Quer fumar mademoiselle - capa_02_Frederica_2014

Quer fumar, mademoiselle?

Originalmente um hábito masculino, fumar foi sendo cada vez mais apropriado pelas mulheres à medida em que sua participação no mundo do trabalho e na esfera pública se davam com a industrialização da economia, em especial após a Primeira Guerra.

Neste artigo da revista A Máscara de 02/10/1920, o autor traduz o texto de um jornalista inglês a respeito do hábito de fumar, que se difundia rapidamente entre as mulheres daquele país. Ainda que Porto Alegre e Londres certamente tenham sido realidades bastante diferentes, a presença do texto numa das principais revistas ilustradas da cidade certamente indica uma preocupação com o tema. Afinal, Porto Alegre também se modernizava e suas senhorinhas adquiriam hábitos cosmopolitas comparáveis às londrinas.

Quer fumar mademoiselle - capa_02_Frederica_2014
Desenho da pesquisadora da personagem Frederica, de “Beco do Rosário”. Lápis, bico de pena e aquarela sobre papel, 2014.

Como diz o texto, se antes o fumar era marca de mulheres de vida suspeita, no início da década de 1920 aquele hábito já se tornava comum entre as senhoras respeitáveis. E, apesar de serem mais frágeis physica e moralmente, as mulheres fumavam cada vez mais…!

Quer fumar, mademoiselle?[1]

“Entre as senhorinhas em que tudo fica bem e tem uma graça irresistivel, fumar um cigarrinho ou fingir que o fuma é de um adorável encanto. Já diz a canção da conhecidissima opereta que si o fumar no homem é vicio, ‘na mulher é graça particular’. O tabaco, porém, apresenta a desventagem de ser um vicio (ou habito) de que facilmente se abusa. Assim succede agora na Inglaterra, onde se propagou de tal modo o uso do cigarro entre as mulheres, que, segundo parece, breve se desterração os avisos de que é prohibido fumar, pois materia inflammavel é também a mulher – e fuma…

Veja-se o que diz Francis Gribble[2] em um recente artigo sobre as fumadoras da Gran Bretanha.

O habito de fumar se diffundiu de tal fórma entre as nossas damas que já não se podem por elle tirar deducções e indicios seguros das senhoras que o adquiriram. Não se lhes póde attribuir juizo favoravel ou desfavoravel, visto que há senhoras seriissimas [sic] que fumam e mulheres de infima classe que não teem o vicio do tabaco.

‘E tanto mais é desconcertante quanto se verifica que as senhoras inglezas fumam em toda parte: nos escriptorios em que trabalham, nas officinas, nos cinemas, nos restaurantes e nos theatros. Só na rua se conteem.

‘Convem combater esse costume, por que si o tabaco é um perigo para o homem ainda o é maior para a mulher, principalmente as jovens.

O sexo fragil é physica e moralmente mais delicado do que o sexo horrivel e por isso mesmo mais propenso a deixar-se arrastar no turBilhão dos vicios e das paixões.

Confirma esta asserção o facto de poderem os ebrios habituaes deixar a bebida, emquanto as bebedoras são na generalidade incuraveis. Alêm disso o vicio do tabaco, conquanto seja menos violento que o do alcool é talvez mais difficil de abandonar.

‘Parece que o numero de mulheres que se tornam presas do cigarro  aumenta dia a dia. Nos restaurantes póde-se observar que as mulheres são susceptiveis de fumar mais do que os homens, pois accendem um cigarro antes de comer, outro durante a refeição e outro ao café.

‘Excepcionalmente a mulher que fuma póde deixar de o denunciar. Na generalidade são pallidas, physionomia marcada e accusam, por uma agitação constante a profunda alteração nervosa de que são victimas’.

Diante deste tópico nós só queríamos vêr a attitude de uma creaturinha a quem se offerecesse um cigarro:

– Quer fumar, mademoiselle?”

Autor desconhecido.

Revista "A Máscara", Ed00001, 02/10/1920, p. 19. "Quer fumar, mademoiselle?"
Revista “A Máscara”, Ed00001, 02/10/1920, p. 19. “Quer fumar, mademoiselle?”

Referências:

A Máscara, Ed00001, 02/10/1920, p. 19. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[1] A Máscara, Ed00001, 02/10/1920, p. 19. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[2] Provavelmente Francis H. Gribble (1862-1946), escritor e jornalista inglês.

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