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“Recordando uma grande epidemia”

A crise sanitária pela qual passa o Brasil na atualidade, e que tem atingido muito severamente algumas cidades como São Paulo, Manaus, Belém e tantas outras, repete um triste padrão que, justificadamente, já havia desaparecido da memória. Há mais de cem anos, na epidemia de 1918, cenas semelhantes à da falta de caixões, o grande número de mortos e a necessidade de enterrá-los prontamente também espalhavam o desespero pelo país, e em Porto Alegre não foi diferente.

Nesta reportagem do jornal Correio do Povo[1] de 22 de janeiro de 1929, o jornalista não-identificado recorda a abertura de valas comuns vizinhas ao cemitério da Santa Casa, bem como a desolação frente a tantas perdas.

 

Recordando uma grande epidemia[2]

Estão sendo reabertas as valas communs, onde foram enterradas centenas de victimas da ‘hespanhola’

Já foram incinerados os restos mortaes de 392 victimas dessa molestia

Porto Alegre, como outras cidades do velho e novo continente, pagou o seu tributo á terrível epidemia mais conhecida por ‘influenza hespanhola’, verificada no ultimo trimestre do anno de 1918.

Os primeiros casos foram notificados em nossa capital, em fins de outubro, mas na primeira quinzena de novembro, foi quando a molestia attingiu ao auge, fazendo diariamente mais de 100 victimas.

No dia 14 desse mez, somente na Santa Casa de Misericordia se retiraram 154 guias de sepultamento.

A valla commum

Houve, porém, dias, em que não havendo pessoal sufficiente para abrir sepulturas, apesar de se ter recorrido aos serviços dos reclusos da Casa de Correcção, fizeram-se sepultamentos em vallas communs.

Estas foram abertas num grande terreno situado ao lado direito do cemiterio da Santa Casa e que dá para á avenida Theresopolis.

Varias centenas de pessoas foram ali sepultadas, sendo que muitas dellas não se chegará a fazer identificação.

Recordando uma grande epidemia - fotos
“Ao alto – operarios reabrindo as vallas communs. Em baixo: – uma das vallas já reabertas.” Fotógrafo desconhecido. Correio do Povo, 22/01/1929, p. 5.

Cremação de restos mortaes

Passados que são agora dez annos da terrível epidemia, a Santa Casa, desejando crear um quadro especial para o sepultamento de creanças, lembrou-se de aproveitar o terreno, onde inhumaram em commum centenas de victimas da ‘hespanhola’.

Assim é que, de uns dias a esta parte, estão sendo reabertas as vallas communs, sendo os restos mortaes ali existentes levados para o forno annexo ao cemiterio, afim de serem cremados.

De quatro vallas abertas, já foram retirados 392 cadaveres que, em pequenos vehiculos, foram levados ate ao local destinado á sua cremação.

Ouvindo o administrador do cemiterio

A reabertura de vallas communs tem alvoroçado um pouco os moradores da Avenida Theresopolis, que vêm, nisso, um perigo á sua saude.

E, attendendo aos reclamos, fomos hontem, ao cemiterio, onde o respectivo administrador nos declarou não haver nenhum perigo, por haver passado muitos annos do sepultamento das victimas da hespanhola.

Antes disso, accrescentou-nos, dezenas de pessoas inhumadas em catacumbas, ou sepulturas simples, decorridos tres annos regulamentares, foram retiradas de seus jazigos, sem que nada houvesse.

Precisando agora a Santa Casa crear mais um quadro para menores, a sua administração lembrou-se de desoccupar o terreno das vallas communs.

Recordando os tristes dias

Enquanto faziamos esta reportagem, tivemos occasião de nos encontrar com o sr. Antão Pfeiffer, que, no anno de 1918, exercia interinamente as funcções de administrador do cemiterio.

Recordou-nos, em rapida palestra os tristes dias passados durante a epidemia, dizendo-nos que, ás vezes, os mortos chegavam ao cemiterio em caminhões, fazendo-se o sepultamento em vallas communs, pois as casas funerarias não davam vencimento na confecção de caixões mortuarios e não havia pessoal sufficiente para a abertura de sepulturas.

Dias depois, uma verdadeira romaria de pessoas se registrou a esses logares, afim de saber onde se inhumara este ou aquelle cadaver. Um grupo de cidadãos suissos anciosamente procurou um seu compatriota de nome Redel, e como lhe dessem mais ou menos o sinal do seu jazigo ali depositou uma cruz.

A procura de um coveiro

Emquanto na epidemia se trabalhavam fortemente, disse-nos ainda o sr. Pfeiffer no sepultamento de innumeras victimas, do nosso quadro de coveiros desappareceu um delles, appelidado Mondongo.

Pois dois dias delle não se teve noticia. Mas, quando um caminhão da Brigada Militar trazia alguns cadaveres no meio destes foi encontrado Mondongo, sabendo-se então haver elle fallecido num dos hospitaes então creados.

Seus companheiros, abriram, então, uma sepultura no Campo Santo, depositando, à sua cabeceira, uma pequena cruz.

Era a ultima homenagem que os coveiros prestavam ao seu collega.”

Jornalista desconhecido.

"Recordando uma grande epidemia" - completo
Fotografia da reportagem completa feita pela pesquisadora.

 

 

 

Referências:

Recordando uma grande epidemia. Jornal Correio do Povo, 22/02/1929, p. 5. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre. Consultado em 30/11/2018.

 

[1] Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre.

[2] A grafia original foi mantida.

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