{"id":3080,"date":"2020-03-27T12:21:03","date_gmt":"2020-03-27T15:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3080"},"modified":"2021-04-30T11:51:47","modified_gmt":"2021-04-30T14:51:47","slug":"as-grandes-obras-remodeladoras-da-metropole-gaucha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/as-grandes-obras-remodeladoras-da-metropole-gaucha\/","title":{"rendered":"&#8220;As grandes obras remodeladoras da metr\u00f3pole ga\u00facha&#8221;"},"content":{"rendered":"\r\n<p>Tem-se nesta longa e detalhada reportagem do <em>Correio do Povo<\/em> um panorama muito interessante das grandes reformas urbanas por que passou Porto Alegre no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em especial com rela\u00e7\u00e3o aos seus trabalhadores e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Primeiramente, a reportagem tem um tom de elogio ao <em>ethos<\/em> do trabalho t\u00edpico da \u00e9poca, que condenava a \u2018vagabundagem\u2019 e \u2018ociosidade\u2019 das classes populares \u2013 grande parte das quais negras e oriundas do regime de trabalho escravista \u2013 num momento em que o pa\u00eds (ainda) se inseria no sistema de trabalho livre e remunerado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Sabidamente, muita coisa de l\u00e1 para c\u00e1 mudou, especialmente o cuidado com os direitos dos trabalhadores, como a regulamenta\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de seguran\u00e7a, habita\u00e7\u00e3o e descanso. Nesta reportagem, a satisfa\u00e7\u00e3o com as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e remunera\u00e7\u00e3o por parte dos oper\u00e1rios \u00e9 sublinhada e comemorada, muito embora hoje se pudessem considerar provavelmente bastante prec\u00e1rias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em suma, o texto e as fotografias d\u00e3o a ver um raro quadro, em escala quase individual, das pessoas que transformaram a cidade levantando e colocando pedras, chapas de concreto e cabos de a\u00e7o, postes de ilumina\u00e7\u00e3o e canos de esgoto n\u00e3o em projetos de gabinete, mas com suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Testemunho de um tempo de celebra\u00e7\u00e3o da cidade que se moderniza.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\r\n<p><strong>Grandes obras remodeladoras da metr\u00f3pole ga\u00facha<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cerca de 3000 operarios, com a picareta do progresso, revolvem a cidade em todas as direc\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Porto Alegre atravessa, no momento actual, um per\u00edodo [&#8230;] para actividade constructiva. tomada de uma febre vertiginosa de trabalho de de remodela\u00e7\u00e3o magn\u00edfica.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Suas ruas, suas pra\u00e7as abrem-se a novas perspectivas [&#8230;] [abert]as por centenares e centenares de homens que lhe transformam o primitivo aspecto para dentro em breve, offerecer um outro mais moderno e mais lindo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>As pedras soltas e grosseiras de cal\u00e7amentos primitivos, as [&#8230;] gastas e inuteis da illumina\u00e7\u00e3o, abatem-se ao contato desse vertiginoso ar de vitalidade nova pra reflorir num [&#8230;] transfigurador e necessario.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tudo parece indicar que a capital rio-grandense, ap\u00f3s a [&#8230;] heroica e imprescindivel que a faz soffrer reaparecer\u00e1 dos seus escombros em que ficar\u00e3o soterradaos seus tra\u00e7os romanticos mas anachronicos de cidadezinha provincial.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E para esse certamen [&#8230;] utilisadas consideraveis turmas de operarios que, em pontos diversos da cidade, sob a guia vigilante de seus capatazes e fiscaes, participam essa for\u00e7a de renova\u00e7\u00e3o e belleza.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3082\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_geral_w.jpg\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption>Mat\u00e9ria no <em>Correio\u00a0do\u00a0Povo<\/em>, 17\/1\/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre. Fotografia da pesquisadora.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Auxiliando-os, facilitando-lhes o labor proficuo, se espalham pela vasta \u00e1rea de sua actividade machinarios os mais diversos, trituradores aplanadores e mais uma s\u00e9rie de apetrechos e ferramentas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mas, nas m\u00e3os infatigadas e rudes de seus manejadores, [labut]ando ao sol claro da cidade, andando de encontro \u00e1s [&#8230;] informes e longas, s\u00e3o [sinal] promissor de uma era [&#8230;] de felizes realisa\u00e7\u00f5es da [&#8230;] est\u00e1 a um passo dos [&#8230;] seus proprios passos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[&#8230;]<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda interessante, de facto, contemplar esses obreiros do progresso em sua actividade [&#8230;] ao seu trabalho, indagamos das suas horas de servi\u00e7o [&#8230;], enfim, [&#8230;] auscultando o modo de pensar e [&#8230;], se possivel, no intimo de cada um as suas queixas ou os seus louvores.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E com esse intuito mandamos o automovel rodar pela cidade af\u00f3ra.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Rua 7 de Setembro, pra\u00e7a 15 de Novembro e Avenida S\u00e3o Raphael at\u00e9 a esquina da rua da Concei\u00e7\u00e3o onde tivemos que estacionar, por que dali para deante aquella via publica n\u00e3o nos dava mais passagem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Chegamos \u00e1<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Primeira colmeia de trabalho<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Occupada por uma das innumeras turmas de operarios a servi\u00e7o da empreza Dahne e Cia, encarregada da construc\u00e7\u00e3o do cal\u00e7amento da capital.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Picareta rebrilante ao sol causticante da esta\u00e7\u00e3o que atravessamos, sem cansa\u00e7o[?] e de mangas arrega\u00e7adas, aquelle numeroso grupo de operarios, todos entregues a uma febricitante [?] actividade, nos deu a impress\u00e3o nitida \u2013 collocados como estavam em fileira \u2013 desses carreiros de formigas que, de sol a sol, sem descan\u00e7o, procuram com o seu trabalho productivo amealhar meios para o futuro distante [?] conseguir no ver\u00e3o o que a esta\u00e7\u00e3o chuvosa do inverso lhes impossibilitar\u00e1, talvez, de obter.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00c1 primeira vista, numa rapida vis\u00e3o de conjuncto, presidida pelo nosso espirito de observa\u00e7\u00e3o, facil nos foi constatar a excellente disposi\u00e7\u00e3o de animo de todos aquelles modestos art\u00edfices do progresso e do embellezamento da cidade, em cujos rostos suarentos se estampava, irradiante, a alegria sadia dos que encontram no trabalho a maior raz\u00e3o de ser da nossa transitoria passagem pela vida.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Depos de fazer com que a objectiva do nosso photographo focasse aquelle quadro de trabalho, acercamo-nos de um homem, que, pelo olhar attento com que dirigia os trabalhos, pelo interesse que parecia demonstrar pela boa marcha do servi\u00e7o, nos fez suppor de logo que fosse ele o chefe daquella turma.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3083\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_sc3a3o-rafael_w.jpg\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption>Obras na avenida S\u00e3o Raphael (atual Alberto Bins), coordenadas pelo capataz Victor Galvani (em destaque). <em>Correio\u00a0do\u00a0Povo<\/em>, 17\/1\/1929. <br \/>Fot\u00f3grafo desconhecido, reprodu\u00e7\u00e3o da pesquisadora.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; O sr. \u00e9 o capataz geral desta turma?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Sim sr. Victor Galvani, um seu creado, respondeu-nos pollidamente o nosso interpelado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Explicamos-lhe rapidamente a raz\u00e3o que ali nos levava e o sr. Victor Galvani, ao mesmo tempo que nos apresentava o sr. Virgilio Cauduro, o fiscal da Intendencia que se acercara do grupo, entrou a discorrer, a pedido nosso, sobre os trabalhos daquelle trecho da Avenida S\u00e3o Raphael, atacados [?] segunda-feira ultima.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Est\u00e3o aqui sob a minha direc\u00e7\u00e3o os operarios que, diariamente, dentro do horario estabelecido pela empreza \u2013 das 7 \u00bd \u00e0s 11 \u00bd e das 13 \u00bd \u00e1s 17 \u00bd &#8211; trabalham activamente, em meio da alegria que o sr. est\u00e1 presenciando.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Signal de que est\u00e3o satisfeitos com o salario e com o tratamento que lhes dispensam os chefes \u2013 obtemperamos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Perfeitamente, respondeu-nos um dos operarios, que naquelle momento viera transmittir um recado e receber instruc\u00e7\u00f5es do capataz geral. Estamos satisfeitos, porque recebemos bons salarios, que variam de 8$000 a 10$000 diarios e porque somos muito bem tratados pelos nossos chefes, de quem n\u00e3o temos raz\u00e3o de queixar. Al\u00e9m do mais \u2013 accrescentou \u2013 sabemos que estamos contribuindo, com o nosso esfor\u00e7o para o embellezamento da capital de nossa terra natal, e que constitue para n\u00f3s um outro motivo de orgulho e satisfac\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Qual \u00e9 a marcha do trabalho desta turma?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Primeiramente \u2013 esclareceu-nos o capataz geral \u2013 temos que fazer a chapa de concreto para o assentamento da linha de bondes, cujos trilhos collocaremos em seguida para, depois ent\u00e3o, iniciarmos o cal\u00e7amento de paralelepipedos com rejuntamento de cimento.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, demorar\u00e3o muito neste trabalho?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Nem tanto assim, porque os operarios, como j\u00e1 lhes disse, trabalham com muita vontade. Penso mesmo que esse trecho compreendido entre as ruas da Concei\u00e7\u00e3o e Barros Cassal estar\u00e1 completamente prompto at\u00e9 20 do corrente, o mais tardar. Depois disso, por\u00e9m, ter\u00e3o que esperar 21 dias para expo-lo ao trafego, tempo esse indispensavel para a secca completa do cimento.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 nos estavamos demorando demasiadamente naquelle ponto e, por isso, agradecendo as informa\u00e7\u00f5es que, sollicitamente nos havia ministrado o sr. Victor Galvani, cuja photographia tambem illustra esta pagina, nos despedimos e rumamos<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para a Floresta<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Onde o cal\u00e7amento est\u00e1, tambem, sendo atacado com grande actividade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Homens, em sua maioria de complei\u00e7\u00e3o robusta, ali se achavam entregues \u00e1 faina constructora do cal\u00e7amento do trecho que vae da rua Gaspar Martins at\u00e9 a rua Conde de Porto Alegre. O trabalho por enquanto est\u00e1 sendo feito somente na metade da rua, pelo lado esquerdo de quem, indo do centro, entra na rua Christov\u00e3o Colombo. \u00c9 que o lado opposto foi reservado para o trabalho sempre intenso daquella arteria pela qual se escoa, em grande parte, todo o movimento de vehiculos vindos dos arrabaldes de S\u00e3o Jo\u00e3o e Navegantes.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O sr. Manoel de Medeiros Junior, o capataz geral desta turma, com quem palestramos nos ministrou um punhado de informa\u00e7\u00f5es interessantes com referencia ao servi\u00e7o dos 200 operarios que ali trabalham sob a sua direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3084\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_floresta_w.jpg\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption><br \/>Obras na avenida Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, coordenadas pelo capataz Antonio de Medeiros Junior (em destaque). <em>Correio\u00a0do\u00a0Povo<\/em>, 17\/1\/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre. <br \/>Fot\u00f3grafo desconhecido, reprodu\u00e7\u00e3o da pesquisadora<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Disse-nos elle que o trabalho marcha \u00e1s mil maravilhas com enorme rapidez, havendo dias em que se chega a fazer 75 metros de avan\u00e7amento da construc\u00e7\u00e3o do cal\u00e7amento que \u00e9 todo elle feito de paralelepipedos, com rejuntamento de cimento.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; E qual o cimento que empregam nesse cal\u00e7amento?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; O cimento comum \u2013 respondeu-nos o nosso interlocutor e accrescentou: o Ferrocrete<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> s\u00f3 \u00e9 empregado quando ha necessidade de se entregar, com a maxima urgencia, o trecho cal\u00e7ado ao transito publico, casos em que n\u00e3o se pode dispensar a excellencia daquelle material que tem uma particularidade ainda n\u00e3o alcan\u00e7ada por nenhum outro qual seja a secca completa em tres dias, ao passo que os de mais qualidade levam 21 dias em media para poderem ser livremente transitados.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quanto aos salarios dos operarios que trabalham sob a sua direc\u00e7\u00e3o, informou-nos o sr. Manoel de Medeiros Junior que variam de 8$000 a 15$000 por dia, segundo a sua cathegoria. Assim, enquanto que os serventes de calceteiros percebem a diaria minima de 8$000, os soccadores ganham de 9$000 a 10$000 e os calceteiros s\u00e3o aquinhoados com salarios que oscillam entre 13$000 e 15$000 diarios.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Interpellado pelo nosso representante sobre quando calculava pudesse estar terminado aquelle trecho do cal\u00e7amento da Floresta, respondeu-lhe promptamente o capataz geral da turma que isso se daria at\u00e9 o proximo dia 25 do corrente gra\u00e7as ao esfor\u00e7o continuado que todos os operarios despendiam, sempre satisfeitos e cheios de boa vontade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Agora, com o prosseguimento da palestra, o sr. Antonio de Medeiros Junior nos estava fazendo uma revela\u00e7\u00e3o deveras interessante e intimamente ligada ao relevante problema social do proletariado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Explicava-nos elle que, apesar de toda uma enorme febre de trabalho, que mau grado esta sendo a cidade[?], por assim dizer quasi completamente revolvida pela picareta do progresso, ainda havia carencia de bra\u00e7os. E \u2013 accrescentou-nos \u2013 n\u00e3o fosse o grande numero de operarios que, de diversos pontos do interior do Estado e de f\u00f3ra delle, tem accorrido para a capital, todas as emprezas que est\u00e3o atacando estes multiplos servi\u00e7os se veriam embara\u00e7adas para a resolu\u00e7\u00e3o do problema.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Olhe \u2013 disse-nos elle \u2013 nesse trabalho da confec\u00e7\u00e3o\u00a0 das chapas de cimento, por exemplo, a maioria dos operarios s\u00e3o naturaes do Estado de Santa Catharina, de onde vieram em numero approximado a 300. E no que concerne a pontualidade no servi\u00e7o os \u2018catharinetas\u2019 s\u00e3o extraordinarios. Nunca falta um \u00fanico ao servi\u00e7o ao passo que os nossos numa turma de 300 s\u00f3 as p\u00f4de contar effectivos ao servi\u00e7o com pouco mais de 200. Ali\u00e1s \u2013 continuou \u2013 isto \u00e9 facilmente explicavel, razo\u00e1vel e justo, por isso que os \u2018catharinetas\u2019, n\u00e3o possuindo aqui familias, fizeram o seu acampamento commum l\u00e1 para os lados da Esta\u00e7\u00e3o do Riacho de onde saem todos, nos caminh\u00f5es da empreza, para o trabalho e dali voltam nos mesmos caminh\u00f5es para as refei\u00e7\u00f5es em commum e, \u00e1 noite, para o descan\u00e7o reconfortante do somno. Com os nossos operarios j\u00e1 n\u00e3o succede o mesmo. Elles tem as suas casas, e suas familias, no seus lares organisados onde, em companhia dos seus, se deixam ficar nos dias de anniversarios, ou mesmo quando por qualquer outra circumstancia n\u00e3o lhes appetece o trabalho.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E depois dessa palestra que j\u00e1 se ia tornando por demais longa, quando agradecendo a gentilesa com que o sr. Manoel de Medeiros Junior nos auxiliara a reportagem, delle nos despedimos, j\u00e1 nos assaltara a ideia de uma visita ao acampamento dos operarios de Santa Catharina, o que faremos num capitulo especial desta pagina.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>No caminho do meio<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nesta zona de actividade o nosso trabalho de reportagem iria sofrer uma pequena difficuldade, um amea\u00e7o de syncope ante um inexplicavel espirito de grosseira hostilidade ao final, felizmente, compensado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ao chegarmos ao Caminho do Meio indagamos de um dos muitos operarios que ali se encontravam em servi\u00e7o onde poderiamos falar com o capataz encarregado da direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mostraram-n\u2019o a pequena distancia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; \u00c9 aquelle que ali est\u00e1 de collete e len\u00e7o branco ao pesco\u00e7o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Agradecemos e chegamos at\u00e9 a pessoa indicada.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; O capataz da turma?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&#8211; Eu mesmo. O que ha?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Explicamos o fim que ali nos trazia e o justo desejo de colher algumas notas a exemplo das turmas j\u00e1 visitadas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u00c1 necessaria polidez da nossa parte o homenzinho retrucou com uma grosseria impertinente e tola e, ap\u00f3s meia duzia de respostas, propositadamente sem nexo feita no mesmo tom de baixa indelicadeza, virou-nos as costas abruptamente. Seu nome: Luiz Candiota&#8230;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Foi quando em soccorro de nossa legitima decep\u00e7\u00e3o veio um outro capataz de turma, o sr. Antonio Boni, que expontaneamente nos forneceu as rapidas notas que abaixo insermos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No Caminho do Meio, trecho compreendido pela avenida Bomfim ao Hospital Jesus Nazareno ser\u00e1 constru\u00edda uma larga faixa de cimento, a exemplo das existentes na capital e noticiadas em pormenores pelo \u2018Correio do Povo\u2019.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa pavimenta\u00e7\u00e3o de concreto occupa nada menos de 270 homens divididos em cinco turmas cada uma das quaes sob a direc\u00e7\u00e3o de um capataz, utilisando, ainda, duas machinas de grande capacidade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Segundo os calculos do nosso prestimoso informante essa facha [?], cuja necessidade se torna desnecessario frisar, estar\u00e1 prompta e entregue ao trafego dentro de um prazo estimado em 45 dias no maximo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O proletariado da municipalidade<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mas, n\u00e3o \u00e9 somente a empreza Dahne e Cia. que tem uma verdadeira legi\u00e3o de operarios sob suas ordens. A Intend\u00eancia Municipal, tambem, os possue e em grande numero, atacando os differentes servi\u00e7os ligados aos problemas da hydraulica, dos exgottos sanitarios, das aguas pluviaes, da fabrica\u00e7\u00e3o de tubos moldados e aramados.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para generalisar a reportagem, fomos, por isso, [&#8230;] na se\u00e7\u00e3o de Obras Novas, o chefe desta commiss\u00e3o, o dr. Emilio Lucio Esteves, a quem est\u00e3o diretamente subordinados todos os servi\u00e7os das 3\u00aa e 4\u00aa sec\u00e7\u00f5es, bem como a fiscaliza\u00e7\u00e3o dos exgottos sanitarios que a Intendencia tem contractado com a firma Ullen e Cia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Attendido, sollicitamente em seu gabinete de trabalho, aquelle engenheiro nos ministrou, gentil e promptamente, uma serie enorme de informa\u00e7\u00f5es, todas ellas de grande interesse e utilidade para a popula\u00e7\u00e3o rio-grandense.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Assim, gra\u00e7as \u00e1 gentileza do dr. Emilio Lucio Esteves ficamos sabendo que no servi\u00e7o de construc\u00e7\u00e3o da rede de distribui\u00e7\u00e3o d\u2019agua trabalham actualmente cerca de 400 operarios, que est\u00e3o agindo em diversas zonas, principalmente no Menino Deus e adjacencias. A rede daquelle arrabalde, j\u00e1 quasi concluida, estar\u00e1 prompta dentro de pouco mais de uma semana, devendo ser inaugurada, provavelmente, a 25 do corrente, em condi\u00e7\u00f5es de fazer a distribui\u00e7\u00e3o de agua, por um lado at\u00e9 a Gloria, e, pelo outro, at\u00e9 o Chrystal. Alem disso, esses operarios, sob a direc\u00e7\u00e3o de diversos engenheiros e technicos, ampliam as redes j\u00e1 existentes, principalmente nas zonas do Parthenon, Caminho do Meio, S\u00e3o Jo\u00e3o e Navegantes. Estes s\u00e3o os trabalhos affectos \u00e1 2\u00aa sec\u00e7\u00e3o da Commiss\u00e3o de Obras Novas da Municipalidade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A 4\u00aa sec\u00e7\u00e3o, por sua vez, attende a amplia\u00e7\u00e3o da rede de exgottos sanitarios nas zonas Rio Branco, Moinhos de Vento, Menino Deus e adjacencias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A rede da primeira dessas zonas j\u00e1 se encontra concluida, a dos Moinhos de Vento ficar\u00e1 prompta dentro de duas semanas e a do Menino Deus ser\u00e1 terminada possivelmente em mar\u00e7o proximo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3085\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_moinhos_w.jpg\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption><br \/>Obras no bairro Moinhos de Vento com trabalhadores da firma Ullen e Cia. <em>Correio\u00a0do\u00a0Povo<\/em>, 17\/1\/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre. Fot\u00f3grafo desconhecido, reprodu\u00e7\u00e3o da pesquisadora.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quanto \u00e1s aguas pluviaes \u2013 informou-nos o dr. Emilio Lucio Esteves \u2013 esta actualmente se collocando a canalisa\u00e7\u00e3o para o seu escoamento nas zonas que levam o novo cal\u00e7amento. Na fabrica de tubos se fabricam canos moldados para exgottos, para as aguas pluviaes e tubos armados para os po\u00e7os de visita para a rede de exgottos sanitarios.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nestes differentes servi\u00e7os emprega actualmente a Municipalidade 450 operarios, que, sommados aos 400 da 3\u00aa sec\u00e7\u00e3o, j\u00e1 nos fornecem o apreci\u00e1vel total de 950 trabalhadores.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A firma Ullen e Cia. \u00e9 quem est\u00e1 construindo os exgottos sanitarios do arrabalde do Menino Deus e adjacencias debaixo da fiscaliza\u00e7\u00e3o da 4\u00aa sec\u00e7\u00e3o da Commiss\u00e3o de Obras Novas da Intendencia Municipal, empregando nesse servi\u00e7o cerca de 400 operarios.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A 3\u00aa sec\u00e7\u00e3o tem produzido o assentamento medio de 10.000 metros de canalisa\u00e7\u00e3o para agua por m\u00eas e os canos para os exgotos sanitarios tem tido um asssentamento de 6.000 metros em media por mez, dos quaes 3.000 s\u00e3o feitos pela Intendencia e os restantes 3.000 pela firma Ullen e Cia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Na empreza contratante do cal\u00e7amento trabalham cerca de 300 operarios de Santa Catharina<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Alem disso, esclarece-nos, por ultimo, o dr. Emilio Lucio Esteves, a Intendencia Municipal tem, ainda, em diversas zonas turmas pequenas de operarios empregados nas liga\u00e7\u00f5es de agua, exgotto e installa\u00e7\u00f5es sanitarias em diversas zonas da cidade e a Directoria de Obras publicas tem sob suas ordens numerosas turmas para a reposi\u00e7\u00e3o de cal\u00e7amento e para a conserva\u00e7\u00e3o de estradas e ruas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quase todas essas concentra\u00e7\u00f5es operarias foram por n\u00f3s, tamb\u00e9m, visitadas, como o attestam algumas das photographias, que illustram esta pagina. Ali, como nos pontos em que a empreza Dahne e Mazzini est\u00e1 activando o cal\u00e7amento, fomos encontrar a mesma intensidade de trabalho, a mesma boa vontade por parte dos trabalhadores, que, como aquelles, se sentem orgulhosos pela coopera\u00e7\u00e3o que o seu bra\u00e7o vigoroso est\u00e1 prestando ao crescente desenvolvimento e embellezamento de Porto Alegre.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Rapido retrospecto<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Pelos dados acima anunciados, v\u00ea-se que os differentes servi\u00e7os de cal\u00e7amento, illumina\u00e7\u00e3o, etc., occupam mais de tres mil operarios diariamente, que podem se classificar assim:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3086\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/02\/cp_ahmmv_17-01-1929-grandes-obras-remodeladoras_p9_independc3aancia_w.jpg\" alt=\"\" \/>\r\n<figcaption>&#8220;A colloca\u00e7\u00e3o dos f\u00f3cos de Nova Lux, feita por operarios da Energia Electrica na rua Independencia.&#8221; <em>Correio\u00a0do\u00a0Povo<\/em>, 17\/1\/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre. <br \/>Fot\u00f3grafo desconhecido, reprodu\u00e7\u00e3o da pesquisadora.<\/figcaption>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>F. Dahne e Cia. 1.440 homens<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Intendencia Municipal &#8230; 1.400 \u201c<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>C. B. For\u00e7a Electrica &#8230; 311 \u201c<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Total &#8230; 3.151 \u201c<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mas, tendo em conta que esta ultima companhia, ap\u00f3s recep\u00e7\u00e3o de grande quantidade de material encommendado, augmentar\u00e1 o numero de seus operarios, e dado, ainda o crescente desenvolvimento das demais turmas e pedreiras, cremos n\u00e3o ser exagero computar em 5.000 o numero daquelles que emprestar\u00e3o seu concurso \u00e1 obra que serviu de thema \u00e1 presente reportagem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Os beneficios que della defluem [?] s\u00e3o por demais valiosos e meritorios, para que se fixem adjectiva\u00e7\u00f5es em seu louvor: a sua amplitude continuar\u00e1 sendo o seu mais claro e justo encomio.\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[<em>Autor desconhecido<\/em>]<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> A grafia original foi mantida. As lacunas de transcri\u00e7\u00e3o se devem a passagens ileg\u00edveis da imagem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Esp\u00e9cie de cimento de cura r\u00e1pida fabricado pela empresa Dahne &amp; Cia.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem-se nesta longa e detalhada reportagem do Correio do Povo um panorama muito interessante das grandes reformas urbanas por que passou Porto Alegre no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em especial com rela\u00e7\u00e3o aos seus trabalhadores e condi\u00e7\u00f5es de trabalho. 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