Estudo de rosto de aguadeiro. Ana Luiza Koehler, 2016.

“A vida cara”

Até meados dos anos 1920, a distribuição de água potável era precária em Porto Alegre. A cidade em expansão demandava cada vez mais fornecimento de água, cuja qualidade era bastante precária ainda que no restrito perímetro da área mais central em que era disponível nos encanamentos.

Assim, o aguadeiro, personagem urbano que remonta às origens da cidade e atravessou o século XIX ainda aparece neste jornal de 1923. Percorrendo as ruas da cidade com sua pipa puxada por um burrico, o aguadeiro aparentemente estava indo bem com o aumento de preço da sua água a ponto, como diz a legenda da foto, de poder ter um assistente.

Aguadeiro. Virada do séc. XIX para o XX, Fototeca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.
Estudo da pesquisadora em sketchbook a partir da foto de aguadeiro em Porto Alegre (acima). Lápis, bico de pena e aquarela sobre papel, 2016.

O jornalista não traz os valores dos preços de sua época, mas os compara melancolicamente com preços[1] de cem anos antes (1824), o que faz pensar que teriam aumentado bastante.

Esse contexto geral de pobreza não era único de Porto Alegre. Tendo permanecido um país dependente no sistema internacional capitalista, o Brasil, cujo produto principal de exportação era então o café, teve sua economia bastante enfraquecida pela Primeira Guerra (1914-1918). Nesse cenário, o Rio Grande do Sul, que fornecia sobretudo charque aos grandes centros de produção cafeeira, também sofreu as consequências da queda das exportações nacionais de café, e ainda tinha de fazer frente à concorrência do charque platino. Desta forma, muitas eram as dificuldades de sobrevivência na cidade na década de 1920, com a famosa carestia, ou seja, o alto custo de vida, provocando instabilidades políticas e as primeiras greves operárias do país justamente no final dos 1910 e início dos 1920…

“A vida cara[2]

Até a agua augmentou 50% no preço

As classes pobres não sabem mais que reviravoltas dar, que malabarismo financeiro realizar, afim de enfrentarem a vida de hoje. Realmente, ella está ‘pela hora da morte’, está positivamente insupportavel. Os generos de primeira necessidade duplicaram, no mínimo, de preço; o vestuario triplicou, os alugueis subiram ao dobro. E, a todas essas, a perspectiva, a terrível perspectiva é de que o augmento proseguirá, num crescendo assustador.

Hoje a coisa está melhor e dá, até, para um ajudante…”

Vale, pois, a rememoração hoje dos preços dos generos nos bons tempos de 1824, segundo um jornal da época, e que, sobre ver curiosissima, nos mata de saudades: assucar, arroba 1$500 [R$ 12,55/kg]; carne secca, arroba 1$600 [R$ 13,38/kg]; farinha de trigo, arroba 2$600 [R$ 21,75/kg]; fubá, um alqueiro [sic] $600 [R$ 5,34/kg]; um queijo de Minas, $240 [R$ 2,00/kg]; rapaduras, $040 [R$ 4,92]; toucinho e carne de porco salgada, arroba 2$000 [R$ 16,73/kg]; cebolas, um cento $200 [R$ 0,24/un]; feijão, 20 litros $500 [R$ 3,75/kg]; gallinhas, uma $160 [R$ 19,68/un]; perú, um $400 [R$ 49,02/un]; porco gordo em pé, um 4$500 [R$ 553,50/un].

Bons tempos, não? Mas elles não alcançaram a nossa geração. Nem por isso, entretanto, podem deixar de servir de base, num cotejo com os preços actuaes, para a demonstração bem pouco explicavel da horrivel vida de hoje. O augmento generalisado constituiu-se moda, e moda ‘sui-generis’ pela sua irritante durabilidade…

Se até a agua, o precioso e baratíssimo liquido, passou a ser vendida de porta em porta e, com o advento da nova ‘moda’, está custando $150 [R$ 18,45] um pequeno barril!”

Autoria desconhecida.


[1] Segundo a pesquisa de para Laurentino Gomes para o livro 1808 : como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil (São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007) um mil réis (1$000) equivaleria a cerca de R$ 0,123 atuais. Os valores de uma arroba equivaleriam a 14,7kg e um alqueire a 13,8L segundo a Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Antigas_unidades_de_medida_portuguesas).

[2] Novidades, 11/06/1923, p. 1. Hemeroteca da BN Digital, Ed0006. A grafia original foi mantida.

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