{"id":3344,"date":"2019-05-31T14:59:32","date_gmt":"2019-05-31T17:59:32","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3088"},"modified":"2021-04-30T11:57:54","modified_gmt":"2021-04-30T14:57:54","slug":"no-acampamento-dos-catarinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/no-acampamento-dos-catarinas\/","title":{"rendered":"&#8220;No acampamento dos &#8216;catarinas'&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea sabia que Porto Alegre &#8220;importou&#8221; oper\u00e1rios de Santa Catarina para trabalhar nas suas grandes obras urbanas da d\u00e9cada de 1920?<\/p>\n\n\n\n<p>Pois nesta rara reportagem sobre o quotidiano de trabalhadores como estes, \u00e9 poss\u00edvel ver as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e<em> <\/em>a vis\u00e3o que se tinha do trabalho como valor em si. Especialmente numa \u00e9poca em que a transi\u00e7\u00e3o do trabalho escravo para o trabalho livre, os discursos oficiais em torno dos trabalhadores e do trabalho se davam muito no sentido de glorificar o esfor\u00e7o e a dilig\u00eancia, despolitizando quest\u00f5es como direitos a descanso e moradia, ou a justeza das remunera\u00e7\u00f5es.  No caso desta reportagem, pode-se notar a descri\u00e7\u00e3o &#8220;pitoresca&#8221; das fendas nas paredes do galp\u00e3o em que os catarinenses estavam acomodados, por\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o que o rep\u00f3rter considera como alimenta\u00e7\u00e3o insuficiente para o trabalho exigido.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/05\/capa-o-acampamento-dos-catharinas_w.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3273\" \/><figcaption>Estudo de trabalhadores. L\u00e1pis e bico de pena sobre papel de sketchbook. Autora: Ana Luiza Koehler, 2018.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A cidade havia a rec\u00e9m passado por o que provavelmente foi seu primeiro estremecimento nas rela\u00e7\u00f5es entre trabalhadores e empregadores, na famosa Greve Geral de 1917, ent\u00e3o \u00e9 preciso ler mat\u00e9rias como estas com bastante cautela. Nela, nota-se ao final um certo grau de infantiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que ainda n\u00e3o tinham sua cidadania e direitos plenamente reconhecidos. <\/p>\n\n\n\n<p>Abaixo, parte da mat\u00e9ria do Correio do Povo de 17\/1\/1929 sobre os canteiros de obras que se multiplicavam pela Porto Alegre da d\u00e9cada de 1920:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>\u201cNo acampamento dos \u2018catharinas\u2019<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Terminava a nossa jornada de investiga\u00e7\u00e3o cujos fructos consideramos a justa paga dos esfor\u00e7os alegremente dispendidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Volvemos, ent\u00e3o, os olhos para o reducto dos \u2018Catharinas\u2019,\ncomo pittorescamente foram alcunhados por seus proprios colegas os operarios do\nEstado limitrophe que se encontram trabalhando na capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu numero attinge a 500 mais ou menos e moram todos, como\ntivemos opportunidade de alludir em outro local desta nota, num acampamento\njunto a esta\u00e7\u00e3o do Riacho<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Para ali nos dirigimos ao meio dia, hora especialemente\nindicada n\u00e3o s\u00f3 porque a colonia se encontra reunida para as refei\u00e7\u00f5es como\ntambem por auxiliar o apanhado photographico.<\/p>\n\n\n\n<p>Minutos depois nos encontravamos em pleno reducto catharineta;\num pittoresco ajuntamento de cinco galp\u00f5es de madeira e zinco dos quaes dois de\ngrandes dimens\u00f5es e tres bem menores.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiros delles, \u00e1 esquerda de quem entra, apresente esse\nd\u00edstico a cal \u2018Galp\u00e3o dos polaco\u2019. Seu interior, cujo aspecto se reproduz em\npequenas variantes nos demais, \u00e9 de um colorido suggestivo:<\/p>\n\n\n\n<p>Leitos das formas mais varias e extravagantes, malas, bah\u00fas\ne uma infinidade de objectos e utensilios familiares, tomam-n\u2019o totalmente numa\ninteressante confus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas paredes collam-se folhas em aberto de jornaes, paginas\nde revistas illustradas, addiccionando ao principio decorativo o espirito pratico\nde evitar a entrada do ar nocturno pelas trinchas.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo galp\u00e3o uma graciosa legenda indicava a existencia\nali do \u2018Restaurant Fog\u00f5es&nbsp; de \u2018Latta\u2019,\nnelle fomos encontrar um dos capatazes de turma que nos prestou varios\ninformes, em parte registrados, auxiliando-nos tambem, quanto a obten\u00e7\u00e3o de photographias\nque, accrescentou, s\u00f3 poderiamos obte-las no pateo do acampamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Aceitamos o alvitre e descemos a pequena escada que nos conduzira\nat\u00e9 o quarto do nosso \u2018cicerone\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Os catharinas preparavam o seu repasto. Alegres, cantavam\numa velha [?] de compassos lentos, motivo da sua terra natal, trechos esparsos\nde algum canto ingenuo de ninar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Sua pronuncia \u00e9 caracteristica e cantante. A phrase de rapido enunciada, muitas vezes, at\u00e9, confuzo tem qualquer coisa de escala em solfejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Riem-se. N\u00e3o querem se deixar retratar. Um delles chega a\ndizer que n\u00f3s desejamos \u2018fazer tro\u00e7a delles\u2019. Outro pergunta em que cinema v\u00e3o\nlevar \u2018aquella fita\u2019. Informamos que n\u00e3o se trata de filmagens, o \u2018Correio do Povo\u2019\ndeseja fixar, numa de suas paginas a sua suggestiva \u2018colonia\u2019.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_operc3a1rios_w-catharinas-14.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3089\" \/><figcaption>&#8220;Tres flagrantes suggestivos dos &#8216;catharinas&#8217; \u00e1 hora do almo\u00e7o.&#8221; <em>Correio&nbsp;do&nbsp;Povo<\/em>, 17\/1\/1929.  <br>Fot\u00f3grafo desconhecido, reprodu\u00e7\u00e3o da pesquisadora. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Deixam-se convencer e o resultado ahi est\u00e1 nesses grupos\nsorridentes emprestando ao descolorido da chronica o tom vivo de uma alegria sem\nmalicia.<\/p>\n\n\n\n<p>Vem depois o almo\u00e7o. Aqui se torna necessario dizer que\nachamo-lo insufficiente e desprovido dos elementos necessarios ao trabalho em\nque se empenham as energia que elle deve manter em pleno e saudavel equilibrio:<\/p>\n\n\n\n<p>Um prato cheio de feij\u00e3o com farinha acompanhado de um naco\nde carne, cuja quantidade e principio nutritivo n\u00e3o se indicam como os mais\naconselhaveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a alegria barulhenta dos \u2018catharinas\u2019 de novo nos\ndistrahe a atten\u00e7\u00e3o. Brincam. Dizem pequeninas perficias, num ar jocoso de crean\u00e7as\ncontentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixemol-os l\u00e1. Seu contacto nos deixou uma impress\u00e3o de encantamento,\ncom a ingenua felicidade que os anima, dentro do seu sonho constante de regresso.\nPorque a alegria do proximo tambem e feita um pouco das nossas proprias e melhores\nalegrias&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>[<em>Autor desconhecido<\/em>]<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><br><\/h3>\n\n\n\n<p><a><em>Correio do Povo<\/em><\/a>, 17\/1\/1929, p. 9. Hemeroteca do Arquivo Hist\u00f3rico Municipal Moys\u00e9s Vellinho de Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nA grafia original foi mantida.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>\nRefer\u00eancia \u00e0 ferrovia do Riacho, linha f\u00e9rrea que fazia transporte\nprimeiramente de esgoto cloacal para fora da cidade, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e\ndepois de passageiros da regi\u00e3o da Praia de Belas \u00e0 zona sul de Porto Alegre.\nFicava pr\u00f3xima ao Areal da Baroneza e Cidade Baixa, territ\u00f3rios de ocupa\u00e7\u00e3o\nnegra e modesta \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabia que Porto Alegre &#8220;importou&#8221; oper\u00e1rios de Santa Catarina para trabalhar nas suas grandes obras urbanas da d\u00e9cada de 1920? 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