Oficina do quadrinhista alemão Reinhard Kleist
Goethe Institut de Porto Alegre, 20.10.2009


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Biografias em quadrinhos
- concebendo o projeto

A concepção da biografia de Fidel Castro (em andamento) se deu após a viagem do artista à Cuba para a realização de “Havanna – Eine Kubanische Reise”, uma “Reise-comic” (viagem em quadrinhos) em formato de “carnet de voyage” (caderno de viagem).

A documentação e pesquisa foi feita basicamente através de estudos de biografias do personagem, de livros de fotografias, filmes e entrevistas.

Como o tema já é muito documentado e estudado, Kleist acha importante fazer um extenso trabalho de documentação antes de começar a escrever e desenhar a história afim de evitar que haja erros, incoerências e anacronismos e assim dar credibilidade ao trabalho. Para isso, estudou vários livros a respeito do tema antes de começar a escrever.

O autor chega ao ponto de estudar vídeos de Fidel Castro, buscando observar e depois captar a maneira como ele se move, como ele soa nos seus discursos (sim, aqui até o tom e o timbre de sua voz são fontes inspiradoras para o artista durante a concepção e documentação do projeto, pois influenciam a maneira como ele retrata o personagem), como ele se porta em frente ao público. Com o vídeo pausado no YouTube, Kleist busca captar em esboços rápidos as expressões, os trejeitos característicos de Fidel afim de poder transpô-los para o papel com máxima fidelidade.

O jornalista Augusto Paim entrevista o quadrinhista Reinhard Kleist
no auditório do Goethe Institut de Porto Alegre, 19.10.2009 (fonte:
www.reinhard-kleist.de)

Kleist também se serve de fontes secundárias para a sua pesquisa, como entrevistas de pessoas que se relacionaram com Fidel e que escreveram suas impressões em livros e entrevistas diversas.

Consultorias

Também é muito importante montar uma rede de contatos, geralmente professores, estudiosos, jornalistas especializados no assunto a serem consultados durante a etapa de pesquisa. Entretanto, essa contribuição profissional e altamente qualificada geralmente tem um alto custo que impacta no custo da produção da obra, o que por vezes é contornado com acordos de troca de espaço publicitário na publicação (nem sempre desejável) ou serviços a serem prestados para outros projetos (como a criação de capas de CDs para a gravadora cujo representante foi consultor para a biografia de Johnny Cash).

Direitos de imagem e questões jurídicas

No que concerne os direitos sobre as informações do biografado, não há necessidade de haver qualquer pagamento para possibilitar a publicação de uma biografia. No entanto, é necessário permanecer verdadeiro aos fatos e não distorcê-los a ponto de incorrer em inverdades que sejam atribuídas ao personagem, pois isso colocaria o autor sob o risco de sofrer processos judiciais.

Estudos para o personagem de Fidel Castro. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist)
Como tornar a biografia atraente para o público?

Se é aconselhável deter-se aos fatos verídicos da biografia, também é recomendável adicionar uma certa dose de dramaticidade aos mesmos para manter o leitor interessado e não se limitar a apresentar uma simples e insossa cronologia da vida do biografado (ainda que o seja em belos desenhos). O autor deve procurar trazer o leito para o seu “lado”, conduzi-lo através da narrativa usando, por exemplo, um personagem fictício narrador(no caso de Kleist, estes ainda são inspirados em pessoas reais, não puramente inventados) que servirá de intermediário e estabelecerá o diálogo entre os fatos e posicionamentos históricos e o autor e leitor.

Um autor que escreve sobre um tema ou realidade à qual é estrangeiro, como é o caso de Kleist em “Havanna”, pode facilitar essa aproximação e, por vezes, explicar o conflito de posicionamentos, culturas e idéias que daí surgem através de um personagem fictício também estrangeiro. Este será, assim, seu porta-voz dentro da história e servirá para mostrar a realidade estudada através dos olhos do autor.

Cartaz da exposição da "viagem em quadrinhos" Havanna. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist)


Escrevendo o roteiro - o momento para tomar decisões importantes!

O autor deve antes de tudo definir qual é a sua INTENÇÃO ao conceber o projeto. Kleist, por exemplo, chegou ao ponto de telefonar para seu editor perguntando-lhe se não seria o caso de desistir da biografia em quadrinhos de Johnny Cash uma vez que uma cinebiografia do mesmo cantor estava sendo feita em Hollywood. O que lhe convenceu a continuar o projeto, porém, foi a diferença de ENFOQUE do filme: de maneira diversa à biografia em quadrinhos na qual Kleist traz para o primeiro plano a música de Johnny Cash, o filme focaliza a vida pessoal e amorosa do artista.

Kleist não estudou qualquer literatura disponível sobre técnica de escrever roteiros, simplesmente foi desenvolvendo sua própria maneira de conceber e trabalhar os textos ao longo da carreira. Sua visão é cinematográfica, a qual transpõe para o papel sob a forma de textos decupados descrevendo cada quadro de cada página.

Da mesma forma, o dimensionamento do projeto é importante uma vez que, em função do dimensionamento do papel de impressão usado pelas gráficas, o número de páginas por álbum com melhor relação custo/benefício é de 48.

Avaliação do roteiro - buscando opiniões de fora

Antes de partir para os desenhos, o autor busca submeter seu roteiro pronto à várias outras pessoas, entre família e amigos, que estejam suficientemente distanciados do projeto para dar-lhe uma avaliação profunda e precisa, apontar erros e passagens que devem ser modificadas, ou que não estejam claras para o leitor casual. A clareza e a boa comunicação com o leitor são fundamentais.

Da mesma maneira, a clareza se faz necessária no “casting” (elenco) do projeto, ou seja, na hora de definir as aparências dos personagens da história. Estudos de particularidades étnicas e fisionômicas são importantes, assim como a atribuição de características visuais marcantes o suficiente para que o leitor não confunda os personagens ao longo da narrativa.

Acima: páginas a lápis da biografia de Fidel Castro.
Embaixo: Página a lápis da mesma obra. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist)
Produção das páginas

Da sequência imaginada no roteiro vem a composição visual de cada página, a especificação do formato dos seus quadrinhos a fim de reforçar e valorizar a narrativa. Os espaços para os textos são pensados durante esta etapa, ainda que os balões não sejam diretamente desenhados na página original mas sim adicionados digitalmente. Esse procedimento não só permite uma maior flexibilidade de formatação do texto no caso de traduções da obra para diferentes idiomas, como também valoriza a página como original a ser vendido como obra de arte para galerias especializadas como a alemã Laqua e a francesa Daniel Maghen. A colocação dos textos definitivos fica por conta do editor.

Todas as páginas são primeiramente esboçadas a lápis para que o artista possa ler a narrativa visual do álbum e mostrá-la a outras pessoas de fora para, mais uma vez, verificar os pontos em que esta não funciona e precisa ser modificada. Só após estar seguro da qualidade da narrativa, e ter feito as correções necessárias, Kleist passa então à arte-final de cada página com pincel fino e tinta nanquim.

Uma vez concluída a arte-final com nanquim, os traços de lápis dos esboços são cuidadosamente removidos com borracha, provavelmente macia, a fim de não danificar a superfície da folha de papel que, em seguida, receberá diretamente a pintura na técnica da aquarela.

Colorização direta e a busca pela harmonia de cores

Esta técnica é usada por artistas já experimentados e assim menos propensos a cometer erros que os levem a ter que refazer toda a página, e é chamada de “technique de couleurs directes” em francês. No caso de Kleist, o papel usado é o Arches Aquarell Dorée, que além da resistência e absorção adequadas não é tão caro como outros papéis especiais.

Como cada página conta com vários quadros, é importante estabelecer uma boa harmonia de cores nos mesmos como um todo, usando a cor para marcar mudanças de ambiente e de atmosfera na narrativa. Assim, a técnica de estabelecer um tom dominante para a página e pintá-la inteiramente neste tom, deixando-a secar para que o papel possa esticar suas fibras com o contato da água, é interessante. Uma vez estabelecida a cor dominante para a página inteira ou para determinadas partes, a tarefa de escolher as outras cores torna-se mais fácil para o artista e tende a ser mais coerente com o tom dominante, criando uma harmonia de cores mais efetiva e agradável.

As zonas mais iluminadas são adicionadas com tinta ecoline ou aquarela branca.

Dignos de nota na área da colorização são os artistas Jacques Tardi (“Adèle Blanc-Sec”), cujo esquema de cores inspirou o da série Hellboy, e a colorista Sherilyn van Valkenburgh (“Enigma”, “The names of Magic”).

Acima: páginas a nanquim da biografia de Johnny Cash.
Embaixo: Página colorida do álbum "Berlinoir". (Fonte: http://www.comicoriginalart.com/)

Prática profissional

O artista ressalta a importância de poder dividir um atelier com outros artistas, pois facilita a troca de idéias e disciplina um trabalho que, via de regra, é solitário e lento. Um artista de quadrinhos pode também trabalhar em ramos afins como desenho de imprensa, livros paradidáticos, ilustração de obras clássicas literárias adaptadas para o formato de livro ilustrado ou quadrinhos como forma de complementar sua renda e viabilizar seus projetos autorais.

Estratégias comerciais

O sucesso de uma obra de quadrinhos depende, além da boa divulgação e distribuição do lançamento, da abordagem de um tema capaz de atrair a parte do público que não lê quadrinhos habitualmente, como é o caso da biografia de Johnny Cash e do projeto biográfico sobre Fidel Castro que está em andamento. Escolhas desta natureza tendem a atrair uma considerável atenção da imprensa cultural e, consequentemente, atingir vendagens mais expressivas. O uso dos serviços de um assessor de imprensa sempre é importante na medida em que pode-se criar estratégias para atrair a atenção do público sobre determinado lançamento através de concursos, eventos, etc.

Ana Luiza Koehler

Reinhard Kleist no seu atelier em Berlim.
(Fonte: http://www.reinhard-kleist.de)

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