O calor e a moda

Num momento em que a meteorologia anuncia uma onda inédita de calor para os próximos dias em Porto Alegre, vale a pena ler este editorial de A Máscara do distante fevereiro de 1918 para lembrar que hoje, ao menos, os costumes permintem usar menos roupas que àquela época!

Pensando bem, não deveria ser nada fácil perambular pela cidade ou até ficar em casa usando algumas camadas de roupas (camisas, coletes, paletós e colarinhos altos para os homens, e corseletes, calções, vestidos e meias-calças para as mulheres) e contando apenas com ventiladores de teto. Não é à toa, pois, que o torturado jornalista desabafa nas páginas da revista ilustrada, saudoso dos tempos imemoriais da bíblica folha de parreira, e amaldiçoando os modos ‘civilizados’ que ditavam o uso de tão sufocantes modas…

Realmente, a moda européia adotada nos trópicos devia aumentar em muito a venda de sorvetes.

Como o autor do editorial estava e como ele queria ter estado.
Lápis, bico de pena e aquarela sobre papel. Sketchbook da pesquisadora, 2014.

Editorial da revista A Mascara de 23/02/1918.

“O calor e a moda[1]

Não, positivamente, não! Com este calor de fornalha ardente, como se estivessemos no rescaldo de um formidavel incendio em que se nos antecipam as torturas do inferno, o homem só tem o dever de suar.

Não me peçam, pois, conceitos, idéias, imagens.

A propria penna, que agora empunho, foge-me de entre os dedos, numa sorrateira tentativa de evasão, seviciando inutilmente as tiras virgens em que as linhas mal se enfileiram.

O cerebro lasso, mal dirige a associação das idéias, que vêm a custo, expremidas, espessas, tropegas. Os membros exhaustos exigem inercias preguiçosas, doçuras frescas de linhos alvos; a attenção, dispersa, recalcitra, relapsa á disciplina, presa á trama vaga de um sonho que anda a esboçar scenarios alegres de Watteau, com sombras protetoras de frondes amplas, e corpos distendidos sobre relvas, frescas de orvalho, á margem de aguas crystallinas e murmurejantes.

Que mais se póde appetecer sob um céu causticante, com reverberos de aço incandescente, senão o refrigerio das grandes sombras que nos permittem solennemente abdicar de todos os proveitos sociaes dos collarinhos altos, das gravatas que estrangulam moralmente, e produzem dyspnéas afflictivas, das aperturas dos colletes?

Por um tempo destes não accode ao espirito outra idéa que não seja repetir incessantemente, entumecendo as bochechas, a já classica exclamação que, desde o paraizo, afflora naturalmente a todas as boccas humanas, quando o sol é ardente:

Uff! que calor!

E talvez esteja eu a commetter um erro de chronologia historica, fazendo datar do paraizo a celebre exclamação.

Effectivamente o calor baralha-me as idéias. Em primeiro logar o antigo Testamento não faz referencias especiaes á temperatura dos grandes dias genesiacos.

O calor, evidentemente, pelo menos nas suas peiores consequencias, é uma invenção moderna, obra de nossa civilização atrabiliaria que toda de imitações não tem sabido adaptar-se ás condições do meio e á variedade dos climas.

Nesses venturosos tempos, de tão vetusta memoria, em que o dôce casal primevo passeava aconchegado pelas alamedas do paraizo, atapetados de musgo, ouvindo cantas as fontes e chilrear os passaros num ramo de macieira, uma simples folha de parra bastava a todos os mais bizarros caprichos de toilette, da nossa amada mãe Eva e de seu veneravel esposo.

Vestiam-se bem mais de accordo com o tempo do que nós, seus degenerados e civilisados filhos.

Depois, os primeiros descendentes, já expulsos da previlegiada mansão, e portanto curtindo agruras de climas varios, começaram a utilizar as pelles dos animaes que aprezaram com o fim de nutrir-se, para proteger-se do frio.

Novas gerações, por um habito muito humano de ir acceitando tudo quanto nos transmitte uma curta tradição, sem analyse e porque a isso se misturou logo uma idéa de commercio e de ganho (a especialisação das funcções tinha inventado os indumentistas que confeccionavam e forneciam ao homem pelles addiccionaes) adoptamos logo a roupa como um facto consumado.

O zelo dos alfaiates, para garantia de suas industrias, transformou a nudez que era a obra util de Deus num habito reprovavel, e essa nudez que nossos primeiros paes ostentaram, sem pejo, aos olhos pudicos do Creador, passou a ser considerada immoral!

Mas ai! que estas épocas passaram! Pouco a pouco a modesta folha de parreira, na logica instinctiva da ambição, desejou maiores grandezas. Já lhe não bastava o restricto das primitivas attribuições. Começou, sem mais, a crescer. Invadiu o corpo offerecendo-lhe uma segurança de couraça; comprimiu o collo num anceio; bifurcou-se em tentaculos e cingiu os braços, e foi sempre além da tarefa de deformar, methodicamente, todas as perfeições acaso remanescentes de perdidas maravilhas.

E ahi está como, para gaudio das modas de Chassé d’Antin, para fortuna dos Pasquin, dos Poole e outros sabios creadores de imprevistos estheticos, vive o corpo afogado em falbalas e em tufos, em sêdas e casemiras pretas, a soprar por toda a parte a sua exclamação desesperada:

Uf! que calor! enchendo-se de sorvetes e refrescos como se devesse apagar um incendio interno.

Quanto mais logico, seria que cada qual lançasse mão do recurso natural e sincero de desembaraçar-se mui innocentemente dessas complicações que lhe envolvem o corpo sob o pretexto de moralidade.

E agora não faltará quem queira accusar a decencia destas linhas sem malicia de tão ingenua simplicidade.

Fructos de uma civilisação de preconceitos.

Eu deveria, sem duvida, aqui o reconheço, envolver as minhas palavras em pezados e discretos estofos atravez do qual não passasem olhares indiscretos.

Mesmo porque o prazer, o gozo verdadeiro dos homens sérios não está em ver a nudez que se revela e se mostra, ostensiva dos bons costumes mas em ver a que se occulta, exigindo o trabalho preliminar de ser desvendada.

Mas, francamente, com um calor destes, a queimar-me o sangue, eu não podia impôr á minha chronica pezadas roupagens de inverno.

E se alguem achar, (o que será uma grave injustiça) que as minhas idéas exhibem-se demasiadamente á fresca, queixem-se ainda deste estopante calor que anda a crestar os derradeiros dias deste Fevereiro.”

Fonte: A Mascara. Ed00003, 23/02/1918, pp. 9-10. Anno I Número III. Hemeroteca da BNDigital.


[1] A grafia original foi mantida.

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