Fachada do Cine-Theatro Colombo. Correio do Povo, 06/03/1929, AHMMV.

O Cine-Theatro Colombo

O cinema é uma das grandes novidades da vida urbana das primeiras décadas do século XX, e em Porto Alegre não foi diferente. Desde as primeiras modestas projeções em pequenas salas até de farmácias, nos seus primeiros anos, até as grandes e modernas salas como o aqui descrito Cine-Theatro Colombo, a multiplicação e modernização de espaços de exibição de filmes foi sensível na cidade.

Essa nova tecnologia de comunicação de massa, nascida nos últimos anos do século XIX, suscitava novos comportamentos e sociabilidades urbanas, difundindo maneiras de conversar, se vestir e viver a cidade que estavam em sintonia com as praticadas nas grandes metrópoles da época. De acordo com Nicolau Sevcenko,

Ir ao cinema pelo menos uma vez por semana, vestido com a melhor roupa, tornou-se uma obrigação para garantir a condição de moderno e manter o reconhecimento social.[1]

Contudo, a modernidade não se expressava apenas nas formas de convívio no cinema, mas também na forma de construir esses equipamentos. No caso do Cine-Theatro Colombo, menciona-se a necessidade de demolir a construção anterior, inaugurada em 1915, para construir o monumental prédio que se vê na fotografia do Correio do Povo. Não somente pela necessidade de abrigar mais pessoas em função da demanda crescente, mas também de assegurar a segurança e rotas de fuga em caso de incêndio, bem como a ventilação generosa da sala. Nada mais razoável, afinal, ela tinha capacidade para nada menos do que 1.600 pessoas!

 

Um grande centro de diversões na Floresta[2]

Como se acha installado o Cinema Theatro Colombo, naquelle arrabalde

Tem elle accomodações para 1.600 pessoas e a sua construcção andou em mais de 400 contos de réis

Entre as mais antigas empresas de cinemas da capital, conta-se a firma Schilling e van der Hallen, fundada pelo sr. Josão Carlos van der Halen, e proprietaria do Cinema Theatro Colombo, situada á rua Christovão Colombo, pouco além da rua 7 de abril e num dos pontos mais centraes do antigo bairro Floresta.

Foi esse centro de diversões fundado em 1915, tendo de anno para nno progredido graças a boa direcção dos seus proprietarios os quaes, agora, para acompanhar o progresso de nossa capital, resolveram construir no mesmo local onde estavam installados, por muito tempo, em estabelecimento mais amplo.

O Cine-Theatro Colombo. Correio do Povo, 06/03/1929, AHMMV.
O Cine-Theatro Colombo. Correio do Povo, 06/03/1929, AHMMV.

O novo cine-theatro Colombo

Tem uma frente de 20 metros por 43 de fundos sendo todo elle de cimento armado. A sua construcção, que obedeceu as ultimas exigencias da municipalidade e das proprias companhias seguradoras, esteve a cargo do conhecido architecto sr. Augusto Sartori, que se houve com competencia e gosto […] no desempenho de sua missão.

Por meio de um magnifico projecto de sua autoria conseguiu dotar a nossa capital de um amplo e confortavel centro de diversões.

A fachada é de bello estylo architectonico, vendo-se ao centro um busto do grande navegador genovez e, dos lados, dois altos relevos, sendo que um representa a partida de Christovão Colombo do porto de Palos e outras a sua chegada em terras americanas.

Esses e outros trabalhos de esculptura e as decorações que embellezam o novo edificio da empreza Schilling e van der Hallen, foram confeccionados pelo esculptor Vittorio Livi.

As salas de espera e de espectaculos

Por meio de tres amplas portas typo folle, entra-se para a sala de espera, que é muito confortavel e toda ricamente pintada pela firma Kmetsch e Welde, que se encarregou de outros trabalhos dessa natureza, identicos ao Cine-Theatro Colombo.

A sala de espectaculos é ampla, dotada de 40 aberturas, que a ventilam. Além disso, no centro do tecto, encontra-se uma grande abertura, também para a renovação de ar por meio de aspiradores.

Logo á entrada, recebe-se uma magnifica impressão da forma como os srs. Schilling e van der Hallen, preparam essa dependencia do seu cine-theatro. Tem ella duas amplas platéias e 26 camarotes, com poltronas elegantes para accomodar perfeitamente 1.600 espectadores. Estes, em qualquer parte em que se encontrem, poderão apreciar o espectaculo.

A sala de espectaculos do Cine-Theatro Colombo, bem póde figurar entre as principaes da capital.

O apparelho de projecções

A cabine, situada aos fundos, é toda de cimento armado, como o é, aliás, todo o grande edificio. Ali se encontra o apparelho de projecções Hernemann, de fabricação alemã ultimo typo.

Toda essa installação foi feita para que qualquer principio de incendio fique cinscunscripto. E, em caso de necessidade, há um grande numero de aberturas que não não só para a rua Christovão Colombo como para a Emancipação, fundos do edificio, podendo assim o theatro ficar vazio em poucos minutos.

O palco-scenico e a usina

A firma Schilling e van der Hallen não só construiu o seu centro de diversões apenas para projecções cinematographicas, mas também para espectaculos de qualquer natureza, pois que elle se presta perfeitamente para espectaculos de operetas, comedias, revistas, etc.

Para isso, conta com um grande palco-scenico com uma bocca de mais de 10 metros.

Encontram-se ali camarins e serviços de banho e sanitarios para os artistas. Quanto ás telas, poderão ser levantadas sem se fazer o seu enrolamento, tal a altura do fundo do edificio do Cine-Theatro Colombo.

Completando as installações do novo edificio do seu centro de diversões, os srs. Schilling e vam der Hallen, construiram tambem uma usina especial para a producção necessaria de energia e luz electrica, que é abundante em todo o predio, quer interna, quer externamente.

E ella produzida [sic] por meio de um motor de força de 15 cavallos, que movimenta um dynamo de 70 hamperes.

Tal é, em breves linhas, o novo edificio do Cine-Theatro Colombo, que já se encontra franqueado ao publico devendo a sua inauguração official realisar-se dentro de poucos dias.”

Autoria desconhecida.

Referências:

[1] História da vida privada no Brasil – volume 3: República: da Belle Époque à Era do Rádio. NOVAIS, Fernando A. (organizador geral); SEVCENKO, Nicolau (organizador do volume). São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P. 598.

[2] Correio do Povo, 06/03/1929. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho. A grafia original foi mantida.

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