{"id":3008,"date":"2019-01-24T11:24:04","date_gmt":"2019-01-24T13:24:04","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=3001"},"modified":"2021-05-25T11:52:44","modified_gmt":"2021-05-25T14:52:44","slug":"meias-pretas-ou-saudades-de-um-look","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/meias-pretas-ou-saudades-de-um-look\/","title":{"rendered":"Meias pretas ou saudades de um look"},"content":{"rendered":"\n<p>Durante toda minha\npesquisa iconogr\u00e1fica sempre notei que, na passagem da d\u00e9cada de 1910 para a de\n1920, algumas mudan\u00e7as sens\u00edveis ocorreram na moda feminina. Muito embora eu j\u00e1\nsoubesse que a Primeira Guerra houvesse mudado radicalmente o modo de vestir das\nmulheres nas cidades europ\u00e9ias e, por circula\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e costumes, tamb\u00e9m\nnas brasileiras, um singelo artigo do jornal \u201cNovidades\u201d, de 1923, me chamou\naten\u00e7\u00e3o pois trata das <em>cores<\/em> da moda.<\/p>\n\n\n\n<p>O articulista desconhecido lamenta a moda das meias coloridas, elogiando as meias pretas como mais elegantes e modeladoras das pernas femininas. Observando diversas fotos dos anos imediatamente anterior, \u00e9 f\u00e1cil notar que as meias escuras pareciam mesmo predominar, dando um visual bem mais austero \u00e0 silhueta feminina.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-gallery columns-3 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/a-mascara_bndigital_1918_ed00020_p16_detalhe.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3002\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/a-mascara_bndigital_1918_ed00020_p16_detalhe\/\" class=\"wp-image-3002\" \/><figcaption>Revista  <em>Mascara<\/em>, Ed00020, 1918, p. 16. Hemeroteca da  <br>BNDigital. Fot\u00f3grafo desconhecido.<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/a-mascara_bndigital_1918_ed00020_p30_detalhejpg.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3003\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/a-mascara_bndigital_1918_ed00020_p30_detalhejpg\/\" class=\"wp-image-3003\" \/><figcaption> <br>Revista  <em>Mascara<\/em>, Ed00020, 1918, p. 30. Hemeroteca da  <br>BNDigital. Artista desconhecido. <\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/a-mascara_bndigital_1919_ed00045_p20_detalhe.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3004\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/a-mascara_bndigital_1919_ed00045_p20_detalhe\/\" class=\"wp-image-3004\" \/><figcaption> <br>Revista  <em>Mascara<\/em>, Ed00045, 1919, p. 20. Hemeroteca da  <br>BNDigital. Fot\u00f3grafo desconhecido. <\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"444\" height=\"1308\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3017\" data-link=\"https:\/\/becodorosario.com\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img\/\" class=\"wp-image-3017\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img.jpg 444w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-102x300.jpg 102w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-348x1024.jpg 348w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-3x10.jpg 3w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-432x1273.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-396x1167.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/novidades_bndigital_1923-ed0003_p3_img-75x220.jpg 75w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>Jornal <em>Novidades<\/em>, Ed0003, 1923, p. 3. Hemeroteca da  <br>BNDigital.<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Mas os anos 1920 trariam, possivelmente na trilha do prestigioso Paul Poiret, as cores vibrantes para a moda das mulheres, e, com elas, tamb\u00e9m os adere\u00e7os coloridos come\u00e7avam a invadir as ruas de Porto Alegre na hora do <em>footing<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/iribe_les_robes_de_paul_poiret_p27_wikimediacommons.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3005\" \/><figcaption>Iribe: <em>Les Robes de Paul Poiret<\/em>, p. 27. Fonte: WikimediaCommons<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desolado, o articulista cita mesmo alguns pontos da cidade em que a moda nova seria percept\u00edvel: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00a0[&#8230;] basta uma ligeira inspec\u00e7\u00e3o, mesmo feita pelo olhar distraido de algum melancolico frequentador do ponto de bondes, &#8211; nos escriptorios da For\u00e7a e Luz, ou \u00e1 frente do Cinema Central \u2013 para se v\u00ear que j\u00e1 n\u00e3o ha quase meias pretas.<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o satisfeito, o autor\ninterroga uma \u201csuprema autoridade\u201d, no entanto j\u00e1 tendo alertado para a\n\u201cincorrigivel volubilidade do sexo fraco\u201d. Inconformado, ouve que \u201co que est\u00e1\nem contacto com a pelle deve ser claro, fresco, luminoso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2019\/01\/meias-pretas_sketchbook_dez2018_w.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3006\" \/><figcaption>Estudo da pesquisadora no sketchbook, baseado em cena do filme <em>Dr.&nbsp;Mabuse<\/em>, 1922. Aquarela e bico de pena sobre papel, 2018.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Abaixo, a transcri\u00e7\u00e3o da\ncoluna na grafia da \u00e9poca:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><strong>O gosto das bellas e&#8230; o bom gosto<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A meia preta, de s\u00eada,\nque era, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, o encanto e o prestigio dos tornozellos femininos,\nest\u00e1 fora de moda. N\u00e3o \u00e9 de estranhar que morra de vez, dentro em breve, batida\npela meia de c\u00f4r. Neste caso, uma \u00fanica hypothese haver\u00e1 em que a mulher a\npossa admittir: a do luto rigoroso, ainda assim enquanto a incorrigivel\nvolubilidade do sexo fraco \u2013 <em>souvent\nfemme varie\u00ad<\/em>&#8230;<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>\n\u2013 n\u00e3o determinar que mesmo nessa emergencia \u00e9 de bom tom um vestido negro\ncaindo sobre uma meia roxa, que \u00e9 a cor da saudade e da d\u00f4r&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Como quer que seja, basta\numa ligeira inspec\u00e7\u00e3o, mesmo feita pelo olhar distraido de algum melancolico\nfrequentador do ponto de bondes, &#8211; nos escriptorios da For\u00e7a e Luz, ou \u00e1 frente\ndo Cinema Central \u2013 para se v\u00ear que j\u00e1 n\u00e3o ha quase meias pretas. E foi isto o\nque nos levou a um ligeiro inquerito jornalistico sobre o assumpto. Morta a\nmeia preta, qual a c\u00f4r preferida? Estariamos, porventura, na imminencia de uma\nressurei\u00e7\u00e3o da antiga meia branca, posta em voga pelas av\u00f3s de hoje, quando\nellas eram as mo\u00e7as chibantes [?] do seu tempo?<\/p>\n\n\n\n<p>A suprema autoridade a\nquem recorremos, na ancia de transmittir ao publico uma opini\u00e3o digna de\nacatamento, deu-nos sobre a materia todos os esclarecimentos. A meia preta,\npensa ella, \u00e9 uma heresia. O que est\u00e1 em contacto com a pelle deve ser claro,\nfresco, luminoso. De resto, o verdadeiro bom tom \u00e9 usar meias que combinem com\na c\u00f4r do vestido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E se o vestido f\u00f4r\npreto?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Neste caso, as meias\ndevem ser sempre claras.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 na verdade uma\nguerra contra a meia preta o que o mundo feminino declara. O vestido preto \u00e9 o\n\u00fanico que n\u00e3o tem o direito de exigir meias da mesma c\u00f4r&#8230; H\u00e1, al\u00e9m disso, um\nargumento de ordem economica: trata-se de uma meia mais fraca e nem por isso\nmais barata. A tinta preta enfraquece o tecido, tendo tambem a desvantagem de\ndesbotar, sujando os p\u00e9s, ao passo que as meias claras offerecem maior\nresistencia e, pois, t\u00eam maior durabilidade, sendo mais accesiveis \u00e1 lavagem e\n\u00e1 serzidura.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta saber se uma perna\ncal\u00e7ada em meia clara fica t\u00e3o bem modelada e t\u00e3o attraente como as que\nostentam uma bella meia preta de seda transparente. Consultadas as mulheres,\ncertamente teriamos a opini\u00e3o geral de que as penas s\u00e3o o que vale e n\u00e3o o que\nrepresentam as meias. Mas nem por isso deixaria de vir a proposito a cita\u00e7\u00e3o de\ndois versos de Musset, que illustram o assumpto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018<em>C\u2019est mon avis qu\u2019em somme um bas blanc bien tir\u00e9<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Est\nle bonheur supreme&#8230;<\/em>\u2019.<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, gosto de\naprender sobre como as cores foram sendo usadas na moda e na sua hist\u00f3ria, pois\nat\u00e9 mesmo algo t\u00e3o simples como uma cor de meia pode revelar muito sobre as\nsensibilidades de um momento. O jornalista, claramente saudoso, n\u00e3o teve chance\nalguma contra a determinada entrevistada, que reafirmou, o que na verdade,\nprovavelmente era uma manifesta\u00e7\u00e3o de autonomia feminina. Vale lembrar que, na\nimprensa da \u00e9poca, muito se discutia sobre o feminismo e um dos seus efeitos\nfoi n\u00e3o apenas a inser\u00e7\u00e3o maior das mulheres no mundo do trabalho e da esfera\np\u00fablica, mas tamb\u00e9m a op\u00e7\u00e3o por roupas pr\u00e1ticas e leves, especialmente para o\nclima brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>[Autor desconhecido] \u201cNovidades\u201d,\n1923, Ed0003, p. 3. Hemeroteca da BNDigital.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nTermo popular da virada do s\u00e9culo XIX para o XX que descrevia o passeio social\nao longo da Rua da Praia ao entardecer. Era onde as senhoras, senhores e\nsenhoritas da sociedade sa\u00edam para verem e serem vistas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>\n\u201cNovidades\u201d, 1923, Ed0003, p. 3. BNDigital. Dispon\u00edvel em: http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/docreader.aspx?bib=846554&amp;pesq=<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a>\n\u201cFrequentemente a mulher muda de id\u00e9ia&#8230;\u201d (tradu\u00e7\u00e3o da pesquisadora)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> \u201c\u00c9\nminha opini\u00e3o que uma meia branca bem esticada \u00e9 a felicidade suprema\u201d\n(tradu\u00e7\u00e3o da pesquisadora)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante toda minha pesquisa iconogr\u00e1fica sempre notei que, na passagem da d\u00e9cada de 1910 para a de 1920, algumas mudan\u00e7as sens\u00edveis ocorreram na moda feminina. Muito embora eu j\u00e1 soubesse que a Primeira Guerra houvesse mudado radicalmente o modo de vestir das mulheres nas cidades europ\u00e9ias e, por circula\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e costumes, tamb\u00e9m nas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3009,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[20,45,53,67],"class_list":["post-3008","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-aquarela","tag-historiacultural","tag-moda","tag-sketchbook","entry-image--portrait"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3008","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3008"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3008\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4947,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3008\/revisions\/4947"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3009"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}