{"id":1949,"date":"2017-05-04T15:06:56","date_gmt":"2017-05-04T18:06:56","guid":{"rendered":"http:\/\/becodorosario.com\/?p=1949"},"modified":"2021-05-25T11:55:53","modified_gmt":"2021-05-25T14:55:53","slug":"alcides-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/alcides-cruz\/","title":{"rendered":"Alcides Cruz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">\u201c[&#8230;] eu n\u00e3o me molesto com os ep\u00edtetos mesti\u00e7o, mulato ou negro\u201d: Trajet\u00f3ria e escritas de si de um professor negro: Dr. Alcides de Freitas da Cruz[1]<\/span><span style=\"font-weight:400;\"> (1867-1916)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Anota\u00e7\u00f5es da palestra do Prof. Paulo Roberto Moreira (UNISINOS), em 16\/11\/2016.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Nascido em 14 de maio de 1867, em Porto Alegre, Alcides Cruz foi jurisconsulto, professor e um dos fundadores da Faculdade de Direito, que depois passou \u00e0 UFRGS<\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">. <\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\">Tamb\u00e9m era<\/span> <span style=\"font-weight:400;\">filiado ao PRR (Partido Republicano Riograndense), que conduziu o Estado durante toda a Primeira Rep\u00fablica. Apesar de sua import\u00e2ncia intelectual, sujeitos como Alcides Cruz e Aur\u00e9lio Vir\u00edssimo de Bittencourt permanecem poucos conhecidos, invisibilizados, e tem seu pertencimento \u00e0 identidade negra apagado. Aur\u00e9lio, por sua vez, foi chefe de gabinete de ningu\u00e9m menos que J\u00falio de Castilhos, presidente do Estado por duas vezes e autor da Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, e seus filhos fundaram o jornal <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">O Exemplo<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\">. Essas trajet\u00f3rias de pessoas negras n\u00e3o diretamente atingidas pela escravid\u00e3o t\u00eam import\u00e2ncia fundamental para descobrir como lideran\u00e7as como Alcides Cruz surgiram, sendo tamb\u00e9m encontrados nas associa\u00e7\u00f5es negras religiosas, como o clube <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">13 de Maio<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\">, em Santa Maria, e a <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">Irmandade do Ros\u00e1rio<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\"> em Porto Alegre.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<figure id=\"attachment_1954\" aria-describedby=\"caption-attachment-1954\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1954 aligncenter\" src=\"https:\/\/becodorosario.files.wordpress.com\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs.jpg\" alt=\"Alcides Cruz - IHGRS\" width=\"495\" height=\"722\" srcset=\"https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs.jpg 495w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs-206x300.jpg 206w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs-7x10.jpg 7w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs-432x630.jpg 432w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs-396x578.jpg 396w, https:\/\/www.analuizakoehler.com\/becodorosario\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/alcides-cruz-ihgrs-151x220.jpg 151w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 91vw, (max-width: 900px) 600px, (max-width: 1060px) 50vw, (max-width: 1200px) 520px, (max-width: 1400px) 43vw, 600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1954\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: IHGRS<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Na foto que se tem de Alcides Cruz, ele parece como os d\u00e2ndis do s\u00e9culo XIX, na mesma linha intelectual e urbana de Oscar Wilde. De fato, Alcides Cruz era um intelectual \u00a0formado em Direito em S\u00e3o Paulo em 1897, lecionando na mesma faculdade de Porto Alegre, \u00a0e deputado em cinco legislaturas pelo PRR, partido em que havia tamb\u00e9m outros afiliados negros. Se, durante a monarquia, j\u00e1 havia forte presen\u00e7a negra no Partido Liberal, com o regime republicano abrem-se mais espa\u00e7os para o funcionalismo p\u00fablico, em que muitos membros da comunidade negra encontram oportunidades de ascens\u00e3o social. Nesse sentido, Alcides foi irm\u00e3o das Dores[2],<\/span><span style=\"font-weight:400;\">\u00a0uma comunidade religiosa de elite, e, assim, \u00e9 &#8220;branqueado&#8221;, enquanto acessando espa\u00e7os predominantemente brancos. Contudo, seu pertencimento negro \u00e9 percebido na sua trajet\u00f3ria familiar: Alcides Cruz foi casado com Severina Pereira (Santos) uma mulher negra, tendo com ela a filha Zo\u00e9 Cruz Barcelos. O irm\u00e3o, Leopoldo de Freitas, \u00e9 citado como advogado e o pai, Manoel Pinto Lacerda da Cruz, \u00e9 pernambucano e falece nos primeiros anos de vida de Alcides, que se identifica ao pertencimento negro de sua m\u00e3e, Adelaide Leopoldina de Freitas, n\u00e3o referindo o pertencimento de cor do pai. A m\u00e3e de Adelaide \u00e9 Estefania Maria da Assun\u00e7\u00e3o, filha de \u201cpardos forros\u201d, ou seja, em rela\u00e7\u00e3o direta com a escravid\u00e3o. O seu sobrenome cat\u00f3lico \u00e9 comum na comunidade negra, forjando uma identidade livre brasileira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Na Porto Alegre da Primeira Rep\u00fablica, \u00e9 poss\u00edvel ter uma id\u00e9ia de como era o racismo partir dos escritos de Alcides Cruz. Sabe-se que, em torno em torno de 1916, o ep\u00edteto de <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">mulato<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\"> era usado como inj\u00faria. O racismo permeava ainda mais as rela\u00e7\u00f5es sociais, e poucos corajosos assumiam sua identidade negra abertamente. No caso de Alcides Cruz, o pertencimento racial est\u00e1 invisibilizado, por\u00e9m aparece no momento em que, assim como tantos outros membros da comunidade negra, Alcides Cruz tamb\u00e9m \u00e9 v\u00edtima de inj\u00farias racistas. J\u00e1 na \u00e9poca, as respostas dessa comunidade mostram como ao menos uma parte dela estava atenta e politizada para defender-se de inj\u00farias e preconceitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Nesse contexto, houve momentos em que Alcides Cruz se recorreu \u00e0 imprensa para se manifestar contra inj\u00farias raciais, em que se perguntava como compreender o racismo num pa\u00eds t\u00e3o miscigenado, como numa querela de 1903[3]<\/span><span style=\"font-weight:400;\">, que parece antecipar o questionamento de Gilberto Freyre[4]<\/span><span style=\"font-weight:400;\">\u00a0em 30 anos. A\u00ed, a sua \u201cescrita de si\u201d chega at\u00e9 os nossos dias, fazendo tamb\u00e9m um discurso pol\u00edtico sobre a sociedade em que ele est\u00e1. N\u2019A Federa\u00e7\u00e3o, em suas edi\u00e7\u00f5es de 11\/1\/1903 e 12\/1\/1903, Artur Pinto da Rocha procura insultar Alcides chamando-o de \u201cmesti\u00e7o, mulato ou negro\u201d, \u201ccorvo\u201d, o que pode ser entendido como ofensa se visto na ret\u00f3rica da di\u00e1spora, Alcides mostra e reafirma sua perten\u00e7a \u00e0 comunidade negra com eloqu\u00eancia eleg\u00e2ncia. Cabe salientar que, no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, \u201cnegro\u201d era uma palavra injuriosa pois ainda associada ao trabalho escravo, mostrando o car\u00e1ter <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">racializado <\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\">da escravid\u00e3o no Brasil. Muitos negros diferenciam-se, portanto, afirmando-se como \u201cpardos\u201d, e, em seu atestado de \u00f3bito, Alcides \u00e9 categorizado como pardo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">N\u2019A Federa\u00e7\u00e3o de 9\/7\/1913, ele remete sua identidade negra \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 av\u00f3, mostrando o papel da presen\u00e7a <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">feminina<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\"> para afirmar a perten\u00e7a negra. O mesmo se d\u00e1 com Aur\u00e9lio Vir\u00edssimo de Bittencourt, cuja m\u00e3e \u00e9 negra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><span style=\"font-weight:400;\">Ap\u00f3s sua morte, sua biblioteca foi doada \u00e0 Faculdade de Direito, e pelos seus livros pode-se tra\u00e7ar sua trajet\u00f3ria intelectual: Alcides legou 1837 livros \u00e0 biblioteca, o que para a \u00e9poca era enorme, dada a dificuldade de circula\u00e7\u00e3o de livros. Tratava-se de uma biblioteca de intelectual de excel\u00eancia, com muita literatura brasileira e internacional, gram\u00e1ticas e dicion\u00e1rios, livros em franc\u00eas, ingl\u00eas, italiano e alem\u00e3o, diversidade e riqueza intelectual que pode colocar Alcides Cruz como um int\u00e9rprete do Brasil trazendo um vi\u00e9s racial. Tamb\u00e9m havia muitos livros de Direito em italiano por ser a escola penal italiana na \u00e9poca muito evidenciada pela antropologia criminal de Lombroso e Garofalo. Sobre ra\u00e7a e evolucionismo, Alcides tinha volumes de Delage, Goldsmith Nina Rodrigues, este \u00faltimo um pardo brasileiro formado em medicina que discute racismo de forma muito influenciada pelas teorias racistas. Assim, v\u00ea-se que Alcides Cruz inteirou-se da discuss\u00e3o cient\u00edfica sobre ra\u00e7a da \u00e9poca, ou seja, sua perten\u00e7a \u00e0 identidade negra era informada sobre teorias da \u00e9poca. Al\u00e9m disso, dominava o alem\u00e3o e se correspondia com intelectuais alem\u00e3es, traduziu um livro do ingl\u00eas, escreveu cr\u00edtica liter\u00e1ria, como o Quincas Borba, de Machado de Assis, e na Revista do Brasil (SP), no final do s\u00e9culo XIX.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Refer\u00eancias:<\/p>\n<p><span style=\"font-weight:400;\">[1]Informa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m dispon\u00edveis em https:\/\/www.ihgrgs.org.br\/fragmentos\/Biblioteca%20-%20Homenagem%20Alcides%20Cruz.pdf<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight:400;\">[2]Igreja das Dores, na rua Duque de Caxias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight:400;\">[3]Sobre esse epis\u00f3dio e o de 1913, ver https:\/\/www.ihgrgs.org.br\/ebooks\/Ebook%20-%20ALCIDES%20CRUZ%20-%20Mestico,%20mulato%20ou%20negro.pdf<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight:400;\">[4]Em seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight:400;\">Casa Grande e Senzala<\/span><\/i><span style=\"font-weight:400;\">, de 1933.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c[&#8230;] eu n\u00e3o me molesto com os ep\u00edtetos mesti\u00e7o, mulato ou negro\u201d: Trajet\u00f3ria e escritas de si de um professor negro: Dr. Alcides de Freitas da Cruz[1] (1867-1916) Anota\u00e7\u00f5es da palestra do Prof. Paulo Roberto Moreira (UNISINOS), em 16\/11\/2016. 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