Detalhe de qqueuadrinho - demolição da Casa Carvalho

O bairro rico: Moinhos de Vento

O bairro Moinhos de Vento permanece até hoje no imaginário da cidade como um bairro de famílias ricas, estabelecimentos e atividades requintadas, e isso vem de um passado já distante. Na minha história em quadrinhos, situo nele a residência da família Waldoff, núcleo “abastado” da narrativa e que recria o quotidiano – bem diferenciado daquele das pessoas dos becos – das famílias de origem alemã que, enriquecidas, situaram-se ali.

A famosa avenida Independência em um dos quadros das páginas do volume 2 de Beco do Rosário. Lápis e nanquim sobre papel Fabriano 5 satinado, 2018-19.

Seu nome, segundo Sérgio da Costa Franco,

[…] decorreu do nome da Rua 24 de Outubro, que até 1930 se denominava Rua Moinhos de Vento, como antes se chamara Estrada ou Caminho dos Moinhos de Vento a av. Independência [1].

Ainda que nada tenha restado deles hoje, havia mesmo, segundo o autor, moinhos de vento na zona fronteiriça entre o que hoje é o centro histórico de Porto Alegre e o bairro Moinhos de Vento:

A origem do curioso topônimo está nos moinhos de vento que possuiu, à altura da Rua Barros Cassal em seu cruzamento com a Av. Independência, o cidadão Antônio Martins Barbosa […].


Detalhe da “Planta da Cidade de Porto Alegre”, de A.A. Trebbi (1906), mostrando o bairro Moinhos de Vento. Fonte: Mapoteca do IHGRGS.

Sandra Pesavento vem ao encontro do que o autor diz, quando afirma que

[…] na continuidade da crista da colina, passando o Portão da Cidade e a Santa Casa, estendia-se o Caminho dos Moinhos de Vento (atual Avenida Independência), como que a prolongar a zona alta da cidade, e dando origem, mais além, ao arraial de São Manoel (atual bairro de Moinhos de Vento) [2]

Como caminho para a parte alta do centro da cidade, em continuação à rua Duque de Caxias, ao longo do Caminho dos Moinhos de Vento ou Avenida Independência instalaram-se muitas famílias de origem alemã das colônias próximas a Porto Alegre. Em especial as que haviam enriquecido com o estebelecimento de pequenas indústrias na virada do século XIX para o XX, e assim podido deixar cidades como São Leopoldo ou Novo Hamburgo para morar na Capital do Estado.


Morador da Avenida Independência. Charge da Revista Iris, ano II, nr. 6, out. de 1921 (IHGRS). In: Kersting, 1998, p. 155.

Arnaldo Doberstein lembra da contribuição do comerciante Antônio José Gonçalves Mostardeiro para o arruamento e organização do bairro:

[…] o finado Mostardeiro, ‘homem de vistas largas e trabalho inteligente’[3], pelo seu arrojo em limpar, medir, dividir, drenar e nivelar uma vasta extensão de terreno inculto, como o bairro Moinhos de Vento, e transformá-lo no ‘arrabalde mais elegante de Porto Alegre; com linha de bonde e tudo mais’[4].

Desde o final do século XIX a rua Mostardeiro homenageia o ilustre habitante do bairro, que desde esta época vem sendo urbanizado. Talvez por isso, também, a Avenida Independência tenha sido uma das primeiras a receber o que na década de 1920 havia de mais moderno em termos de urbanização. Segundo Charles Monteiro,

 A avenida Independência recebe um novo calçamento de paralelepípedos e um sistema de iluminação moderno ‘Nova Lux’ em dois níveis distintos. Esta rua era a nova via aristocrática da cidade, na qual concentravam-se os palacetes da burguesia em ascensão. De perfil residencial, foi a primeira área, após o centro, a gozar de todos os chamados serviços industriais.[5] [grifo da pesquisadora]

Os serviços industriais, que incluíam iluminação pública, abastecimento de água, recolhimento de lixo, estavam sendo alvo de uma campanha de grande modernização e regularização pela municipalidade sob a administração de Otávio Rocha, e sua extensão ao bairro Moinhos de Vento indica a importância e poder deste bairro na cidade. Conforme o jornal A Federação de 12/5/1927, não apenas as luminárias seriam novas, como teriam também fiação subterrânea, algo raro mesmo nos melhores bairros da Porto Alegre atual: “os fócos serão alimentados por distribuidores subterraneos, collocados sob o passeio”[6].

Da mesma forma, cerca de dez anos antes, Andradina de Oliveira, no romance O Perdão,já à sofisticação das casas do Moinhos de Vento:

 […] o Luiz, depois de arrumar de novo a mesa para o amo quando voltasse às onze, também se embriocava no seu quartinho, onde uma campainha elétrica o avisava que precisavam dele. Por toda casa havia campainhas para que a ordem não fosse nunca perturbada. […] Tudo estava previsto naquela vivenda moderna, uma das primeiras do bairro rico dos Moinhos de Vento. [7]

A autora, no mesmo livro, menciona o quotidiano pacato e bucólico da Praça Júlio de Castilhos, um dos pontos de referência do bairro: “findo o almoço, a criadinha e a ama saíram com os pequenos a passear para a Praça Júlio de Castilhos, então um horto de rosas em começo de estio”[8].

Vê-se que o bairro Moinhos de Vento tem uma longa tradição de ser percebido como um espaço nobre de Porto Alegre, o que contribuiu para a sua permanência no imaginário local como uma das áreas mais valorizadas da cidade.


O início da avenida Independência. Revista A Máscara. Número Comemorativo do Centenário da Independência, 1922. Hemeroteca do MCSHJC, Porto Alegre.

Trecho da rua Independência. Notar as elegantes casas e palacetes em estilo eclético, o mais moderno à época, com seus torreões e cúpulas metálicas. Revista A Máscara. Número Comemorativo do Centenário da Independência, 1922. Hemeroteca do MCSHJC, Porto Alegre.

Vista do suntuoso jardim do palacete de Luiz Palmeiro à rua Independência. Revista A Máscara. Número Comemorativo do Centenário da Independência, 1922.
Hemeroteca do MCSHJC, Porto Alegre.

Referências:

A Federação, 12/5/1927, p. 2. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/).

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 278-279.

KERSTING, Eduardo. Indícios em representações: denominações em torno da Colônia Africana.Porto Alegre: Revista Anos 90, n. 9, Julho de 1998, pp. 150-164.

MONTEIRO, Charles. Porto Alegre: urbanização e modernidade: a construção social do espaço urbano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.

OLIVEIRA, Andradina. O Perdão. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2010 [1910].

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008.


[1] FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 278-279.

[2] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008. P. 27.

[3] Correio do Povo, 27 mar. 1904, p. 1.

[4] Correio do Povo, 27 mar. 1904, p. 1.

[5] MONTEIRO, Charles. Porto Alegre: urbanização e modernidade: a construção social do espaço urbano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995. p. 108.

[6] As obras municipaes, em A Federação, 12/5/1927, p. 2. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/).

[7] OLIVEIRA, Andradina. O Perdão. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2010 [1910]. pp. 108-109.

[8] OLIVEIRA, Andradina. O Perdão. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2010 [1910]. p. 178.

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