Biografias em quadrinhos - concebendo o projeto
A concepção da biografia de Fidel Castro (em andamento)
se deu após a viagem do artista à Cuba para a realização
de “Havanna – Eine Kubanische Reise”, uma “Reise-comic”
(viagem em quadrinhos) em formato de “carnet de voyage”
(caderno de viagem).
A documentação e pesquisa foi feita basicamente através
de estudos de biografias do personagem, de livros de fotografias, filmes
e entrevistas.
Como o tema já é muito documentado e
estudado, Kleist acha importante fazer um extenso trabalho de documentação
antes de começar a escrever e desenhar a história afim
de evitar que haja erros, incoerências e anacronismos e assim
dar credibilidade ao trabalho. Para isso, estudou vários livros
a respeito do tema antes de começar a escrever.
O autor chega ao ponto de estudar vídeos de
Fidel Castro, buscando observar e depois captar a maneira como ele se
move, como ele soa nos seus discursos (sim, aqui até o tom e
o timbre de sua voz são fontes inspiradoras para o artista durante
a concepção e documentação do projeto, pois
influenciam a maneira como ele retrata o personagem), como ele se porta
em frente ao público. Com o vídeo pausado no YouTube,
Kleist busca captar em esboços rápidos as expressões,
os trejeitos característicos de Fidel afim de poder transpô-los
para o papel com máxima fidelidade.
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O jornalista Augusto Paim entrevista
o quadrinhista Reinhard Kleist
no auditório do Goethe Institut de Porto
Alegre, 19.10.2009 (fonte:
www.reinhard-kleist.de)
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Kleist também se serve de fontes secundárias
para a sua pesquisa, como entrevistas de pessoas que se relacionaram
com Fidel e que escreveram suas impressões em livros e entrevistas
diversas.
Consultorias
Também é muito importante montar uma rede de contatos,
geralmente professores, estudiosos, jornalistas especializados no assunto
a serem consultados durante a etapa de pesquisa. Entretanto, essa contribuição
profissional e altamente qualificada geralmente tem um alto custo que
impacta no custo da produção da obra, o que por vezes
é contornado com acordos de troca de espaço publicitário
na publicação (nem sempre desejável) ou serviços
a serem prestados para outros projetos (como a criação
de capas de CDs para a gravadora cujo representante foi consultor para
a biografia de Johnny Cash).
Direitos de imagem e questões jurídicas
No que concerne os direitos sobre as informações do biografado,
não há necessidade de haver qualquer pagamento para possibilitar
a publicação de uma biografia. No entanto, é necessário
permanecer verdadeiro aos fatos e não distorcê-los a ponto
de incorrer em inverdades que sejam atribuídas ao personagem,
pois isso colocaria o autor sob o risco de sofrer processos judiciais.
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Estudos
para o personagem de Fidel Castro. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist) |
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Como tornar a biografia atraente para o público?
Se é aconselhável deter-se aos fatos verídicos
da biografia, também é recomendável adicionar uma
certa dose de dramaticidade aos mesmos para manter o leitor interessado
e não se limitar a apresentar uma simples e insossa cronologia
da vida do biografado (ainda que o seja em belos desenhos). O autor
deve procurar trazer o leito para o seu “lado”, conduzi-lo
através da narrativa usando, por exemplo, um personagem fictício
narrador(no caso de Kleist, estes ainda são inspirados em pessoas
reais, não puramente inventados) que servirá de intermediário
e estabelecerá o diálogo entre os fatos e posicionamentos
históricos e o autor e leitor.
Um autor que escreve sobre um tema ou realidade à qual é
estrangeiro, como é o caso de Kleist em “Havanna”,
pode facilitar essa aproximação e, por vezes, explicar
o conflito de posicionamentos, culturas e idéias que daí
surgem através de um personagem fictício também
estrangeiro. Este será, assim, seu porta-voz dentro da história
e servirá para mostrar a realidade estudada através dos
olhos do autor.
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Cartaz da exposição da
"viagem em quadrinhos" Havanna. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist)
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Escrevendo o roteiro - o momento para tomar decisões importantes!
O autor deve antes de tudo definir qual é a sua INTENÇÃO
ao conceber o projeto. Kleist, por exemplo, chegou ao ponto de telefonar
para seu editor perguntando-lhe se não seria o caso de desistir
da biografia em quadrinhos de Johnny Cash uma vez que uma cinebiografia
do mesmo cantor estava sendo feita em Hollywood. O que lhe convenceu
a continuar o projeto, porém, foi a diferença de ENFOQUE
do filme: de maneira diversa à biografia em quadrinhos na qual
Kleist traz para o primeiro plano a música de Johnny Cash, o
filme focaliza a vida pessoal e amorosa do artista.
Kleist não estudou qualquer literatura disponível sobre
técnica de escrever roteiros, simplesmente foi desenvolvendo
sua própria maneira de conceber e trabalhar os textos ao longo
da carreira. Sua visão é cinematográfica, a qual
transpõe para o papel sob a forma de textos decupados descrevendo
cada quadro de cada página.
Da mesma forma, o dimensionamento do projeto é importante uma
vez que, em função do dimensionamento do papel de impressão
usado pelas gráficas, o número de páginas por álbum
com melhor relação custo/benefício é de
48.
Avaliação do roteiro - buscando opiniões
de fora
Antes de partir para os desenhos, o autor busca submeter seu roteiro
pronto à várias outras pessoas, entre família e
amigos, que estejam suficientemente distanciados do projeto para dar-lhe
uma avaliação profunda e precisa, apontar erros e passagens
que devem ser modificadas, ou que não estejam claras para o leitor
casual. A clareza e a boa comunicação com o leitor são
fundamentais.
Da mesma maneira, a clareza se faz necessária
no “casting” (elenco) do projeto, ou seja, na hora de definir
as aparências dos personagens da história. Estudos de particularidades
étnicas e fisionômicas são importantes, assim como
a atribuição de características visuais marcantes
o suficiente para que o leitor não confunda os personagens ao
longo da narrativa.
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Acima:
páginas a lápis da biografia de Fidel Castro.
Embaixo: Página a lápis da mesma obra. (Fonte: http://www.carlsen.de/blog/reinhard-kleist) |
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Produção das páginas
Da sequência imaginada no roteiro vem a composição
visual de cada página, a especificação do formato
dos seus quadrinhos a fim de reforçar e valorizar a narrativa.
Os espaços para os textos são pensados durante esta etapa,
ainda que os balões não sejam diretamente desenhados na
página original mas sim adicionados digitalmente. Esse procedimento
não só permite uma maior flexibilidade de formatação
do texto no caso de traduções da obra para diferentes
idiomas, como também valoriza a página como original a
ser vendido como obra de arte para galerias especializadas como a alemã
Laqua
e a francesa Daniel
Maghen. A colocação dos textos definitivos fica por
conta do editor.
Todas as páginas são primeiramente esboçadas a
lápis para que o artista possa ler a narrativa visual do álbum
e mostrá-la a outras pessoas de fora para, mais uma vez, verificar
os pontos em que esta não funciona e precisa ser modificada.
Só após estar seguro da qualidade da narrativa, e ter
feito as correções necessárias, Kleist passa então
à arte-final de cada página com pincel fino e tinta nanquim.
Uma vez concluída a arte-final com nanquim, os traços
de lápis dos esboços são cuidadosamente removidos
com borracha, provavelmente macia, a fim de não danificar a superfície
da folha de papel que, em seguida, receberá diretamente a pintura
na técnica da aquarela.
Colorização direta e a busca pela harmonia de
cores
Esta técnica é usada por artistas já experimentados
e assim menos propensos a cometer erros que os levem a ter que refazer
toda a página, e é chamada de “technique de couleurs
directes” em francês. No caso de Kleist, o papel usado é
o Arches Aquarell Dorée, que além da resistência
e absorção adequadas não é tão caro
como outros papéis especiais.
Como cada página conta com vários quadros, é importante
estabelecer uma boa harmonia de cores nos mesmos como um todo, usando
a cor para marcar mudanças de ambiente e de atmosfera na narrativa.
Assim, a técnica de estabelecer um tom dominante para a página
e pintá-la inteiramente neste tom, deixando-a secar para que
o papel possa esticar suas fibras com o contato da água, é
interessante. Uma vez estabelecida a cor dominante para a página
inteira ou para determinadas partes, a tarefa de escolher as outras
cores torna-se mais fácil para o artista e tende a ser mais coerente
com o tom dominante, criando uma harmonia de cores mais efetiva e agradável.
As zonas mais iluminadas são adicionadas com tinta ecoline ou
aquarela branca.
Dignos de nota na área da colorização são
os artistas Jacques Tardi (“Adèle Blanc-Sec”), cujo
esquema de cores inspirou o da série Hellboy, e a colorista Sherilyn
van Valkenburgh (“Enigma”, “The names of Magic”).
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Acima: páginas
a nanquim da biografia de Johnny Cash.
Embaixo: Página colorida do álbum "Berlinoir".
(Fonte: http://www.comicoriginalart.com/) |
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Prática profissional
O artista ressalta a importância de poder dividir
um atelier com outros artistas, pois facilita a troca de idéias
e disciplina um trabalho que, via de regra, é solitário
e lento. Um artista de quadrinhos pode também trabalhar em ramos
afins como desenho de imprensa, livros paradidáticos, ilustração
de obras clássicas literárias adaptadas para o formato
de livro ilustrado ou quadrinhos como forma de complementar sua renda
e viabilizar seus projetos autorais.
Estratégias comerciais
O sucesso de uma obra de quadrinhos depende, além da boa divulgação
e distribuição do lançamento, da abordagem de um
tema capaz de atrair a parte do público que não lê
quadrinhos habitualmente, como é o caso da biografia de Johnny
Cash e do projeto biográfico sobre Fidel Castro que está
em andamento. Escolhas desta natureza tendem a atrair uma considerável
atenção da imprensa cultural e, consequentemente, atingir
vendagens mais expressivas. O uso dos serviços de um assessor
de imprensa sempre é importante na medida em que pode-se criar
estratégias para atrair a atenção do público
sobre determinado lançamento através de concursos, eventos,
etc.
Ana Luiza Koehler
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Reinhard
Kleist no seu atelier em Berlim.
(Fonte: http://www.reinhard-kleist.de) |
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