Um novo gênero de moça

Este delicioso texto publicado numa edição da revista A Máscara de 1919 traz a descrição de “um novo gênero de moça”, a saber: a jovem moderna, que não tem medo do que as pessoas escandalizadas por tanta ousadia falarão dela. O texto adverte com o cabeçado “De Paris”, indicando naturalmente uma ambição de imitar a metrópole cultural da época, mas que as jovens da pequena Porto Alegre de então o estivessem lendo já nos diz bastante.

O texto traz uma descrição detalhada das modas, que deixam o corpo atlético da jovem muito mais livre para o movimento. As primeiras décadas do século XX viram um interesse crescente na prática do esporte pois este “[…] se destinava justamente a adaptar os corpos e as mentes à demanda acelerada das novas tecnologias”[1]. E novas tecnologias de fato havia, acelerando a vida urbana como nunca antes: bondes, carros, jornais, revistas, rádio… E para isso novas modas, especialmente femininas, surgem para atender esse novo ritmo:

Desde o fim da Grande Guerra as tendências de moda são para roupas leves e ‘esportivas’, caindo com naturalidade, sem cintos ou constrições, de maneira a ressaltar as formas da anatomia e a textura da pele[2].

Assim, a jovem descrita é livre para se movimentar, “flirtar” com os rapazes e até fumar! Este hábito chic, difundido pelo cinema e que denotava um comportamento refinado e europeizado, era visto como arrojadíssimo e extremamente sedutor nas mulheres, ainda que despertasse reações escandalizadas.

Mesmo com tudo isso, a nossa jovem moderna não seria moderna para sempre: como toda boa pessoinha-mulher, encontraria um bom marido, ainda que tivesse de ser atlético, e terminaria como boa mãe e cuidadora.

“De Paris[3]

A ultima novidade de Paris

A graciosa figurinha da parisiense de hoje, com a sua graça decidida e sportiva de filha do seculo XX, é uma encarnação typica de um novo gênero de moça, producto de uma educação hybrida, mixto de atavicos preconceitos latinos e desenvoltura ‘yanquee’, os contrastes que nellas se entrechocam são o mais seguro factor da sua irresistivel seducção.

Chamemo-la Mercêdes. Sob a elegancia impeccavel do seu vestido de verão, um mimo de foulard côr de telha pintalgado de branco, com um largo panno de foulard liso formando avental na frente e atrás, um cinto de verniz preto em torno à cintura frouxa, gola e manchettes de organdi branco, seu flexivel corpo de nadadora emerita, livre de collete, ondula serpentinamente. O decote amplo e as mangas curtas deixam a descoberto o pescoço torneado e os braços roliços. A saia curta desvenda-lhe audaciosamente a perna agil que a meia de seda molda impeccavelmente. Os sapatos de camurça branca lhe aprisionam os pequeninos pés, affeitos ás grandes caminadas do ‘footing’ matinal. Sob as abas amplas do canotier de palha branca, seus olhos vivos sorriem candidamente á delicia de ter dezenove annos e de viver. Vae para o tennis, sózinha, á americana, protegida pela propria irradiação da sua altiva innocencia. A mão tratada e fina segura a raquette num gesto firme, revelador de uma vontade consciente do que quer, uma vontade perfeitamente resolvida a attingir o seu fim na existencia.

Mercêdes é uma pessoinha resoluta e alegre, que sabe querer como sabe jogar tennis, nadar, montar a cavallo, guiar, remar, tangar e flirtar. Oh! Principalmente flirtar…

Nas horas vagas, Mercêdes occupa-se das criancinhas pobres de uma ‘crêche’ para quem cose e ás quaes faz, tres vezes por semana, uma hora de guarda. Esta ‘crêche’ é o lado sério do seu estouvado viver, o lado austero, a sua escola da maternidade, a pequena valvula de caridade por onde communica com o vasto mundo soffredor. Mercêdes traja sempre no rigor da moda e penteia-se pelo ultimo figurino. Adora os cinemas; o seu ideal sentimental e musculoso parece-se extraordinariamente com o George Walsh.

Não é um ideal muito definido nem muito arraigado pelo qual, intransigente, sacrificaria a flor radiosa da sua mocidade exuberante.

Mercêdes está prompta a transigir comtudo que o marido seja um ‘pequeno de muque’. Tem o culto da força e é torcedora… das mais ‘torcentes’ ardorosas. Emquanto o tal marido não chega, dansa, ri, borboleteia e namora, seguindo a moda á risca. E tão á risca segue Mercêdes essa moda que deu ultimamente para fumar. Foi um escandalo em toda a roda social onde a evolue a linda pessoinha moderna de Mercêdes. Mas a menina não se deu por vencida. Continua tranquilamente a fumar uns cigarrilhos perfumados e fracos, fornecidos pelo primo, de quem é o mais duradouro ‘béguin’[4], mas cigarrilhos de boneca.

Podem botar a boca no mundo. Mercêdes fuma e há de fumar… se fumar é a ultima novidade de Paris?!… Todas as mulheres andam fumando por lá.

A cigarreira de tartaruga, loira, cravejada de pequeninos rubis incandescentes é a ultima palavra do ‘chic’, e o mais bonito presente que um noivo possa fazer a uma noiva. Mercêdes tem a pretensão de acclimatar aqui, esse yankeismo aparisianado. Conseguirá ella o seu temerario desideratum? As más línguas já lhe estão retalhando inexoravelmente a pelle de rosa.

Mercêdes suspeita, naturalmente, esse examear escandalizado de mexeriquices malfevolentes. Que importa?!… Sacrifica-se em pról da moda. Desde que se fuma em Paris, que é de alto ‘chic’ fumar-se em público, fumará a despeito de todos e de tudo. Mercêdes, fumando, fica, aliás, irresistivel.

Tem um geitinho particular de abrir a cigarreira e um muxoxo tão adoravel para pedir fogo que inflamma immediatamente o coração do incauto a que se dirigir. Debalde contra essa nova moda se insurge o bom senso e se rebella a familia indignada. Mercêdes continua a fumar. Não é que isto lhe agrade muito… mas é tão, tão ‘chic’!…”

Autoria desconhecida

Referências:

História da vida privada no Brasil – volume 3: República: da Belle Époque à Era do Rádio. Coordenador geral da coleção: Fernando A. Novais; organizador do volume: Nicolau Sevcenko. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Revista A Máscara, 1919, Ed00045, p. 27. Hemeroteca online da Biblioteca Nacional.

[1] SEVCENKO, 1998, p. 571.

[2] SEVCENKO, 1998, p. 575.

[3] Revista A Máscara, 1919, Ed00045, p. 27. Hemeroteca online da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[4] Em francês, algo como “amor platônico”.

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