{"id":3458,"date":"2019-08-29T13:29:43","date_gmt":"2019-08-29T16:29:43","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3458"},"modified":"2021-05-25T11:50:50","modified_gmt":"2021-05-25T14:50:50","slug":"um-antro-no-coracao-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/um-antro-no-coracao-da-cidade\/","title":{"rendered":"&#8220;Um antro no cora\u00e7\u00e3o da cidade&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:justify;\">Nas primeiras d\u00e9cadas do\ns\u00e9culo XX, Porto Alegre era uma cidade bem menor do que \u00e9 hoje. Assim, mesmo\ndentro do seu centro hist\u00f3rico, as zonas de mis\u00e9ria e criminalidade, como os\nbecos, eram vizinhas diretas das zonas de respeit\u00e1veis neg\u00f3cios e ricas resid\u00eancias\nfamiliares. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Naturalmente, esse conv\u00edvio\n\u201cfor\u00e7ado\u201d, desde a imprensa do s\u00e9culo XIX, era tema de longas reportagens denunciando\na exist\u00eancia de tais espa\u00e7os de degrada\u00e7\u00e3o e imoralidade dentro da cidade e\nclamando o poder p\u00fablico a tomar provid\u00eancias repressivas. Nesta interessant\u00edssima\nreportagem do <em>Correio do Povo <\/em>de 10 de janeiro de 1929, tem-se o relato\nda incurs\u00e3o do rep\u00f3rter, acompanhado de um \u201ccicerone\u201d que deixou a vida criminosa,\nem uma obra da Prefeitura que, inacabada, servia de esconderijo aos <em>gatunos<\/em>\ndo centro:<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201c<strong>Em pleno cora\u00e7\u00e3o da cidade, a dois passos da Alfandega, Porto Alegre\nmantem um valhacouto<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>\nde malandros e malfeitores<a href=\"#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Relembrando\numa exhaustiva e sensacional reportagem do CORREIO DO POVOpor occasi\u00e3o do mais emocionante crime occorrido na capital<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>No\nedificio eternamente em construc\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>\nna Alfandega, os gatunos instituiram o seu \u2018albergue nocturno\u2019, onde tambem\nsesteiam \u00e1 hora da canicula<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1350\" height=\"1853\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3460\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w.jpg 1350w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w-219x300.jpg 219w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w-746x1024.jpg 746w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w-768x1054.jpg 768w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_reportagem_w-1119x1536.jpg 1119w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption><em>Correio do Povo<\/em>, 10\/01\/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre. Consultado em 30\/11\/2018, fotografia da pesquisadora.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando occorreu, nesta\ncapital, o repugnante delicto do morro do Menino Deus, em que perderam a vida,\ndepois de selvagemmente seviciadas, duas innocentes crian\u00e7as, o \u2018Correio do\nPovo\u2019, como devem estar lembrados os nossos leitores, desenvolveu uma\nexhaustiva reportagem afimde descobrir o barbaro e sadico massacrador das\ninfelizes crian\u00e7as, at\u00e9 hoje, infelizmente ignorado.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Nessa occasi\u00e3o, a nossa\nreportagem, [&#8230;] infatigavelmente, percorreu todos os recantos da cidade onde\nse pudesse encontrar, porventura, vestigio do repellente bandido.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de uma busca\nrigorosa no Morro do Menino Deus, diligencia feita paralellamente a da policia,\no \u2018Correio do Povo\u2019 esteve at\u00e9 no edif\u00edcio eternamente em construc\u00e7\u00e3o a\nAlfandega, que a nossa reportagem sabia ser<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um\nantro de malfeitores<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">De que ent\u00e3o conseguimos\napurar nesse singular\u00edssimo \u2018para\u00edso de ladr\u00f5es\u2019, demos circunstranciado relato\naos nossos leitores, que por certo n\u00e3o esqueceram os esfor\u00e7os, a solicitude\nindormida da nossa reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Agora, com o nosso\ninquerito nos \u2018bas fonds\u2019<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a> da cidade, aquella turma\nperigosa volta a preoccupar a nossa reportagem. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desde\naquelle tempo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">[&#8230;] edificio eternamente em com[st]ruc\u00e7\u00e3o da Alfandega \u00e9 um [va]lhacouto de gatunos e de malandros.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">O antigo \u2018achacador\u2019, que\nnos tem servido de \u2018cicerone\u2019 neste curioso inquerito, fez quest\u00e3o de\nmostrar-nos o antro.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">E embora lhe houvessemos\nfeito sentir que o conheciamos desde os dias tragicos do crime do morro do\nMenino Deus, elle insistiu:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Mas \u00e9 preciso que o sr.\nv\u00e1 ver novamente aquelle antro. Ali, de noite, se reune de tudo. Desde o\n\u2018descuidista\u2019 at\u00e9 o \u2018escruncha\u2019. \u00c9 um horror!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E voc\u00ea, nunca dormiu\nali?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Infelizmente j\u00e1. Mais\nde uma vez. E quando me lembro disso at\u00e9 fico horririsado! <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>Imagine o sr. um antro desse no cora\u00e7\u00e3o da cidade, aos fundos da nossa pra\u00e7a principal!<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pc3a7a-da-alfc3a2ndega-gearth-29-07-2019.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3459\" width=\"456\" height=\"462\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pc3a7a-da-alfc3a2ndega-gearth-29-07-2019.jpg 764w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pc3a7a-da-alfc3a2ndega-gearth-29-07-2019-296x300.jpg 296w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>Foto de sat\u00e9lite (Google Maps, 29\/07\/2019) da Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega (\u00e1rea verde em baixo) com a antiga sede da Secretaria da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul destacada em amarelo. Edi\u00e7\u00e3o da pesquisadora.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"997\" height=\"659\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/secretaria-da-fazenda-do-estado-do-rgs-site.jpg?w=997\" alt=\"\" class=\"wp-image-3526\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/secretaria-da-fazenda-do-estado-do-rgs-site.jpg 997w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/secretaria-da-fazenda-do-estado-do-rgs-site-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/secretaria-da-fazenda-do-estado-do-rgs-site-768x508.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>O imponente pr\u00e9dio da Secretaria da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul hoje, no <a href=\"https:\/\/fazenda.rs.gov.br\/conteudo\/999\/historico\">site<\/a> da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Fot\u00f3grafo desconhecido.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u00c9 muito prov\u00e1vel que a constru\u00e7\u00e3o de que fala a reportagem se trate da antiga sede da <strong>Secretaria da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul<\/strong>, situada a norte da Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega. Segundo a se\u00e7\u00e3o <strong><a href=\"https:\/\/fazenda.rs.gov.br\/conteudo\/999\/historico\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Hist\u00f3rico (abre em uma nova aba)\">Hist\u00f3rico<\/a><\/strong><\/em><strong> <\/strong><em>do site do \u00f3rg\u00e3o, <\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cQuase 30 anos se passaram para que fosse iniciada a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio-sede da Secretaria, o mesmo ocupado at\u00e9 hoje, em estilo neocl\u00e1ssico. Por\u00e9m, as edifica\u00e7\u00f5es g\u00eameas sofreram mudan\u00e7as no projeto inicial, de 1913, as quais podem ser comprovadas ao se observar fotografias e desenhos antigos. Em 1919, quando o pr\u00e9dio da Avenida Mau\u00e1 foi iniciado, o projeto contemplava uma unidade de 2.200 m2, divididos em dois andares. Abrigaria a Administra\u00e7\u00e3o do Porto, a Mesa de Rendas, a Junta Comercial e a Reparti\u00e7\u00e3o de Higiene.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>De 1920 a 1927, as obras foram paralisadas duas vezes por problemas financeiros. Houve altera\u00e7\u00f5es no projeto: pisos de cimento armado, ao inv\u00e9s de madeira, foram acrescentados p\u00f3rticos laterais, colunas, escadaria de granito e mais um andar para a Secretaria da Fazenda, a Mesa de Rendas da Capital, o Tesouro do Estado e o Banco do Estado. Em 1934, para ampliar o espa\u00e7o f\u00edsico do Banco do Estado, foram constru\u00eddos mais dois andares. Foram retirados a c\u00fapula e os relevos art\u00edsticos. Os dois pr\u00e9dios foram inaugurados em 1935.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>No\nterr\u00edvel antro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o quizemos contrariar o\nnosso \u2018cicerone\u2019. Assim acquiescemos ao seu convite e com elle nos dirigimos ao\nedificio eternamente em construc\u00e7\u00e3o da Alfandega, na formosa avenida que liga a\npra\u00e7a Senador Florencio ao c\u00e1es.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali chegados, na face\noeste, o nosso \u2018cicerone\u2019 parou. Era uma das futuras portas do predio\neternamente em construc\u00e7\u00e3o. Essa futura entrada do futuro edificio, por\u00e9m,\nestava em parte obstruida por taboas, como se p\u00f3de v\u00ear pelo clich\u00e9 que\npublicamos nesta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1050\" height=\"780\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_entrada_w2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3463\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_entrada_w2.jpg 1050w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_entrada_w2-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_entrada_w2-1024x761.jpg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_entrada_w2-768x571.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption><em>A entrada do valhacouto dos malandros, no edificio eternamente em construc\u00e7\u00e3o, da Alfandega<\/em>. Detalhe da reportagem, fot\u00f3grafo desconhecido.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Esgueirando-nos,\nconseguimos entrar. Um cheiro bastante desagradavel. Meia sombra. O ch\u00e3o\nimmundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como vacillassemos, o\nnosso \u2018cicerone\u2019 interpellou-nos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Est\u00e1 como medo?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 bem medo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 nojo, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Talvez&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; Si o\nsr. visse as immundicies da cidade!<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Tomamos a direita. Roupas\nvelhas, trapos immundos, pelo ch\u00e3o. Penetramos numa das <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alcovas\ndos \u2018gatos\u2019<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1050\" height=\"786\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_alcova_w.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3466\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_alcova_w.jpg 1050w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_alcova_w-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_alcova_w-1024x767.jpg 1024w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/cp_10-01-1929_p7_valhacouto_alcova_w-768x575.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption><em>Uma cama na &#8216;alcova&#8217; do edificio eternamente em construc\u00e7\u00e3o da Alfandega.<\/em>  Detalhe da reportagem, fot\u00f3grafo desconhecido. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Os malandros erigiram em\nalcova uma das futuras salas do futuro edificio da Alfandega eternamente em\nconstruc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas taboas erguidas\nsobre tijollos, s\u00e3o os leitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os travesseios s\u00e3o\ngrandes embrulhos de trapos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui e ali, no ch\u00e3o,\nsignaes indiscutiveis de vida. At\u00e9 pingos de spermaceti<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bafio horr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras salas, o mesmo\nespectaculo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Culto\na Morpheu<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong>&#8211; \u00c9 aqui que elles dormem\n\u2013 esclareceu-nos o antigo \u2018malandro\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Sempre?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; N\u00e3o. Quando n\u00e3o est\u00e3o\ncom a \u2018Grana\u2019. Porque, como j\u00e1 lhe disse, os \u2018gatos\u2019 \u2018afanam\u2019 e todo o\nresultado \u00e9 p\u2019ra farra. Ahi sim. N\u00e3o h\u00e1 parente pobre. Um tem duzentos mil\nr\u00e9is? Passa um pobre? Pensa que o gato d\u00e1 um nickel de duzentos reis? Pois sim!\nD\u00e1 logo uma \u2018pelle\u2019 de vinte!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Tambem&#8230; \u2013 observamos\n\u2013 dinheiros ganho facilmente&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Facilmente diz o\nsenhor! S\u00f3 o sobressalto em que a gente vive! Ent\u00e3o \u00e9 brincadeira? Todo mundo\nque chega perto da gente, a gente pensa que \u00e9 um \u2018tira\u2019. A gente est\u00e1 sempre\ncom a \u2018canna\u2019 na cabe\u00e7a&#8230; Hoje, eu sei que dinheiro facilmente \u00e9 o que se\nganha honestamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Ent\u00e3o como se explica a\ngenerosidade dos \u2018gatos\u2019?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 que elles s\u00e3o\nfarristas&#8230; gastam tudo o que ganham&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bella maneira de\nganhar!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Gastam tudo, tudo com\nmulheres&#8230;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alto<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O ambiente, por\u00e9m, n\u00e3o\nconvidava a uma permanencia longa.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Comprehendendo o nosso\ndesagrado, o antigo \u2018gato\u2019 poz-se em marcha.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1 f\u00f3ra no ar puro que\nvinha do Guahyba e da pra\u00e7a, respiramos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">Olhamos ainda para o\nedificio eternamente em construc\u00e7\u00e3o. Bello destino!<\/p>\n\n\n\n<p>Antro de malfeitores!<\/p>\n\n\n\n<p>Valhacouto de malandros!<\/p>\n\n\n\n<p>Um edificio que faz tanta\nfalta a Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso \u2018cicerone\u2019\nconvidou:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Bem. Ent\u00e3o, agora,\nvamos \u00e1quelle outro antro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o! Por hoje basta!\nFa\u00e7amos alto!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o quer, ao menos,\nesperar?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Esperar o que?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Ora, daqui a pouco\nelles come\u00e7am a chegar. Entram p\u2019ra ahi e v\u00e3o dormir&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Dormir de dia? Elles\nent\u00e3o ousam vir aqui \u00e1 luz do sol?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; U\u00e9! Sesteiam todos os\ndias&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E a policia n\u00e3o sabe?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Que \u00e9 que p\u00f3de ella\nfazer? Ella s\u00f3 p\u00f3de agir com o \u2018fraga\u2019. E quando elles veem para c\u00e1 e n\u00e3o teem\n\u2018grana\u2019&#8230; Quer esperar?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o. Fa\u00e7amos alto, por\nhoje.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><em>Autor desconhecido<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/a><\/h3>\n\n\n\n<p><em><strong>Correio do Povo<\/strong><\/em>, 10\/01\/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre. Consultado em 30\/11\/2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Se\u00e7\u00e3o <em><strong>Hist\u00f3rico<\/strong><\/em> do site da Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul: <a href=\"https:\/\/fazenda.rs.gov.br\/conteudo\/999\/historico\">https:\/\/fazenda.rs.gov.br\/conteudo\/999\/historico<\/a> . Consultado em 29\/07\/2019.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nRef\u00fagio, esconderijo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> A\ngrafia original foi mantida.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> \u00c9\nmuito prov\u00e1vel que se trate da antiga sede da Secretaria da Fazenda do Estado\ndo Rio Grande do Sul, situado atr\u00e1s do atual Memorial do Rio Grande do Sul, \u00e0\nPra\u00e7a da Alf\u00e2ndega.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Segundo\no dicion\u00e1rio Larousse, \u201cmeio em que vive uma popula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel e marginal\u201d\n(original: \u201cMilieu o\u00f9 vit une population mis\u00e9rable et marginale\u201d). Conforme <a href=\"https:\/\/www.larousse.fr\/dictionnaires\/francais\/bas-fonds\/8195\">https:\/\/www.larousse.fr\/dictionnaires\/francais\/bas-fonds\/8195<\/a>\n, consultado em 29\/07\/2019.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a>\nCera feita a partir da gordura extra\u00edda de baleia, e usada em velas e lampi\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, Porto Alegre era uma cidade bem menor do que \u00e9 hoje. Assim, mesmo dentro do seu centro hist\u00f3rico, as zonas de mis\u00e9ria e criminalidade, como os becos, eram vizinhas diretas das zonas de respeit\u00e1veis neg\u00f3cios e ricas resid\u00eancias familiares. Naturalmente, esse conv\u00edvio \u201cfor\u00e7ado\u201d, desde a imprensa do s\u00e9culo XIX, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3526,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[46,44,59,109],"class_list":["post-3458","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-historiadeportoalegre","tag-historiaurbana","tag-policia","tag-criminalidade","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3458"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4926,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3458\/revisions\/4926"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}