Influenza e gotas de ácido clorídrico

Em tempos de pandemia, vale recordar que a influenza que chegou em 1918 em Porto Alegre, erroneamente conhecida como gripe espanhola, foi causa de muito alvoroço e preocupação.

Nesta edição da revista ilustrada A Máscara de outubro de 1918, um pequeno artigo comentava a aproximação da doença, e como os vizinhos Uruguai e Argentina haviam sabido “cortar os naipes” com medidas firmes de proteção à saúde pública.

Aqui, reconhecendo a duvidosa qualidade da água fornecida pelo serviço municipal, alertava para adicionar duas ou três gotas de ácido clorídrico (!) a cada copo d’água que fosse servido. Não saberia dizer se de fato foi uma medida adequada para combater o vírus, mas talvez fosse eficaz para matar outros microorganismos presentes na água que saía não muito limpa das torneiras…

A influenza espanhola: uma medida util[1]

“Á hora em que escrevemos esta nota, a nova de que a ‘influenza espanhola’ se aproxima desta capital alarma a população. Como ninguem ignora, esta epidemia parece que se fez globe trotter e dispoz-se, desta fórma, exercer as mesmas funções da guerra nos paizes que não estão nella envolvidos, auxiliando-a nos que nella tomam parte.

Na Republica Oriental do Uruguay, porém, assim como na Republica Argentina, não foi bem succedida a influenza, visto  como, aos primeiros casos, tanto o dr. Spino como o dr. Gonzales, respectivamente director da Hygiene municipal de Montevidéo e director da Hygiene municipal de Buenos Aires, cortaram-lhe os naipes, como se costuma dizer, tomando as mais energicas e decisivas providencias, inutilizando-lhe a acção.

Claro que entre nós, os que se interessam pela saúde publica não cruzarão os braços deante do mal que nos ameaça. Entretanto a agua, essa agua que bebemos, é o nosso maior inimigo. É conveniente por consequencia que nos saibamos defender, e o que é melhor, preservar-nos do mal que ella nos pretenda fazer, auxiliando assim, as medidas severas que as autoridades sanitarias sem duvida alguma vão pôr em pratica.

Como a nossa agua não é das mais inoffensivas, e como os philtros que por ahi andam tem um poder limitadissimo, aconselhamos aos nossos leitores, a que derramem, antes de a beber, duas ou tres gottas de acido chlorydrico dentro de cada copo. O acydo chlorydrico é um microbicida de reconhecida acção, e o seu effeito estomacal é muito recommendavel.

Tomando-se a que ahi fica e as medidas prophylacticas que os nossos collegas do ‘Correio do Povo’ já divulgaram, estaremos nós mais apparelhadas a receber a intrusa que começou a fazer sentir sua acção no Brasil victimando quatro medicos da missão que envámos á Europa.”

“Dr. Sylla Teixeira, distincto medico rio-grandense victimado pela influenza espanhola quando viajava com a missão medica brasileira. Vê-se, na photographia, sua excma. esposa, que o acompanhava.”
Fotógrafo desconhecido, A Máscara, 12/10/1918, p. 20.

Autoria desconhecida.

Referências:


[1] Revista A Mascara, Ed00036-1, acervo da BNDigital, 12/10/1918. Anno I, Número XXXVI, p. 20. A grafia original foi mantida.

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