{"id":3300,"date":"2019-04-14T16:36:40","date_gmt":"2019-04-14T19:36:40","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3209"},"modified":"2021-05-25T11:51:33","modified_gmt":"2021-05-25T14:51:33","slug":"a-sesta-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/a-sesta-do-operario\/","title":{"rendered":"A sesta do oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma das linhas de estudo da Hist\u00f3ria que surgiu na segunda\nmetade do s\u00e9culo XX \u00e9 a da hist\u00f3ria do quotidiano, em que se procura estudar os\nh\u00e1bitos e pr\u00e1ticas corriqueiras de uma sociedade num determinado momento.\nQuebrando tradi\u00e7\u00f5es que desprezavam esses conhecimentos e focalizavam quase que\nunicamente os relatos dos grandes fatos pol\u00edticos, militares e grandes\npersonalidades, a hist\u00f3ria do quotidiano procura saber como era a vida das\npessoas comuns, e nesta curta mat\u00e9ria da revista <em>Mascara<\/em> temos algumas pistas privilegiadas da rotina urbana na\nPorto Alegre das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos falando sobre o h\u00e1bito da sesta, ou da famosa soneca\nap\u00f3s a refei\u00e7\u00e3o do meio-dia. Comum em pa\u00edses cuja esta\u00e7\u00e3o quente induz a uma\nnatural sonol\u00eancia, a sesta \u00e9 mal vista pela l\u00f3gica capitalista de\nprodutividade m\u00e1xima que permeia as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, especialmente\nnos \u00faltimos tempos. Sob o tradicional ad\u00e1gio \u201ctempo \u00e9 dinheiro\u201d, dormir em pleno\ndia \u00e9 um ato impens\u00e1vel. Hoje, empresas que buscam mostrar-se \u201cinovadoras\u201d\nequipam-se com espa\u00e7os para relaxamento e <em>power\nnaps<\/em>, visando, naturalmente, aumentar a produtividade de seus empregados.\nTudo para justificar a reinstaura\u00e7\u00e3o de um h\u00e1bito considerado tradicional h\u00e1\nquase 100 anos!<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, ap\u00f3s quase quatro s\u00e9culos de uma associa\u00e7\u00e3o\nestreita entre trabalho e escravid\u00e3o, a transi\u00e7\u00e3o para o trabalho livre e\nremunerado n\u00e3o se fazia de forma f\u00e1cil. Os grandes contingentes de ex-escravos\nnas cidades levava a que as for\u00e7as policiais fossem usadas para reprimir a \u201cvadiagem\u201d,\nque chegou a configurar crime na \u00e9poca. Isso parece transparecer no trecho em\nque o cronista se refere \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o do sono em espa\u00e7o p\u00fablico pela m\u00e3o de um\npolicial.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, ao menos para o cronista, o oper\u00e1rio bra\u00e7al trabalhador\nmerecia esse descanso, conforme l\u00ea-se:<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A\nsesta do oper\u00e1rio<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cCom os primeiros calores que se fazem sentir, a hora da\ns\u00e9sta passa a reconquistar os f\u00f3ros de sagrada que periodicamente tem. E si nas\ncasas de familia a ha quem a observe religiosamente, na rua \u2013 isto \u00e9, ao ar\nlivre \u2013 essa pratica toma um aspecto extraordinariamente pittoresca.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/03\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca01.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3210\" \/><figcaption>Oper\u00e1rio dormindo. Fot\u00f3grafo desconhecido. <em>Mascara<\/em>, 02\/10\/1920. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ha ociosos que se sentam num banco de pra\u00e7a, \u00e1 sombra\nagradavel de um velho pl\u00e1tano, e, cabe\u00e7a descansada sobre o peito, resomnam e\nroncam beatificamente at\u00e9 que a m\u00e3o importuna do policial o chame \u00e1 estupida\nrealidade.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 os que dormem nos bondes, agitados pelos solavancos e\nobrigados a despertar a cada instante para dar passagem.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 os que v\u00e3o para os arrabaldes exclusivamente para\npraticar essa habito que se imp\u00f5e \u00e1 chegada de cada ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a s\u00e9sta mais pittoresca e mais justificavel \u00e9, sem\nduvida, a do operario.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/03\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca02.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3211\" \/><figcaption> <br>Oper\u00e1rio dormindo com o chap\u00e9u na barriga. Fot\u00f3grafo desconhecido. <em>Mascara<\/em>, 02\/10\/1920. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Depois de um trabalho violento as 8 da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e1s 12 \u2013\nhora em que atiram para o estomago um prato pesado e indigesto de feij\u00e3o com\nfarinha \u2013 o operario tem a necessidade inadiavel de dormir uma \u2018somn\u00e9ca\u2019. N\u00e3o\ns\u00f3 os musculos cansados a reclamam como o trabalho feroz e titanico do estomago\na exige.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/03\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca03.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3212\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca03\/\" class=\"wp-image-3212\" \/><figcaption>Cabe\u00e7a tapada pra dormir melhor&#8230;  <br>Oper\u00e1rio dormindo. Fot\u00f3grafo desconhecido. <em>Mascara<\/em>, 02\/10\/1920. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. <\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/03\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca04.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3213\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/a-mascara_bndigital_1920_ed00018_p20_somneca04\/\" class=\"wp-image-3213\" \/><figcaption>N\u00e3o perturbe!  <br>Oper\u00e1rio dormindo. Fot\u00f3grafo desconhecido. <em>Mascara<\/em>, 02\/10\/1920. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. <\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>E \u00e9 de v\u00ear-se o somno profundo do operario \u00e1 essa hora!\nDobrado o paletot e posto debaixo da cabe\u00e7a \u00e1 guisa de travesseiro, extendido\nnas taboas do andaime ou ao p\u00e9 da obra, sonha elle com a Sociedade Nova e a Paz\nUniversal, at\u00e9 que a rude voz do trabalho o chame \u00e1 brutalidade da lucta pelo\np\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dormir&#8230; Nessas horas tem elle resolvido o problema da Felicidade&#8230;\nDorme e esquece a miseria, anesthes\u00eda o soffrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Bemdita s\u00e9sta!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e3o essas informa\u00e7\u00f5es de pesquisa, espec\u00edficas, que tornam o processo criativo de uma hist\u00f3ria em quadrinhos t\u00e3o rico e prazeiroso. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Revista <em>Mascara<\/em>, 02\/10\/1920,\np. 20. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nAutor desconhecido. A grafia original foi mantida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das linhas de estudo da Hist\u00f3ria que surgiu na segunda metade do s\u00e9culo XX \u00e9 a da hist\u00f3ria do quotidiano, em que se procura estudar os h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas corriqueiras de uma sociedade num determinado momento. 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