A história da cidade através dos nomes pitorescos de algumas de suas ruas (1)

O interesse na história da cidade parece se aguçar ainda mais quando ela está se transformando rapidamente, como no distante ano de 1929. Nesse ano, a Catedral Metropolitana, de arquitetura colonial portuguesa, seria demolida, assim como a tradicional Capela do Divino. O antigo Beco do Rosário e a General Paranhos já davam lugar a avenidas modernas. Assim, a bela reportagem fotográfica do Correio do Povo de 14/4/1929 traz um pouco da memória da cidade que ia desaparecendo, vista pelos olhos da época.

Os nomes das ruas e espaços das cidades mudam constantemente, acompanhando costumes populares, ideologias, mudanças de regime, e, é claro, o crescimento urbano. Afinal, na Porto Alegre do século XIX ainda se poderia saber quem era o dono da única casa de jogo da bola, mas na do século XX já havia vários donos de centros de diversão. Assim, os nomes usados para navegar o espaço urbano em expansão também mudam, e vão se tornando marcadores da memória inscrita no espaço, que aqui o jornalista e fotógrafo anônimos apresentam.

“A história da cidade através os nomes pittorescos de algumas das suas ruas[1]

Nomes que ficam e nomes que desapparecem – Aquelles são bem mais numerosos que estes – Nomes antigos e a tradição popular – A rua dos Andradas, antes de ser ‘da Praia’, chamou-se ‘da Graça’ – Onde se localizaram a ‘Cova da Onça’ e a rua dos peccados Mortaes – A origem de varias denominações curiosas

O primeiro theatro que funccionou, regularmente, em Porto Alegre, foi da o Opera, na hoje rua Uruguay, antiga do Commercio e, então becco da Opera

As ruas mais antigas das cidades teem, quasi sempre, uma [anto]nomasia. Ao lado do seu nome actual, ou official, que figura nas placas das esquinas que nem sempre a população conhece bem, ellas guardam por larguissimo tempo, o seu ‘apellido’, que é o seu nome tradicional e caracteristico.

É verdade que algumas conseguem, ao cabo de pouco tempo, impôr a denominação com que a Municipalidade as baptisou, menos para contrariar a tradição do que para cultuar algum nome illustre. Mas estas não são numerosas, como se verá.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“A história da cidade através…”. Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

Antigas denominações pittorescas

As ruas mais antigas de Porto Alegre teem, quasi todas, além das denominações que ficaram nos guias e nos documentos officiaes, os nomes antigos por que são, ainda hoje, conhecidas. Esses nomes não apenas resistiram á deliberação municipal como parece que por largos annos ainda servirão para designar aquellas vias publicas. Afóra a rua da Varzinha, que vem sido hoje já conhecida pelo nome actual de Demetrio Ribeiro e Direita, que cedeu passagem à denominação de General Canabarro, todas as demais antigas ruas são mais populares pelos apellidos que lhes ficaram.

É que esses nomes exprimem alguma coisa, ao passo que as denominações modernas perpetuam nomes que, ás vezes, a maior parte da população ignora as razões que os tornaram illustres.

A ‘Praça do portão’, por exemplo, não é um nome mais sugestivo do que o de Conde de Porto Alegre? Não só pelo que elle lembra como por mais facil de guardar. Sabe toda a população que o Conde de Porto Alegre, grande soldado e grande brasileiro, fez jús á homenagem que foi prestada dando o seu nome a um antigo e historico logradouro publico.

Mas, a verdade é que os porto-alegrenses não se deshabituaram, ainda, de chamal-a do Portão.

Nomes e cognomes

Mas, vejamos, rapidamente com os nomes actuaes, as antigas denominações de algumas ruas e praças de Porto Alegre.

Em diversas destas chronicas urbanas em que temos reconstituido alguns aspectos de Porto Alegre de outrora, tivemos opportunidade de dizer que Porto Alegre nasceu na zona compreendida pela rua General Salustiano, Pantaleão Telles[2], João Alfredo, Praça Conde de Porto Alegre, Misericordia[3], Voluntarios da Patria, 7 de Setembro e praça da Harmonia.

É, pois, natural que as ruas mais antigas da cidade ahi estejam localizadas.

Dellas nos vamos occupar.

A General Salustiano

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Salustiano em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Salustiano em destaque.

Berço da cidade. O seu nome primitivo era Praia do Arsenal, o qual se extendia também á rua dos Andradas. A Praia do Arsenal propriamente dita, que ia da rua do Arrio até a praça da Harmonia, e onde a garotada costumava banhar-se, chamava-se ‘Vassourinha’.

Praça da Harmonia

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a Praça da Harmonia em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a Praça da Harmonia em destaque.

Foi um dos mais pittorescos logradouros publicos da cidade. Ha cerca de dez annos, o Governo do Estado, por imperativo das obras do caes, transformou-a em deposito de machinas e materiaes e em vasta officina. Vieram abaixo as suas seculares arvores, a cuja sombra varias gerações sonharam.

Até o seu desapparecimento, era o ponto predilecto dos bohemios romanticos e dos poetas, à noite.

Ficou celebre o seu luar filtrado através das cópa verde-negro das velhas arvores.

Desde que ali começaram as execuções – este capítulo constituirá uma das nossas proximas chronicas – ella se chamou Largo da Forca. Mais tarde passou a chamar-se Praça do Arsenal. Depois, da Harmonia, e, por fim, Martins de Lima, que foi com o nome com que desappareceu.

Ha cerca de 30 annos funccionou, ali, um parque de patinação e possuiu ella, até quasi os seus ultimos dias, um bello chafariz.

Andradas

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua da Praia em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua da Praia em destaque.

Seu primeiro nome official foi rua da Graça.

Mais tarde, o trecho que vae da rua General Salustiano até a Ladeira, passou a denominarse rua da Praia, nome por que, mais tarde, se fez conhecida até o alto da Caridade, hoje praça D. Feliciano.

O nome de rua da Praia vem-lhe do facto do Guahyba vir beijal-a.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“A rua dos Andradas, antiga da Praia, e, primitivamente, da Praça, vista do alto da praça ‘da Caridade'”. Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

Riachoelo

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Riachuelo em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Riachuelo em destaque.

Da rua general Salustiano, isto é, desde a Cadeia, até á praça da Matriz, rua do Cotovello, em consequencia do angulo que perto daquela praça ella descreve. Dahi até a praça do Portão – rua da Ponte, nome que em breve se generalisou.

Conta Augusto Porto Alegre, em sua ‘Historia da Fundação de Porto Alegre’, de que muito nos soccorremos para essas notas, que ali por altura do becco do Poço, hoje futura Avenida Borges de Medeiros, havia uma fonte de serventia publica que era guardada por sentinellas do palacio. Nesssa fonte existia um grande kagado que foi morto a pedradas pela garotada.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“A rua Riachuelo, antiga da Ponte, vista para o lado da Pantaleão Telles”. Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

 

General Canabarro

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Canabarro em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Canabarro em destaque.

O seu primeiro nome foi becco do Pedro Mandinga.

Mais tarde, o trecho da rua da Varzinha[4] até a do Arvoredo[5] – Cova da Onça.

Depois toda ella – Direita de São José e Conde de Porto Alegre.

Direita por que é quebrada á rua da Igreja.

Conde de Porto Alegre por se localizar nella, até hoje, o solar daquelle titular.

É esta uma das poucas ruas que não souberam conservar os seus nomes tradicionaes, pois ha trinta annos, talvez era ella ainda conhecida por Direita, ao passo que hoje poucos sabem ter ella tido tal denominação.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“O cotovello da actual rua General Canabarro, que deu origem ao seu nome primitivo de rua Direita.” Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

 

Rua do Arroio[6]

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Bento Martins em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua General Bento Martins em destaque.

Como se sabe, a collina em que se foi edificando a cidade, nos seus primeiros dias, era toda cortada de regatos.

Um desses pequenos cursos de agua formava um valle ao centro da rua do Arroio, que então cortava alguns casebres.

Foi o que lhe deu o nome por que até hoje é mais conhecida.

Um dos seus trechos chamou-se Rua dos Sete Peccados Mortaes. É aquelle compreendido entre a rua dos Andradas e Riachoelo.

Veiu-lhe essa denominação de sete casebres horriveis ali construidos e occupados por mulheres de má vida que, pelo aspecto exterior, eram verdadeiros peccados mortaes…

Da rua Riachoelo até a Duque de Caxias, Rua do Jogo da Bola, porque ali foi instituido o primeiro jogo da bola de Porto Alegre, de propriedade de Antonio Pereira da Silva.

Da rua Duque de Caxias até Pantaleão Telles – Rua dos Nabos a 12. Desconhece-se a origem desta denominação.

A praia desta rua, que é aos fundos do Arsenal, chamava-se ‘Varrourinha’, como já dissemos.

Rua Duque de Caxias

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Duque de Caxias em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Duque de Caxias em destaque.

Esta rua está, aos poucos, perdendo o seu nome tradicional de rua da Igreja.

Muito breve será conhecida apenas pelo seu nome actual, a exemplo do que occorreu com a já citada rua General Canabarro.

São curiosas as suas denominações antigas.

Outr’ora, da rua General Salustiano até Vasco Alves, chamava-se Rua Tavares.

Dahi até a praça da Matriz, Rua Formosa.

Da praça da Matriz á Bragança[7] – São José e Igreja, nome que depois se generalisou para toda a sua extensão. E desta ultima até a praça do Portão – Rua do Hospicio, ou Hospital e, mais tarde, Alegre.

Rua da Varzinha

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Demétrio Ribeiro em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Demétrio Ribeiro em destaque.

Como varias outras ruas da cidade, a hoje Demetrio Ribeiro tem um cotovello quasi no seu inicio.

Começa ella á rua Pantaleão Telles, defronte do ponto onde estão reconstruindo a garage do Tamandaré e termina na Rua da Figueira[8].

Ainda hoje essa via publica, localisada na zona conhecida por Cidade Baixa, é mais popular por Rua da Varzinha.

O seu trecho compreendido entre Pantaleão Telles e Vasco Alves, chamava-se Rua da Bahia, nome por que até hoje é conhecida, muito embora, mais tarde toda ella passase a chamar-se da Varzinha e, depois, Demetrio Ribeiro.

O trecho que primitivamente se denominou Varzinha – da rua Vasco Alves até á da Figueira, teve, ainda os nomes de Becco do Forno e D. Izabel, em homenagem á visita da princeza Izabel.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“A rua Demetrio Ribeiro, antiga da Varzinha”. Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

Rua do Arvoredo

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Fernando Machado em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Fernando Machado em destaque.

Esta via publica, que se chama hoje Coronel Fernando Machado, é parallela á da Varzinha.

Ainda, hoje, apezar do nome que a Municipalidade lhe deu, é ella mais conhecida por Arvoredo.

De onde lhe veio tal denominação?

De haver nella muitas arvores ‘onde mais abundavam as casas de capim; a unica de telhas e de tijolos que nella existia era a padaria de Manoel Luiz’.

Ali na rua do Arvoredo existiu o becco do Céo, demolido ha pouco mais de vinte annos.

Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.
“Rua coronel Fernando Machado. Trecho que lhe deu o primitivo nome de Arvoredo”. Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV.

Rua do Commercio

Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Uruguai em destaque.
Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1916 (IHGRGS) mostrando a rua Uruguai em destaque.

A actual rua Uruguay, nome com que a população ainda não se habituou, pois que continua a chamal-a de rua do Commercio.

O seu primitivo nome era Becco da Opera, denominação que rarissimos hoje se lembram.

Este nome, teve-o esta rua em virtude de se haver localisado ali, o primitivo theatro da cidade – o theatro da Opera. Outros haviam existido, mas não de construcção permanente como esse.

Era elle de madeira e occupado por amadores, alguns dos quaes se notabilisaram naquella época.

Esse theatro viveu durante muitos annos e delle voltaremos a nos occupar-nos em nossas chronicas urbanas.

Por ora…

…basta.

Grande numero de ruas da capital, conservam, como as que ahi ficaram, denominações pittorescas.

Em nossa proxima chronica focaremos as outras, cuja historia, como se poude verificar acima, faz systema com a historia da cidade.”

Autoria desconhecida.

Referências:

[1] Correio do Povo, 14/4/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV. A grafia original foi mantida.

[2] Atual rua Washington Luiz.

[3] A Santa Casa de Misericórdia.

[4] Atual rua Demetrio Ribeiro.

[5] Atual rua Coronel Fernando Machado.

[6] Atual rua General Bento Martins.

[7] Atual rua Marechal Floriano Peixoto.

[8] Atual rua Coronel Genuíno.

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