{"id":3794,"date":"2019-12-26T11:23:25","date_gmt":"2019-12-26T14:23:25","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3794"},"modified":"2021-05-25T11:50:13","modified_gmt":"2021-05-25T14:50:13","slug":"o-calor-e-a-moda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/o-calor-e-a-moda\/","title":{"rendered":"O calor e a moda"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-justify\">Num momento em que a meteorologia anuncia uma onda in\u00e9dita de calor para os pr\u00f3ximos dias em Porto Alegre, vale a pena ler este editorial de <em>A M\u00e1scara<\/em> do distante fevereiro de 1918 para lembrar que hoje, ao menos, os costumes permintem usar menos roupas que \u00e0quela \u00e9poca!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Pensando bem, n\u00e3o deveria ser nada f\u00e1cil perambular pela cidade ou at\u00e9 ficar em casa usando algumas camadas de roupas (camisas, coletes, palet\u00f3s e colarinhos altos para os homens, e corseletes, cal\u00e7\u00f5es, vestidos e meias-cal\u00e7as para as mulheres) e contando apenas com ventiladores de teto. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, pois, que o torturado jornalista desabafa nas p\u00e1ginas da revista ilustrada, saudoso dos tempos imemoriais da b\u00edblica folha de parreira, e amaldi\u00e7oando os modos \u2018civilizados\u2019 que ditavam o uso de t\u00e3o sufocantes modas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Realmente, a moda europ\u00e9ia adotada nos tr\u00f3picos devia aumentar em muito a venda de sorvetes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1.jpg?w=685\" alt=\"\" class=\"wp-image-3801\" width=\"467\" height=\"698\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1.jpg 950w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-685x1024.jpg 685w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-768x1149.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-7x10.jpg 7w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-432x646.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-396x592.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-660x987.jpg 660w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/abelardo-o-calor-e-a-moda_w-1-147x220.jpg 147w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>Como o autor do editorial estava e como ele queria ter estado.<br>L\u00e1pis, bico de pena e aquarela sobre papel. Sketchbook da pesquisadora, 2014.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Editorial da revista <em>A Mascara<\/em> de 23\/02\/1918.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO calor e a moda<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o, positivamente, n\u00e3o! Com este calor de fornalha ardente, como se estivessemos no rescaldo de um formidavel incendio em que se nos antecipam as torturas do inferno, o homem s\u00f3 tem o dever de suar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">N\u00e3o me pe\u00e7am, pois, conceitos, id\u00e9ias, imagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">A propria penna, que agora empunho, foge-me de entre os dedos, numa sorrateira tentativa de evas\u00e3o, seviciando inutilmente as tiras virgens em que as linhas mal se enfileiram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O cerebro lasso, mal dirige a associa\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias, que v\u00eam a custo, expremidas, espessas, tropegas. Os membros exhaustos exigem inercias pregui\u00e7osas, do\u00e7uras frescas de linhos alvos; a atten\u00e7\u00e3o, dispersa, recalcitra, relapsa \u00e1 disciplina, presa \u00e1 trama vaga de um sonho que anda a esbo\u00e7ar scenarios alegres de Watteau, com sombras protetoras de frondes amplas, e corpos distendidos sobre relvas, frescas de orvalho, \u00e1 margem de aguas crystallinas e murmurejantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Que mais se p\u00f3de appetecer sob um c\u00e9u causticante, com reverberos de a\u00e7o incandescente, sen\u00e3o o refrigerio das grandes sombras que nos permittem solennemente abdicar de todos os proveitos sociaes dos collarinhos altos, das gravatas que estrangulam moralmente, e produzem dyspn\u00e9as afflictivas, das aperturas dos colletes?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por um tempo destes n\u00e3o accode ao espirito outra id\u00e9a que n\u00e3o seja repetir incessantemente, entumecendo as bochechas, a j\u00e1 classica exclama\u00e7\u00e3o que, desde o paraizo, afflora naturalmente a todas as boccas humanas, quando o sol \u00e9 ardente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Uff! que calor!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E talvez esteja eu a commetter um erro de chronologia historica, fazendo datar do paraizo a celebre exclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Effectivamente o calor baralha-me as id\u00e9ias. Em primeiro logar o antigo Testamento n\u00e3o faz referencias especiaes \u00e1 temperatura dos grandes dias genesiacos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">O calor, evidentemente, pelo menos nas suas peiores consequencias, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o moderna, obra de nossa civiliza\u00e7\u00e3o atrabiliaria que toda de imita\u00e7\u00f5es n\u00e3o tem sabido adaptar-se \u00e1s condi\u00e7\u00f5es do meio e \u00e1 variedade dos climas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nesses venturosos tempos, de t\u00e3o vetusta memoria, em que o d\u00f4ce casal primevo passeava aconchegado pelas alamedas do paraizo, atapetados de musgo, ouvindo cantas as fontes e chilrear os passaros num ramo de macieira, uma simples folha de parra bastava a todos os mais bizarros caprichos de <em>toilette<\/em>, da nossa amada m\u00e3e Eva e de seu veneravel esposo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Vestiam-se bem mais de accordo com o tempo do que n\u00f3s, seus degenerados e civilisados filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Depois, os primeiros descendentes, j\u00e1 expulsos da previlegiada mans\u00e3o, e portanto curtindo agruras de climas varios, come\u00e7aram a utilizar as pelles dos animaes que aprezaram com o fim de nutrir-se, para proteger-se do frio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Novas gera\u00e7\u00f5es, por um habito muito humano de ir acceitando tudo quanto nos transmitte uma curta tradi\u00e7\u00e3o, sem analyse e porque a isso se misturou logo uma id\u00e9a de commercio e de ganho (a especialisa\u00e7\u00e3o das func\u00e7\u00f5es tinha inventado os indumentistas que confeccionavam e forneciam ao homem pelles addiccionaes) adoptamos logo a roupa como um facto consumado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O zelo dos alfaiates, para garantia de suas industrias, transformou a nudez que era a obra util de Deus num habito reprovavel, e essa nudez que nossos primeiros paes ostentaram, sem pejo, aos olhos pudicos do Creador, passou a ser considerada immoral!<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas ai! que estas \u00e9pocas passaram! Pouco a pouco a modesta folha de parreira, na logica instinctiva da ambi\u00e7\u00e3o, desejou maiores grandezas. J\u00e1 lhe n\u00e3o bastava o restricto das primitivas attribui\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ou, sem mais, a crescer. Invadiu o corpo offerecendo-lhe uma seguran\u00e7a de coura\u00e7a; comprimiu o collo num anceio; bifurcou-se em tentaculos e cingiu os bra\u00e7os, e foi sempre al\u00e9m da tarefa de deformar, methodicamente, todas as perfei\u00e7\u00f5es acaso remanescentes de perdidas maravilhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E ahi est\u00e1 como, para gaudio das modas de Chass\u00e9 d\u2019Antin, para fortuna dos <em>Pasquin<\/em>, dos <em>Poole<\/em> e outros sabios creadores de imprevistos estheticos, vive o corpo afogado em falbalas e em tufos, em s\u00eadas e casemiras pretas, a soprar por toda a parte a sua exclama\u00e7\u00e3o desesperada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\"><em>Uf!<\/em> que <em>calor!<\/em> enchendo-se de sorvetes e refrescos como se devesse apagar um incendio interno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Quanto mais logico, seria que cada qual lan\u00e7asse m\u00e3o do recurso natural e sincero de desembara\u00e7ar-se mui innocentemente dessas complica\u00e7\u00f5es que lhe envolvem o corpo sob o pretexto de moralidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E agora n\u00e3o faltar\u00e1 quem queira accusar a decencia destas linhas sem malicia de t\u00e3o ingenua simplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Fructos de uma civilisa\u00e7\u00e3o de preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Eu deveria, sem duvida, aqui o reconhe\u00e7o, envolver as minhas palavras em pezados e discretos estofos atravez do qual n\u00e3o passasem olhares indiscretos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mesmo porque o prazer, o gozo verdadeiro dos homens s\u00e9rios n\u00e3o est\u00e1 em ver a nudez que se revela e se mostra, ostensiva dos bons costumes mas em ver a que se occulta, exigindo o trabalho preliminar de ser desvendada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas, francamente, com um calor destes, a queimar-me o sangue, eu n\u00e3o podia imp\u00f4r \u00e1 minha chronica pezadas roupagens de inverno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E se alguem achar, (o que ser\u00e1 uma grave injusti\u00e7a) que as minhas id\u00e9as exhibem-se demasiadamente \u00e1 fresca, queixem-se ainda deste estopante calor que anda a crestar os derradeiros dias deste Fevereiro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <em>A Mascara<\/em>. Ed00003, 23\/02\/1918, pp. 9-10. Anno I N\u00famero III. Hemeroteca da BNDigital. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num momento em que a meteorologia anuncia uma onda in\u00e9dita de calor para os pr\u00f3ximos dias em Porto Alegre, vale a pena ler este editorial de A M\u00e1scara do distante fevereiro de 1918 para lembrar que hoje, ao menos, os costumes permintem usar menos roupas que \u00e0quela \u00e9poca! Pensando bem, n\u00e3o deveria ser nada f\u00e1cil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3799,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[18,20,40,53,57,60,67,74],"class_list":["post-3794","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-amascara","tag-aquarela","tag-fornoalegre","tag-moda","tag-pesquisa","tag-portoalegre","tag-sketchbook","tag-verao","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3794"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3794\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4915,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3794\/revisions\/4915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3799"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}