Leda Macedo. Correio do Povo, 08/01/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre.

“Um assomo de paixão e desespero”

Esta dramática reportagem do Correio do Povo de 8 de janeiro de 1929 entrelaça espaços, sociabilidades urbanas e violência de gênero de forma minuciosa. O jornal traz a história conturbada do fim do relacionamento dos jovens Octacílio e Leda, não aceito pelo primeiro. Ela, descrita como uma moça de vida “airada e só pensava em divertimentos”, é provavelmente uma prostituta que trabalha em clubes noturnos. Ele, um rapaz “dedicado e trabalhador” que vem a Porto Alegre para reencontrá-la e emprega-se como garçom no Restaurante Naval, um dos mais tradicionais ainda em funcionamento no Mercado Público.

Ela, uma residente à “pensão de artistas denominada Aurelia”; ele “residia no anexo do Hotel Bianchi”, na atual rua 7 de Setembro. Ambos confrontam-se à hora do footing, ou seja, do passeio a pé ao final da tarde ao longo da rua da Praia ou dos Andradas, mais precisamente no Largo dos Medeiros. Este percurso no espaço urbano por si só já indica como as ruas “respeitáveis” de Porto Alegre eram próximas das ruas “de má fama”, o que muito preocupava as autoridades da época. De acordo com Fabiane B. Luckow,

“A Rua da Praia representa a cidade familiar, trabalhadora, divertida, enquanto a rua Andrade Neves, antiga Rua Nova, ficaria conhecida como o lugar dos perdidos, do divertimento mundano, do jogo, do vício e da prostituição. Ambas efervescentes, agitadas, modernas.

Enquanto a primeira desfrutava de uma boa fama, sendo o local onde a boa sociedade em geral ia passear ao final do dia, onde as casas de comércio respeitadas estavam sediadas, a Rua Nova era descrita como de péssima forma, por conta das diversas pensões e clubes noturnos que lá funcionavam. ”[1]

Será justamente na rua General Câmara, que conecta a rua da Praia à rua Andrade Neves, o palco do que já foi muito conhecido como “crime passional”, e que hoje pode ser caracterizado como uma tentativa de feminicídio, pois o gênero da vítima determina a violência sofrida. E como não era incomum homens andarem armados pelas ruas, Octacilio, inconformado com o desinteresse de Leda, não hesitou em tentar matá-la, tentando cometer suicídio em seguida.

A Leda, só restou lamentar:

Que gente essa que nem siquer me acudia para impedir que elle me atirasse.

 

Em plena rua General Camara, um homem fére a ex-amante e estoura a cabeça[2]

Um assomo de paixão e desespero foi a causa do delicto

A dramatica occorrencia verificou-se ás 17h de hontem, a poucos passos da rua dos Andradas, que regorgitava

‘Fui trahido!’ Assim justificou o seu crime o tresloucado ao ser interrogado pela nossa reportagem.

A violenta scena de sangue impressionou vivamente a nossa principal arteria

Gravissimo é o estado do desvairado, ao passo que o da infeliz era, hoje, ás primeiras horas, desesperador

Cinco horas.

Hora do apperitivo.

A rua da Praia regorgita.

Nos cafés, cheios, as phrases dos tangos e dos shimmyes se mistura á algazarra dos frequentadores e no ruído das chicaras e taças.

Elle, que ha muito vem amargurando os longos dias com a idéa, a que não se habitua, daquelle rompimento, vê-a, de subito.

Num relampago de sangue, fuzila-lhe no cerebro aquelle mesmo desejo.

Procura, com a mão crispada, o revólver que traz occulto. Preme-lhe a coronha.

E ella indifferente, segue o seu caminho, sem imaginar que a morte a espreita.

Subito, sem poder conter os seus nervos enfermos, o olhar desvairado, cede a impulsão homicida. Investe-a. Alveja-a. Ella dá, horrorizada, ainda alguns passos, para tombar desamparada, pesadamente.

Com o estampido, acorrem curiosos.

E ali mesmo, em plena rua, a poucos passos da sua victima que se esvae em sangue e geme, diante do estupor de toda gente, elle leva o cano do revólver contra a tempora direita e estoura a cabeça com uma bala.

Os que a assistiram não poderão, por certo, esquecer o horrível episódio. Um homem que em pleno coração da cidade, no seu ponto mais movimentado, á luz do dia, fere gravemente uma mulher e, depois, esphacela o craneo com um tiro, não é um espectaculo vulgar.

E porque? Que terrivel motivo teria levado aquelle homem ao gesto tresloucado?

Um desvario passional.

Eis em resumo, como se passou o dramatico episodio de hontem da rua general Camara e cuja circumstanciada narrativa vamos fazer a seguir:

Os protagonistas da tragédia

Octacilio Moura e Leda Macedo, os protagonistas da tragedia de hontem, viviam maritalmente, no Rio de Janeiro, ha um anno, mais ou menos.

Segundo informações colhidas pela nossa reportagem, Octacilio nutria forte paixão pela sua companheira, que correspondia ao amor que lhe dedicava o rapaz.

Foi na capital da Republica que ambos se conheceram e se amaram. Mas… ‘não há bem que sempre dure’, e, talvez em obediencia a essa verdade, uma mudança brusca transtornou por completo a vida dos dois amantes, originando-se, dahi, a causa da tragica scena da tarde de hontem.

Procurando investigar os verdadeiros motivos que levaram o tresloucado rapaz á prática desse acto de desespero, conseguiu a nossa reportagem colher preciosas informações, que abaixo descrevemos.

Enganando o amante

Leda Macedo, ao que parece, aborreceu-se de viver com Octacilio. Não querendo, porém, contar ao seu amante tudo o que sentia, resolveu usar da arma da mentira para deixá-lo á margem de sua existencia.

Chamou Octacilio e lhe fez vêr que tinha absoluta necessidade de embarcar para Porto Alegre. Estava com saudades de seus parentes e, por isso, viria até esta capital.

Octacilio relutou; tudo, porém em vão.

Leda mantinha-se firme no seu proposito de seguir viagem.

Para não desiludir o pobre rapaz, que temia que ella não mais volvesse ao Rio, simulou que em Porto Alegre ficaria por pouco tempo.

Octacilio não se conformava ainda com a separação, embora momentanea, no dizer de sua amante. Como esta continuasse em sua attitude, resolveu dar o seu consentimento.

Rumo a Porto Alegre

Finalmente, Leda Macedo embarcou para esta capital, aqui chegando em dias do mez de setembro do anno findo.

Dada a paixão que Octacilio nutria pela sua amante, facil é de se imaginar o transtorno que essa separação lhe causou.

Julgando que ella passasse por necessidades, Octacilio escrevia-lhe, seguidamente.

Tudo fazia elle por sua amante. Mandava-lhe, a meudo [?], dinheiro para o seu sustento.

O proceder de Leda

Longe de visitar seus parentes, Leda entregou-se á vida airada.

Conhecendo Porto Alegre, pois que aqui estivera residindo há muito tempo, facil lhe foi travar innumeras relações.

O primeiro acto de Leda quando chegou a esta capital foio de residir na pensão de artistas denominada ‘Aurelia’, á rua Andrade Neves n. 96.

Os prazeres da vida attraiam a rapariga.

Tanto de dia, como á noite, sahia ella a divertir-se, recolhendo-se á casa, quasi sempre, alta madrugada.

Leda tinha forte inclinação pelos centros de diversões nocturnas, onde se entregava ás dansas, vivendo cercada de innumeros rapazes.

Os divertimentos fizeram com que Leda se esquecesse do amante, que se não cançava de escrever-lhe e mandar-lhe dinheiro.

As suspeitas do amante

Não obtendo resposta das cartas que escrevia, Octacilio principiou a suspeitar do proceder de Leda.

Essas suspeitas vieram a confirmar-se quando Octacilio recebue [?] uma carta, por intermedio da qual era informado de tudo o que se passava.

Doido de ciume e cego de colera, resolveu embarcar.

A sua intenção era a de trazer novamente Leda para a sua companhia.

Os primeiros passos

Não havia outro remedio sinão o de embarcar para esta capital.

Mas, antes de tomar definitivamente esta resolução, queria certificar-se da verdade.

Para isso expediu dois telegrammas para esta capital, que abaixo transcrevemos e que foram encontrados num movel do quarto de Leda.

Esses despachos continham os seguintes dizeres:

‘Rio – Madame Olga Alda. Hotel Lagache, quarto 404, Porto Alegre – A ordem para o Banco Pelotense foi expedida a 11 do corrente. Mande direcção certa. Aguarde carta. Saudades. – (a.) Octacilio’.

Esse telegramma trazia data de 30 de outubro do anno passado.

A 19 de novembro, tambem do anno passado, expedia elle o outro despacho, assim concebido:

‘Pelotas, 19 – Olga Alda – Chego a vinte pelo ‘Ripper’ – (a.) Octacilio’.

A odysséia de Octacilio

Como promettera em seu ultimo telegramma, Octacilio Moura aqui chegava a vinde de novembro ultimo.

Começou, dahi, então, a odysséia do infeliz amante.

Sem recursos de especie alguma e sem o menor conhecimento, Octacilio passava privações:

Chegou a empregar-se de garçon

Era preciso, no entanto, garantir ao menos a sua subsistencia e, por isso, Octacilio Moura saiu á procura de uma collocação.

Sem ter, ao menos, uma carta de recommendação, batia de porta em porta, solicitando serviço.

Era, sem duvida, uma tarefa difficil.

Um dia, afinal, tomou uma resolução. Necessitava de trabalhar para ter o que comer. Por isso, qualquer emprego lhe servia.

Entrou no Restaurante Naval, situado no Mercado e pediu trabalho.

Falou com o proprietario da casa, expondo a sua situação. Um emprego de ‘garçon’ era o sufficiente para sustentar-se por alguns dias.

O dono do restaurante fez-lhe vêr que não havia vaga, porém, uma boa palestra e a insistencia de Octacilio convenceram-no do contrario.

Deu ao pobre moço o logar de ‘garçon’.

Octacilio Moura, entretanto, não entendia nada do officio. Esforçava-se, comtudo, em berm servir a freguezia e retribuir a bôa vontade que lhe dispensara o seu patrão.

Relatando o seu passado

Extremamente delicado e prestativo, foi facil a Octacilio grangear a estima de seu patrão.

Quando diminuia o serviço quedava-se pensativo e triste horas a fio.

O dono do restaurante indagou do seu empregado a causa de tal aborrecimento.

Octacilio, após alguma reluctancia, contou certas pasagens da sua vida.

Disse que para aqui tinha vindo unicamente por causa de uma mulher que amava loucamente.

Estava bem no Rio de Janeiro – adeantou – e ali ganhava um bom ordenado como empregado no commercio.

Mas – continuava – a mulher, que fôra a causa de todo esse trantorno, o obrigara a passar privações, a ponto de exercer uma profissão que desconhecia.

Certa vez, voltou Octacilio ao emprego, visivelmente abatido e acabrunhado.

– ‘Leda, affirmou elle ao seu patrão, não me quiz receber hoje na pensão onde reside, unicamente por ser eu ‘garçon’.

Depois de haver trabalhado doze dias apenas no Restaurante Naval, Octacilio despedia-se, dizendo ao seu patrão que ia á procura de outro emprego, afim de não desgostar sua ex-amante.

Não mais queria saber do amante

O apaixonado Octacilio, entretanto, sempre procurava, na ‘Pensão Aurelia’, pela sua ex-amante.

Leda, no entanto, negava-se, a todo o transe, de seguir em companhia de Octacilio, que cada vez mais se tornava ciumento, mormente quando a via em companhia de outros rapazes.

Apezar disso, porém, não se cançava de reiterar os seus pedidos para que ella voltasse a viver em sua companhia.

Tudo em vão.

O primeiro acto de desespero

Não podendo mais supportar aquella situação e com o coração mesclado de dor e de odio, Octacilio começou a architectar o plano da vingança contra aquella que fizera delle um ente desgraçado.

Mata-la era o seu desejo.

E essa idéia não lhe sahia da mente.

Com esse proposito, ha uns dez dias, mais ou menos, entrou elle na ‘Pensão Aurelia’ e, fulo de raiva, quando deparou com a amante sentada numa mesa com outras pessoas, saccou do revólver que trazia á cintura.

Teria elle eliminado desta vez Leda se não fôra a intervenção de terceiros.

Hontem, Octacilio Moura levantou-se sedento de vingança.

Á tarde, com esse proposito, dirigiu-se nervosamente para a rua dos Andradas.

Sabia perfeitamente que Leda costumava fazer seus passeios diarios por ali. De facto, ella não tardou em apparecer.

Vinha acompanhada de outra rapariga.

Algumas pessoas viram-na entrar no Cinema Central.

Os seus minutos estavam contados pelo amante, que, impaciente, esperava-a na esquina da rua General Camara, com a dos Andradas.

Dois tiros!

Ao sair do Cinema Central, Leda seguiu com sua companheira pela rua dos Andradas afóra e, depois de percorrer algumas quadras, voltou pelo mesmo caminho.

Ao chegar á rua General Camara, salta-lhe á frente o amante enfurecido, que já trazia na mão direita um revólver.

A scena foi rapida, não dando tempo a que qualquer pessoa pudesse intervir.

Com a mão esquerda no peito de Leda, Octacilio levou a mão no gatilho da arma, desfechando-lhe um tiro, á queima-roupa.

Acto continuo, virou elle a arma contra si, desfechando um tiro na cabeça.

Ambos rolaram no meio da rua por entre uma poça de sangue.

O alarme

Houve grande confusão entre as pessoas que transitavam pela nossa principal arteria e as que se encontravam nos cafés.

Todos correram pressurosos para soccorrer os feridos.

O agente da Inspectoria de Vehiculos, João Bellomo, de serviço nas immediações foi o primeiro que acudiu, conseguindo tirar a arma, ainda fumegante, das mãos de Octacilio.

Leda foi erguida por alguns populares e collocada numa cadeira do Café Colombo.

Sua companheira, num canto da rua cercada por populares, que a interrogavam, chorava copiosamente.

Os drs. Miguel Tostes e Loureiro da Silva, respectivamente delegado judiciario do [1]º e sub-intendente do 3º districtos, comparecendo, logo, ao local, tomaram as providen[cias].

Na assistencia publica

Não tardou muito em chegar o auto-ambulancia da Assistencia Publica, que transportou os feridos para o posto central.

Ali, foram Leda e Octacilio attendidos pelo dr. Gaspar Rogerio Sarmento Leite, que teve como auxiliares os doutorandos Mario Cini, Francisco Marques Pereira e o enfermeiro Manoel Pedro.

Octacilio Moura apresentava um ferimento por bala acima do ouvido direito, com a vista do mesmo lado completamente inutilisada.

Leda Macedo tinha um ferimento por bala no peito, do lado direito e com orificio de saída nas costas.

Depois de medicados, foram ambos, em estado gravissimo, transportados para o hospital da Santa Casa.

Salve-me, doutor!

Ao dar entrada na Assistencia Publica, Leda Macedo foi collocada numa das salas de curativo, para ser examinada.

Leda, gemendo, pedia insistentemente aos medicos para que lhe aliviassem as dores que cada vez mais lhe torturavam.

Queria, a todo o transe, que lhe fizessem os curativos o mais depressa possível. Perguntava a todos se ia morrer.

Em seguida, voltava-se para o dr. Gaspar Rogerio Sarmento Leite, dizendo-lhe: ‘Salva-me, doutor!…’

O nosso reporter, que ali se achava perguntou-se algo sobre a tragedia.

A pobre raparida apenas dizia:

– ‘Nada lhe fiz; simplesmente por não querer mais viver com elle. Que gente essa que nem siquer me acudia para impedir que elle me atirasse’.

Ella trahiu-me!

Numa outra sala de curativos, jazia sobre a mesa Octacilio Moura.

A cada instante, queria elle levantar-se, queixando-se de uma dôr immensa nos olhos.

Respondeu Octacilio as perguntas que lhe foram feitas accrescentando que contava 27 annos de idade, residia no anexo do Hotel Bianchi, á rua 7 de Setembro, n. 1.169, e que fôra empregado no Restaurante Naval.

A uma pergunta do nosso ‘report’, respondeu simplesmente Octacilio:

– ‘Ella trahiu-me!…’

O estado dos feridos

Até ás primeiras horas da madrugada, continuava gravissimo o estado dos feridos.

Na Santa Casa foi Leda Macedo operada pelo dr. Weber, auxiliado pelos drs. Wallau e Heredia, e interno Oswaldo Souto.

Foi praticada uma laparotomia mediana exporadora, seguida de sotura do ferimento do figado, nephrectomia á direita e estirpação do rim reclamada por hemi-secção.

Outras notas

Leda Macedo, que na occasião do crime trajava um vestido de phantasia, encarnado, meias de seda e sapatos amarellos, contava 24 annos de idade.

Segundo nos consta, residia ella, por muito tempo, nesta capital e foi amante de um rapaz, que a abandonou para casar-se.

Dizem, tambem, ter ella dois filhinhos.

Na ‘Pensão Aurelia’ onde residia fomos informados ser ella muito calma e de bom comportamento.”

Autoria desconhecida.

Correio do Povo, 08/01/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre
Correio do Povo, 08/01/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre.

Referências:

[1] LUCKOW, Fabiane Behling. Chanteuses e Cabarés: performance musical como mediadora dos discursos de gênero na Porto Alegre do início do século XX. Porto Alegre: dissertação de mestrado em Música. UFRGS, 2011. P. 23.

[2] Correio do Povo, 08/01/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre. A grafia original foi mantida.

2 Comments

    1. Beco do Rosário

      Oi Antônio! Muito obrigada, há realmente histórias incríveis nos jornais da época e que dariam ótimas HQs. Infelizmente não busquei saber mais sobre estas personagens, aí só se nos embrenharmos nos arquivos pra valer. 🙂 Obrigada pela visita!

Deixe uma resposta