Antes da Catedral de Porto Alegre que temos hoje, construída na década de 1930, o templo que antes ocupava o seu lugar era uma igreja tipicamente colonial portuguesa, construída ainda no século XVIII. Se ainda estivesse em pé, seria um dos marcos mais antigos da cidade e uma das raras testemunhas da Porto Alegre colonial que teríamos, ostentando sua raiz comum com as catedrais de tantas outras cidades brasileiras.

Ao seu lado, também existia a Capela do Divino, um pequeno templo em estilo gótico que pode ser encontrado em diversas fotografias dos arquivos da cidade. Conforme explica a matéria, ela foi contruída na década de 1880, e igualmente demolida no final dos anos 1920 para dar lugar à nova catedral metropolitana, que atualmente dá nome à Praça da Matriz.

A reportagem abaixo, do jornal Correio do Povo, celebra esses dois templos da cidade pouco antes de sua demolição. Um esforço de preservar a memória da cidade que se moderniza a todo vapor?

“Desapparece, com a Matriz e a Capella, uma das mais bellas tradições da cidade[1]

Breves dados históricos sobre os dois antigos templos, que serão demolidos para dar logar á construcção da nova Cathedral Metropolitana

Através delles resurge a Porto Alegre de outras eras, com habitos e praticas que hoje parecerão ridiculos

Com a Matriz e o Imperio desapparece uma das mais bellas e enternecedoras tradições da cidade.

E agora, que se vae iniciar a demolição da secular Cathedral Metropolitana, antiga egreja da […] como foi conhecida durante alguns decennios, afigurava-nos interessante relembrar alguns dados historicos desse templo, tão ligado á vida de Porto Alegre.

A egreja matriz

[…] nobres e venerandas tradições, foi edificada na segunda metade do seculo dezoito quando a nossa capital se denominava Porto dos Casaes, em homenagem, como se sabe, aos casaes açorianos que em 1742 vieram estabelecer-se aqui.

Era ella, então, uma egreja magnifica, que serviu durante muito tempo para dar testemunho da fé profunda e do espirito de religião de nossos antepassados.

Com o desenvolvimento, da cidade, porém, já a Matriz não correspondia ás exigencias do […] e á dignidade da sua congregação de cathedral metropolitana.

Foi, então, lembrada a idéa de construir um novo tempo, majestoso e confortavel, que acompanhasse o progresso da capital.

O inclito d. Sebastião Las […] e d. Claudio Ponce de Leão, já haviam pensado numa obra grandiosa, que foi criada no episcopado de d. João Becker, ha apenas sete annos.

Reportagem do Correio do Povo de 24/3/1929 fotografada pela pesquisadora. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre.

O nome primitivo

Augusto Porto Alegre, em sua […] sobre a historia da fundação de Porto Alegre, occupando-se do movimento religioso da nossa capital, teve oportunidade de referir-se ao templo em esperas de ser demolido.

Diz elle que o ‘orago primitivo’ da capital fôra primeiramente a S. José, depois de São Francisco, substituído ainda a 18 de janeiro de 1773 pelo de N. Senhora Madre de Deus, em virtude de um pedido do governador e invocação de sua especialização e por ser também a querida santa sua madrinha.

O primeiro vigario encomendado foi o padre José Gomes de Faria, nomeado a 26 de março de 1772 para o oratorio de S. Francisco, servindo então de matriz e que era uma egreja, segundo uns, situada á praça Senador Florencio[2], onde hoje se encontra o Cinema Guarany, e, segundo outros, á rua dos Andradas, esquina da Paysandu, antigo becco do Fanha[3].

O custo da cathedral

Resolvida a construcção da egreja de Nossa Senhora Madre de Deus, hoje antiga cathedral, foi encarregado das obras o pedreiro José Rodrigues Pimentel, que a executou, tal como ainda hoje se apresenta exteriormente.

A principio tinha ella, concluida, uma torre só, a do lado direito, que tem o nome de Nossa Senhora Madre de Deus. Mais tarde, a outra da esquerda, que se denominou de São Miguel e Almas, visto que essa tambem secular irmandade passou a funccionar em uma das dependencias do templo, onde ainda tem a sua secretaria.

A referida irmandade irá funccionar d’ora em diante, temporariamente, em um seu predio da rua Jeronymo Coelho e, mais tarde, na nova cathedral, segundo accordo com a curia metropolitana.

“A Cathedral a ser em breve demolida vista de lado”. Fotógrafo desconhecido, Correio do Povo, 24/3/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre.

O custo da obra, naquelle tempo, foi de 500$000, preço mais que infimo, apesar do tempo em que isso occorreu, e apesar de saber-se que ella teve grandes auxilios materiaes e pessoal gratis.

‘Occorrendo a fundação da matriz, diz ainda Augusto Porto Alegre, o vigario não consentia que tivesser começo as obras, sem que primeiramente houvesse licença do ordinario, pelo que publicou edital, dando em resultado ver-se ameaçado de prisão pelo governador, caso persistisse em manter sua publicação.

Resolveu-se, afinal, o pleito, com a interferencia da camara perante o governador, continuando os preparativos e trabalhos de construcção sem novidade alguma.’

As devoções

Póde-se dizer que a Matriz (cathedral), tem tambem seu nome ligado á creação de devoções, irmandades, etc… tendo surgido só depois as varias egrejas que se acham espalhadas por diversos pontos da capital.

Na Cathedral funccionam as seguintes irmandades: do Santissimo Sacramento, fundada em 1772; S. Miguel e Almas, em 1773 e que poussue um dos mais importantes cemiterios da capital; de Santa Cecilia, em 1836; devoções de Santo Antonio, fundada em 1844; Santa Rita de Cassia, em 1885; São João Baptista, em 1886, e Sant’Anna e São Francisco de Assis, fundadas em 1887.


“Interior da antiga Cathedral”. Fotógrafo desconhecido, Correio do Povo, 24/3/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre.

Os altares

Em noticias anteriores, informamos que os altares da antiga matriz foram transportados e armados na crypta da nova cathedral, sendo que essa deliberação foi tomada por tratar-se de trabalhos de estylo colonial de muito valor artistico e que, mandados construir hoje, custariam avultadas importancias.

O sr. arcebispo d. João Becker resolveu, tambem, a referida transferencia, porque deseja que a crypta constitua uma especie de museu de todas as nossas cousas antigas, em materia religiosa.

A cathedral, que será demolida dentro de poucos dias, possuia no seu corpo geral cinco altares: além de sua padroeira, Nossa Senhora Madre de Deus, veneraram-se durante dezenas de annos, os santos acima mencionados, além dos seguintes: Nossa Senhora das Dôres, Espirito Santo, São José, São João Baptista, São João Evangelista, São Braz, São Paulo e São Sebastião.

Capella anexa

Annexa á antiga cathedral, existia tambem a capella do Santissimo Sacramento, onde, por muito tempo, se realisaram actos que não exigiam um local mais amplo.
Havia naquelle [sic] capella, tres altares, com a imagens do Senhor dos Passos, Nossa Senhora do Parto e Senhor da Paciencia.


“Um dos mais ricos altares transferidos para a crypta da nova Cathedral”. Fotógrafo desconhecido, Correio do Povo, 24/3/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre.

Bandeiras historicas

Em todos os tempos, quer no velho, quer no novo regimen, a Cathedral foi o ponto preferido para as grandes commemorações religiosas e dos mais salientes acontecimentos.

Quando foi da determinação da guerra do Paraguay, as forças de dali regressaram, depositaram na cathedral, onde ainda se encontram, as diversas bandeiras trazidas, sempre guardadas carinhosamente.

Annos atraz, o Tiro de Guerra 4, realisando uma festa patriotica, conseguiu do sr. arcebispo d, João Becker, fossem ellas mostradas ao povo, do alto da escadaria do antigo templo, desfilando por essa occasião, os atiradores dessa velha sociedade.

Os sinos

Da antiga cathedral contam, tambem, uma existencia de dezenas de annos.

Hontem, pela manhã, tivemos opportunidade de subir em ambas as torres, afim de verificar o estado em que se encontram e a data de sua construcção.

Para conseguir alcançar as torres, faz-se mistér um pouco de gymnastica, pois em determinados pontos os degráos da escada já não offerecem muita segurança. Fomos, primeiro, á torre de direita, a primeira construida, chamado Santissimo.

São em numero de quatro os sinos ali existentes sendo dois grandes e dois pequenos. Um delles tem o nome de São Pedro e. gravado no dosro ‘S. S. da M. de Porto Alegre’. O outro, ‘N. S. Madre de Deus de Porto Alegre – 1809.’

Outro sino ali existente e que está fendido, tem a denominação de São Francisco.

Todos elles contam mais de um seculo de existencia.

A outra torre, situada do lado esquerdo, chama-se São Miguel em homenagem á irmandade de São Miguel a Almas. Dos quatro sinos ali existente, um tem gravados os dizeres – ‘Irmandande de São Miguel e Almas de Porto Alegre – 1879’.

Outro sino chama-se Dom Sebastião e lê-se nelle a seguinte inscripção: ‘Maternitati B. Maria Virginis O.D.O. – Sebastianus Episcopus St. Tetri Fluminis Grandensis Australes – 1868’;

Existem, na mesma torre, dois outros sinos pequenos, tambem construidos há dezenas de annos.

Os sinos existentes na torre de São Miguel, toca, apenas actos festivos, por occasião da chegada do arcebispo e de actos dessa antiga irmandade.

Os sineiros foram sempre pessoas que se empregaram nesse mistér durante longos annos, sendo que o sr. Procopio Araujo, já ali vem servindo a 17 annos.


“A capella do Santissimo que funccionava na antiga Cathedral”. Fotógrafo desconhecido, Correio do Povo, 24/3/1929. Hemeroteca do AHMMV de Porto Alegre.

A capella do Divino Espírito Santo

A construcção da nova Cathedral, exige a demolição da capella do Divino Espirito Santo, pertencente á irmandade do mesmo nome.

O seu arrazamento, porém, só se verificará depois dos festejos deste anno em louvour do Espirito Santo e que se realisarão por todo o mez de maio proximo.

A capella do Divino Espirito Santo, pertence á mesma devoação instituida no anno de 1772, mais ou menos. Desde os seus primeiros dias, na praça da Matriz, hoje Marechal Deodoro.

A capella actual que é de construcção elegante, custou a quantia de 34 contos de réis, construída, chamada do Santissimo.

Por lei de 12 de maio de 1875 passou a ser irmandade e por outra de 18 de março de 1881 voltou a ser devoção por solicitação dos irmãos afim de conservarem a primitiva organisação. Mais tarde, porém, voltou a ser irmandade.

Como acima dissemos, é antiquissima tal devoção, não sendo portanto de admirar a actual capella seja a terceira que surgiu naquelle local.

A primeira, edificada ouco mais ou menos em 1872, tinha cinco portas de frente; a segunda, que foi demolida em 1882, tinha tres aberturas e cedeu logar á actual cuja pedra fundamental foi lançada a 25 de março de 1882, concluindo-se a obra em 1884.

Capela do Divino Espírito Santo, déc. 1900. Virgílio Calegari. Fototeca Sioma Breitman do Museu Joaquim José Felizardo de Porto Alegre.

Sepultamento

Há sete annos, quando se procedeu o desaterro dos fundos da cathedral, afim de iniciar a construcção da actual crypta, foram encontradas, ali numerosas ossadas humanas, donde se conclue que no local da antiga egreja matriz se fizeram sepultamentos.

Agora, quando se realisarem as novas escavações provavelmente serão encontrados outros despojos que ali devem existir, ao que se presume, há mais de um seculo.

O destino de um sino

Conta o conhecido historiador Coruja que, chegando a esta capital o major engenheiro João Vieira de Carvalho, depois marquez de Lages, tenente-general, senador e ministro da Guerra, mais de uma vez mandou desalojar uma mulher que residia á rua Riachuelo, antiga da Ponte, pagando pela casa 8$000, ou meia dobra, como então se dizia. Havia um sino para annunciar taes desappropriações.

Foi observada essa practica desde 1780 até 1805, anno em que começou a ser relaxada. O sino utilisado para esse fim foi comprado por José Vieira de Macedo, por cem mil réis, afóra as alavancas e mais ferragens: era elle pequeno e deixando de servir áquelles propósitos foi mandado dar ao templo que mais necessitasse e cre-se, com razão, estar elle na Cathedral, pois só depois daquelle anno é que tivemos outras egrejas.

O mesmo acontecia a quaesquer outros actos em que a camara comparecia; o não comparecimento ás festas da Cathedral era falta grave punida com prisão e multa de 2$000.

Em 1807 tiveram de soffrer esta pena – Antonio Monteiro de Barros, Manoel José Pinheiro e o mestre de musica Ignacio José de Filgueras, que não acompanharam a procissão de Corpus Christi.

Com esse intuito, o dr. Candido Ladislau […], ouvidor interino da comarca em 1827, offereceu bilhetes de uma loteria á Camara, afim de, no caso de sahirem premiados, ser applicado naquelle serviço o seu producto.”

[Autor desconhecido]

Referências:

Correio do Povo, 24/3/1929. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre.


[1] A grafia original foi mantida.

[2] Atual Praça da Alfândega.

[3] Atual rua Caldas Júnior.

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