{"id":2946,"date":"2018-11-23T20:06:52","date_gmt":"2018-11-23T22:06:52","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=2946"},"modified":"2021-05-25T11:53:04","modified_gmt":"2021-05-25T14:53:04","slug":"linguagem-popular-na-primeira-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/linguagem-popular-na-primeira-republica\/","title":{"rendered":"Linguagem popular na Primeira Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n<p>Talvez uma das maiores dificuldades de se tentar recriar uma \u00e9poca j\u00e1 distante numa hist\u00f3ria em quadrinhos seja manter alguma fidelidade com a linguagem popular ,do quotidiano e das pessoas comuns daquele tempo. <\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Brasil, sabe-se que o portugu\u00eas corrente teve um grande aporte das diversas culturas e l\u00ednguas africanas que aqui aportaram devido ao tr\u00e1fico atl\u00e2ntico de africanos escravizados. Conforme Ricardo Mendon\u00e7a (2012), \u201co negro influenciou sensivelmente a nossa l\u00edngua popular. Um contato prolongado de duas l\u00ednguas sempre produz em ambos fen\u00f4menos de osmose.\u201d<a href=\"#_ftn1\">[1]\u00a0<\/a>Nesse sentido, a especialista Yeda Pessoa de Castro detalha esse processo da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Inicialmente, o contingente de negros e afro-descendentes erasuperior ao n\u00famero de portugueses e outros europeus, durante tr\u00eas s\u00e9culosconsecutivos [&#8230;]. Aqui, merecem destaque a atua\u00e7\u00e3o socializadora da mulhernegra na fun\u00e7\u00e3o de m\u00e3e-preta no seio da fam\u00edlia colonial, e o processo desocializa\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica exercido pelos negros ladinos, aqueles que, aprendendorudimentos de portugu\u00eas, podiam falar a um n\u00famero maior de ouvintes, einfluenci\u00e1-los, resultando da\u00ed por adaptarem uma l\u00edngua a outra e estimularem adifus\u00e3o de certos fen\u00f4menos ling\u00fc\u00edsticos entre os n\u00e3o bil\u00edngues.<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ainda assim, dificilmente\nsendo registrado pela l\u00edngua escrita nos documentos oficiais, esse portugu\u00eas\npopular aparece na literatura e imprensa em estreita associa\u00e7\u00e3o com personagens\nnegros. O primeiro exemplo encontrado vem da charge publicada na <em>Revista Ilustrada<\/em> (1884):<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"533\" height=\"500\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2947\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8.jpg 533w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8-300x281.jpg 300w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8-10x10.jpg 10w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8-432x405.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8-396x371.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/silva-as-camc3a9lias-do-leblon_revista-ilustrada-ano-9-378-1884-p8-235x220.jpg 235w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption>Figura 1. Revista Ilustrada, ano 9, n. 378, 1884, p. 8.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nela, pode-se ler a seguinte legenda:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c- O-\u00f4 cu\u00f4\ni l\u00ea l\u00ea, pai Zu\u00e3o. Sabe? N\u00f3s v\u00e1 fica tudo foro.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>-Si\u00f4 Clapi d\u00e1 carta de liberdade \u00e1 todo afiricano.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; [N\u00ea\/]U\u00ea!\u201d<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse di\u00e1logo pode-se\nreconhecer o que parece ser uma influ\u00eancia ainda mais forte das l\u00ednguas\nsub-saarianas no portugu\u00eas falado pelos dois personagens. Um pouco mais tarde,\nmais especificamente em Porto Alegre, no romance <em>O Perd\u00e3o<\/em> (1910), de Andradina de Oliveira, tamb\u00e9m podemos encontrar\no registro de linguagem semelhante nas personagens negras da hist\u00f3ria:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Resmungando p\u00f4s-se a cortar a vianda em tantos peda\u00e7os quantoos pobres \u2013 <em>cambuiada <\/em>de <em>vadio<\/em>! E a gente que se amole, que se <em>alevanteco\u2019escuro, pr\u00e1 ench\u00ea<\/em> a pan\u00e7a dos <em>vagabundo<\/em>! <em>Esgargados <\/em>doinferno! <em>Int\u00e9<\/em> lambem os <em>prato<\/em>, os <em>fedorento<\/em>! Como n\u00e3o <em>haver\u00e1<\/em>de <em>s\u00ea<\/em>! Onde os <em>nojento<\/em> v\u00e3o <em>acha mi\u00f3<\/em> petisco!<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>e<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>-Pobre <em>v\u00e9ia. C\u00e1<\/em> coitada, que \u00e9 da <em>famia<\/em>, poucose importam&#8230; O que <em>sa<\/em> Zina gasta com a <em>cambuiada<\/em> dos <em>vadio<\/em>dava pra <em>sa Barutinha viv\u00ea<\/em> sossegada num cantinho; <em>\u00a0mais <\/em>\u00e9 tudo <em>pr\u00e1<\/em> os <em>mauagardecido! Insmola<\/em> escondida n\u00e3o \u00e9 bonito. \u00c9 <em>mi\u00f3 entr\u00e1 <\/em>a <em>cambuiada:ansim<\/em> o povo pensa que tudo aqui tem <em>b\u00e3o <\/em>cora\u00e7\u00e3o! <em>Despois<\/em> os <em>nome<\/em>vai <em>pr\u00e1<\/em> o <em>jorn\u00e1<\/em>. A Eva \u00e9 burra <em>mais <\/em>entende as <em>coisa<\/em>.<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, o romance<em> Clara dos Anjos<\/em> (1922), de Lima Barreto,\ntraz express\u00f5es bastante semelhantes na passagem em que a personagem In\u00eas, uma\nmulher negra, vem confrontar Cassi Jones numa taverna dos becos do Rio de\nJaneiro:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>De dentro da taverna, com passo apressado, veio ao seuencontro uma negra suja, carapinha desgrenhada, com um caco de penteatravessado no alto da cabe\u00e7a, cal\u00e7ando umas remendadas chinelas de tapete.Estava meio embriagada. [&#8230;]<\/p><p>A negra, bamboleando, p\u00f4s as m\u00e3os nas cadeiras e fez comolhar de desafio:<\/p><p>&#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o me conhece mais, \u2018seu canaia\u2019? Ent\u00e3o voc\u00ean\u00e3o \u2018si\u2019 lembra da In\u00eas, aquela crioulinha que sua m\u00e3e criou e voc\u00ea&#8230;<\/p><p>[&#8230;]<\/p><p>&#8211; Voc\u00ea sabe onde \u2018t\u00e1\u2019 teu \u2018fio\u2019? \u2018T\u00e1\u2019 na deten\u00e7\u00e3o, fique voc\u00easabendo. \u2018Si\u2019 meteu com ladr\u00e3o, \u00e9 \u2018pivete\u2019 e foi \u2018pra chac\u2019ra\u2019. Eis a\u00ed o quevoc\u00ea fez, \u2018seu marvado\u2019, \u2018home mardi\u00e7oado\u2019. Pior do que voc\u00ea s\u00f3 aquelagalinha-d\u2019angola de \u2018tua\u2019 m\u00e3e, \u2018seu\u2019 sem-vergonha! <\/p><p>[&#8230;]<\/p><p>&#8211; \u2018Oie\u2019 \u2013 disse ela, para os circunstantes -; ele diz que n\u00e3o\u00e9 o tal. Agora \u2018memo se acusou-se\u2019, quando chamei a ratazana da m\u00e3e dele degalinha-d\u2019angola&#8230; \u00c9 uma \u2018marvada\u2019, essa m\u00e3e dele \u2013 uma \u2018v\u00e9ia\u2019 cheia de\u2018impos\u00e3o\u2019 de ingl\u00eas. Ingl\u00eas, que ingl\u00eas&#8230; <\/p><p>[&#8230;]<\/p><p>&#8211; \u2018Tu\u2019 \u00e9 \u2018mao\u2019, mas tua m\u00e3e \u00e9 pior. Quando ela descobriu\u2018qui\u2019 eu \u2018tava\u2019 com \u2018fio\u2019 na barriga, \u2018mi pois\u2019 pela porta afora, sem pena, semd\u00f3 \u2018di\u2019 eu n\u00e3o \u2018t\u00ea pronde \u00ed\u2019. E o \u2018fio\u2019 era neto dela e ela \u2018mi\u2019 tinhacriado&#8230; Vim da ro\u00e7a&#8230; Ah! Meu Deus! Se n\u00e3o fosse uma amiga, tinha posto o\u2018fio\u2019 fora, na rua, que era servi\u00e7o&#8230; Deus perdoe a \u2018tua\u2019 m\u00e3e o que \u2018mi\u2019 fez\u2018i\u2019 a meu \u2018fio\u2019, \u2018fio\u2019 deste \u2018qui t\u00e1 i\u2019, tamb\u00e9m, Deus lhe perdoe! [&#8230;]<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nos dois casos mais recentes, pode-se perceber a proximidade que as express\u00f5es populares do in\u00edcio do s\u00e9culo XX ainda guardam com muitas ainda correntes no s\u00e9culo XXI, indicando a sens\u00edvel perman\u00eancia da influ\u00eancia das l\u00ednguas da \u00c1frica subsaariana no portugu\u00eas brasileiro da contemporaneidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a>\nMENDON\u00c7A, Renato. <em>A influ\u00eancia africana no portugu\u00eas do Brasil<\/em>. Bras\u00edlia : FUNAG,\n2012. E-book dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/funag.gov.br\/loja\/download\/983-Influencia_Africana_no_Portugues_do_Brasil_A.pdf\">http:\/\/funag.gov.br\/loja\/download\/983-Influencia_Africana_no_Portugues_do_Brasil_A.pdf<\/a>\np. 80.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>\nCASTRO, Yeda Pessoa de. <em>Das l\u00ednguas\nafricanas ao portugu\u00eas brasileiro<\/em>. In: <em>Patrim\u00f4nio\n<\/em>\u2013 Revista Eletr\u00f4nica do IPHAN. Dossier L\u00ednguas do Brasil. Artigo dispon\u00edvel\nem http:\/\/www.labjor.unicamp.br\/patrimonio\/materia.php?id=214<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a>\n<em>Revista Ilustrada<\/em>,\nano 9, n. 378, 1884, p. 8. In: SILVA,\nEduardo. <em>As cam\u00e9lias do Leblon e aboli\u00e7\u00e3o\nda escratura: uma investiga\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria cultural<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia\ndas Letras, 2003. p. 18.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> OLIVEIRA, Andradina.<em> O Perd\u00e3o.<\/em> Florian\u00f3polis: Ed. Mulheres,\n2010 [1910]. P. 60.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> OLIVEIRA, Andradina.<em> O Perd\u00e3o.<\/em> Florian\u00f3polis: Ed. Mulheres,\n2010 [1910]. P. 79.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a>\nBARRETO, Lima. <em>Clara dos Anjos.<\/em>\n[1922] Minist\u00e9rio da Cultura. Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional. Departamento\nNacional do Livro. E-book dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.dominiopublico.gov.br\/download\/texto\/bn000048.pdf\">http:\/\/www.dominiopublico.gov.br\/download\/texto\/bn000048.pdf<\/a>.\npp. 65-66.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como descobrir como as pessoas comuns falavam h\u00e1 mais de cem anos?<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[349],"tags":[50,57,61],"class_list":["post-2946","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidade","tag-linguagem","tag-pesquisa","tag-primeirarepublica","entry-image--landscape"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2946"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2946\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4951,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2946\/revisions\/4951"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}