito, qual seja o de n\u00e3o desejarem trabalhar, e nessa situa\u00e7\u00e3o continuam.<\/p>\n\n\n\n<p>Tambem o sr. Jacob Renner nos informou sobre a paralysa\u00e7\u00e3o completa dos trabalhos do seu estabelecimento, declarando que, embora contasse com operarios de algumas sec\u00e7\u00f5es, n\u00e3o lhe convinha essa actividade parcial, porque isto redundaria em prejuizos maiores com o dispendio de for\u00e7a electrica e outros elementos.<\/p>\n\n\n\n<p>Retirando-nos dessa fabrica, cujo numero de grevistas attinge a 700, passamos \u00e1<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabrica Rio Guahyba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Onde fomos attendidos por um dos seus socios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvimos, ali, mais ou menos, o que nos declararam na Fia\u00e7\u00e3o e Tecidos e na Renner, com a mesma explicativa de que os operarios da Rio Guahyba tamb\u00e9m abandonaram o servi\u00e7o sem dizer por que o faziam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A greve dos padeiros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A maioria da classe padeiral, filiada ao Syndicato que tem esse nome, ha cerca de um anno, mais ou menos, vem trabalhando para abolir o servi\u00e7o nocturno, tentando tambem o reconhecimento de sua agremia\u00e7\u00e3o pelos patr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os seus intuitos, por\u00e9m, n\u00e3o tem sido recebidos com muita sympathia pelos proprietarios de padarias, principalmente na parte que se relaciona com a admiss\u00e3o do pessoal, que desejam elles seja indicado pelo Syndicato.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, sem chegarem a um accordo com os patr\u00f5es, de certo tempo a esta parte, vinha aquella classe se movimentando para a conquista de suas preten\u00e7\u00f5es, mas sem resultados satisfactorios.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 menos de um mez, padeiros da Padaria Tres Estrellas, uma das mais importantes desse genero, manifestaram-sem em gr\u00e9ve, pelo facto de ser ali empregado um homem que n\u00e3o pertencia ao Syndicato.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento isolado, entretanto, n\u00e3o logrou effeito, porque os proprietarios daquelle estabelecimento n\u00e3o aceitaram as condi\u00e7\u00f5es impostas pelos grevistas, dizendo nada terem com a vontade dos que n\u00e3o queriam agremiar-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, devido a esse acontecimento, os padeiros resolveram intensificar a campanha para realiza\u00e7\u00e3o de suas id\u00e9as, deliberando, em grande reuni\u00e3o, que o Syndicato tomasse a si a responsabilidade da quest\u00e3o, enfrentando-a, ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A proposta do syndicato<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desempenhando-se da incumbencia que lhe commettera os seus agremiados, o Syndicato endere\u00e7ou a seguinte proposta aos proprietarios da[s] padarias:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018O Syndicato Padeiral, representando a classe dos padeiros-quadristas de Porto Alegre, convencido de que o trabalho nocturno \u00e9 um mal de grandes inconvenientes n\u00e3o s\u00f3 para a saude dos padeiros, mas tambem para a saude da popula\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, em geralm, porquanto o trabalho nocturno e a excessividade de horas que esses operarios trabalham, desmanchando uma quantidade de farinha superior \u00e1s suas for\u00e7as physicas, s\u00e3o o coefficiente mais poderoso para o desenvolvimento&nbsp; da tuberculose; considerando mais que, sem a aboli\u00e7\u00e3o do actual systema de servi\u00e7o nas padarias, todas as medidas de prophylaxia, quanto \u00e1 saude publica resultam inuteis, propomos o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>1\u00ba &#8211; Reconhecimento do Syndicato, n\u00e3o devendo trabalhar padeiros-quadristas n\u00e3o associados ao mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>2\u00ba &#8211; Pegar no servi\u00e7o \u00e1s 5 horas (manh\u00e3).<\/p>\n\n\n\n<p>3\u00ba &#8211; 70 kilos de farinha para cada homem desmanchar (no maximo).<\/p>\n\n\n\n<p>4\u00ba &#8211; a 2\u00aa turma dever\u00e1 pegar o servi\u00e7o logo em seguida \u00e1 termina\u00e7\u00e3o do trabalho da primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>5\u00ba &#8211; Nenhum padeiros dever\u00e1 dobrar servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>6\u00ba &#8211; O segundo servi\u00e7o n\u00e3o poder\u00e1 terminar depois das 8 horas da noite.<\/p>\n\n\n\n<p>7\u00ba &#8211; Hygiene moral dentro das padarias.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendes, pois, em vossas m\u00e3os a solu\u00e7\u00e3o de importante problema social, e, n\u00f3s, na sexta-feira, 8 do corrente, nos reuniremos \u00e1s 9 horas (manh\u00e3) para tomar conhecimento da vossa resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem mais, nos subscrevemos. Pelo Syndicato Padeiral \u2013 Manoel C. Vinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Porto Alegre, 5 de mar\u00e7o de 1929.<\/p>\n\n\n\n<p>Nota \u2013 caso estejaes de accordo, deveis declarar neste, assignando-o e sellando-o devidamente, e nesse caso, da nossa s\u00e9de dever\u00e3o ser enviadas as turmas para come\u00e7ar o trabalho do dia.\u2019<\/p>\n\n\n\n<p>Divulgada essa proposta pelos ineditoriaes da imprensa, ao mesmo tempo que era recebida pelos patr\u00f5es, os padeiros ficaram aguardando a resposta at\u00e9 hontem, \u00e1s 9 horas, dia previamente marcado naquelle documento.<\/p>\n\n\n\n<p>Expirado esse prazo, vinte proprietarios de padarias manifestaram-se, hontem, pelas columnas livres dos jornaes, accentuando, de modo formal, que n\u00e3o reconheciam o Syndicato, nem tampouco abdicavam do direito de escolher os seus empregados porque achavam que isso importavam em diminuil-os dentro de seus proprios estabelecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa resposta ao primeiro item da proposta foi, por assim dizer, o que deu origem \u00e1 gr\u00e9ve.<\/p>\n\n\n\n<p>Os padeiros, certificando-se da resolu\u00e7\u00e3o de seus patr\u00f5es, reuniram-se, hontem, \u00e1s 9 horas, na sua s\u00e9de, \u00e1 rua Jeronymo Coelho n. 4 e, depois de debaterem o assumpto, entenderam que a situa\u00e7\u00e3o do momento s\u00f3 [<em>sic<\/em>]<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A declara\u00e7\u00e3o da gr\u00e9ve<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E isto fizeram, come\u00e7ando a abandonar o servi\u00e7os nas padarias.<\/p>\n\n\n\n<p>Colhidos por essa consequencia da proposta do Syndicato, os patr\u00f5es viram-se, em grande maioria, obrigados a appellar para o auxilio dos repartidores de p\u00e3o, empregando-os no fabrico desse alimento de primeira necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos estabelecimentos, por\u00e9m, o trabalho soffreu paralysa\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Apezar disso hoje, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se ver\u00e1 privada daquelle producto, porque, com grandes esfor\u00e7os [&#8230;]\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Autor desconhecido<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> <em>Correio do Povo<\/em>, 09\/03\/1929, p. 8 Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre, consultado em 30\/10\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reportagem \u201cGreve dos oper\u00e1rios fabris attinge a 1.600 o n\u00famero de trabalhadores\u201d[1], encontrada no Correio do Povo de 09\/03\/1929, deixa ver um pouco da realidade dos trabalhadores de Porto Alegre na d\u00e9cada de 1920. Apesar de n\u00e3o conseguir t\u00ea-la captado na \u00edntegra, a maior parte, aqui transcrita, fala de rotinas dur\u00edssimas de trabalho e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4304,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[35,41,43,44],"class_list":["post-3910","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-correiodopovo","tag-greve","tag-historiadotrabalho","tag-historiaurbana","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3910"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3910\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4913,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3910\/revisions\/4913"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4304"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}